O estatuto de «imigrante legal» é um dos conceitos mais complexos na realidade social dos EUA.
 
País que nasceu, cresceu e prosperou muito por força do trabalho dos emigrantes, vindos um pouco de todo o Mundo, os Estados Unidos são o «melting pot» por excelência.
 
Mas não se pense que a questão é literal ou pacífica. Não é, de todo.
 
Tal como em muitos outros aspetos dos EUA, a Imigração revela as contradições da América: mostra histórias fantásticas, mas tem também um lado lunar.
 
Joana Godinho, jornalista portuguesa que vive nos EUA há quase uma década escreveu uma carta aberta ao Presidente dos Estados Unidos, pedindo aos políticos em Washington que tenham uma «visão global» para a Imigração e não apenas medidas parcelares que apenas resolvem alguns problemas.

Foi, de resto, a primeira estrangeira legalizada na América a tomar esta atitude. O «Histórias da Casa Branca» reproduz excertos da carta aberta.
 
Na sequência das medidas anunciadas há semanas por Barack Obama, no sentido de avançar com ações executivas unilaterais, de modo a desbloquear a paralisação do Congresso republicano para uma «Reforma da Imigração» mais vasta, Joana Godinho decidiu escrever um texto que, tendo Obama destinatário, acaba por ter como alvo todo o sistema político com poder de decisão em Washington. 
 
O documento, publicado no conceituado blogue político «The Hill», tem o mérito de exemplificar, com um caso pessoal, como o «gridlock» político em DC pode ser prejudicial para a América real.

«Sr. Presidente: sou uma estrangeira legal que veio para este país impulsionada por sonhos de construir uma vida melhor para mim. Ainda que as suas ações executivas de imigração me tenham deixado orgulhosa, elas também me fizeram questionar se não terei sido parva. Estou na América há quase uma década e sempre com um estatuto de imigração legal. No entanto, não precisei de muito tempo para descobrir que os valores fundamentais da América -- família, trabalho duro, a honestidade, a integridade não -- eram os princípios orientadores da sua política de imigração. Esses valores parecem ter sido enterrados sob o emaranhado de regras de imigração, regulamentos confusos e contra-intuitivos que regem os que tentam uma oportunidade de agarrar o sonho americano», começou por escrever a jornalista portuguesa.
 
Joana Godinho prossegue, na missiva a Obama: «Desde que cheguei à América, os meus sonhos (e ética) foram experimentados e testados de cada vez que se esbarraram neste sistema de imigração quebrado. Para manter o meu estatuto legal, tive que fazer algumas coisas malucas. Por exemplo, tive de me «auto-deportar» de volta ao meu país de origem, só para que o Departamento de Estado pudesse colocar um carimbo no meu passaporte, que me permitisse retornar sob exatamente a mesma situação de visto que eu tinha antes de sair! Outras vezes as regras impediram-me até de visitar um familiar doente sem perder o meu estatuto de imigração.»

Apesar destes exemplos quase desconcertantes, Joana Godinho ressalva: «No entanto, não se engane: permaneço eternamente grata a este país muito especial. Apesar de todas as probabilidades, ainda estou aqui ainda sonhando com o dia em que eu também me tornarei um membro oficial da família americana. Não estou sozinha. Há muitos mais como eu - jornalistas, investidores, empresários, cientistas, pesquisadores, médicos -- todos com contribuições para a cultura da América, tecido social e economia. No entanto, vivemos à mercê de regras e quotas obsoletas e arbitrárias (...). Isso atrasa a América, custa a todos nós, que pagamos impostos, e torna a América menos competitiva num momento tão importante como este». 

Com esta missiva, Joana Godinho congratula-se com a decisão de Obama de avançar com ações executivas sobre Imigração, mas pretende sensibilizar o Presidente e o Congresso para a necessidade de se fazer uma Reforma mais global e compreensiva e não apenas medidas parcelares. 

Além da carta aberta, Joana Godinho publicou também um «tweet» destinado a Obama, com o título da carta publicada no «The Hill», blogue lido pelos principais políticos da capital americana: «Mr. President, what about me?» (Sr. Presidente, então e eu?)

Será que vai ajudar a ultrapassar o impasse legislativo em DC?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»