Treze anos depois de George W. Bush ter pedido ao Congresso autorização para levar os Estados Unidos para a guerra no Iraque (2002), um Presidente dos Estados Unidos voltou a solicitar autorização para uso da força.

Barack Obama cumpriu a intenção revelada na noite do discurso do Estado da União e enviou esse pedido aos líderes do Capitólio.
 
Ao contrário de outros temas lançados pelo Presidente no State of The Union, e que mereceram total oposição da bancada republicana, será dada autorização a Obama para transformar oficialmente em «guerra» as ações que, há vários meses, os EUA têm vindo a fazer em zonas do Iraque e da Síria controladas pelo autodenominado «Estado Islâmico» ( que não é «Estado» nem respeita os princípios «Islâmicos»).

A guerra contra a ameaça do jiadismo sunita está para durar e reúne consenso raro na capital política americana.

O uso da força bélica norte-americana para travar ameaças exteriores tem mais defensores do lado republicano que democrata, mas o Presidente, que nos temas internacionais tem mantido visão realista sobre o uso da força mas também da prevalência da noção de excecionalidade do poder americano, está mais do que à vontade na decisão de bombardear jiadistas que decapitam reféns de forma arbitrária. A execução da jovem Kayla Mueller, friamente confirmada pelo Estado Islâmico, por email, junto da família da norte-americana de 26 anos, voltou a a recordar-nos isso.
 
A teoria do «eterno retorno» pode ter-se confirmado neste «mantra» dos Presidentes dos EUA usarem esse pedido ao Congresso para levarem a América para a guerra.

Mas Obama tem razão quando, na comunicação que fez aos americanos explicando esta campanha contra o ISIS, que «não é um novo Iraque, nem sequer um novo Afeganistão». Não é mesmo.

A coligação internacional liderada por Washington, desde que em setembro passado o Presidente Obama revelou plano para «travar, eliminar e destruir o ISIL», tem feito bombardeamentos aéreos diários, mas até agora o cenário de «boots on the ground» de tropas ocidentais em zonas dominadas pelo «Daesh» (nome árabe para o «Estado Islâmico») não só não se verificou como não se prevê que venha a verificar-se num prazo curto.

A derrota do ISIS em Kobani (cidade chave na fronteira da Síria com a Turquia) mostrou que o EI não é invencível mesmo nos seus redutos. Deveu-se, como bem destacou o secretário de Estado John Kerry, à coragem e à determinação dos guerrilheiros «peshmerga» curdos, e nem sequer exigiu e intervenção direta da infantaria turca.

E se as decapitações dos jornalistas americanos Jim Foley e Steven Sotlof foi, há cinco meses, o ponto de viragem na opinião pública e nos meios políticos dos EUA que levaram ao envolvimento diretos dos Estados Unidos na luta contra a nova ameaça extremista sunita, o horror da morte do piloto jordano, queimado vivo por radicais do EI, foi novo «turning point» nesta fase: levou a um agravar dos bombardeamentos contra o ISIS e reforçou o envolvimento da Jordânia e de outros países da região.

Como bem recordou o rei Abdullah II da Jordânia, «na verdade esta não é uma guerra do Ocidente contra o ISIS. É uma guerra do mundo árabe e muçulmano contra o ISIS. Somos nós as primeiras e principais vítimas».

A «million dollar question» nesta fase é: será que a autorização que Obama obterá da Congresso vai implicar mudança dramática na estratégia, com o envio de tropas americanas para o terreno?

Não há, nesta altura, condições de responder claramente a isso. Mas, pelo menos para já, parece que não. A escalada jordana pós caso do piloto queimado vivo, do mesmo modo que a vitória curda em Kobani, provam que, naquela região, a chave poderá estar no apoio logístico e bélico dos EUA, Reino Unido e França, mas com intervenção direta no campo de batalha de forças locais.

De todo o modo, parece claro também que há uma nova etapa a iniciar-se: mesmo sem um envio maciço (esqueçam números na ordem dos dezenas ou centenas de milhares de soldados, como chegou a acontecer no Iraque e no Afeganistão), é de admitir que operações especiais para eliminar líderes do ISIS ou mesmo tomar pontos estratégicos impliquem o envio de unidades norte-americanas altamente especializadas.

As leis criadas no pós-9/11 deram aos Presidentes dos EUA uma muito maior autonomia na «gestão da guerra». Obama usou esses poderes especiais quando decidiu, em setembro de 2014, iniciar a operação contra o Estado Islâmico, mas passados os 60 dias previstos pela lei, teve que recorrer a esta autorização junto do Congresso, que lhe confere um raio de ação ainda mais alargado.

Prémio Nobel da Paz apenas nove meses depois de ter tomado posse, Barack Obama nunca quis ser «Presidente de guerra», como o seu antecessor gostava de intitular. Mas também nunca fugiu às responsabilidade de quem lidera o país que ainda é, de muito longe, a maior potência militar deste Mundo complicado em que vivemos.

Pode haver quem critique a aparente contradição de um Prémio Nobel da Paz já ter decidido bombardear, em diferentes momentos e situações da sua presidência, sete países diferentes (é verdade: Afeganistão, Iémen, Iraque, Paquistão, Somália, Líbia e Síria).

Mas é preciso olhar para lá das evidências: os EUA têm uma política externa mais contínua, de administração de administração, do que à primeira vista possa parecer. Em quase todos os casos, dos sete países acima mencionados, tratou-se de terminar campanhas e não, propriamente, de as começar.

Análise mais profunda identifica que Obama foi o Presidente que acabou a errada aventura americana no Iraque; terminou a guerra no Afeganistão (uma das mais longas da história americana, 13 anos).

Acima de tudo, Barack Obama tem sido o Presidente das «guerras de necessidade»: a necessidade de travar a ameaça da Al Qaeda (Afeganistão, Paquistão, Iemen e Somália) e, agora, a urgência de travar a ameaça do jiadismo sunita do ISIS (Síria, para lá do Iraque, onde os americanos já estavam).

Mais do que um «Presidente de guerra», estamos a assistir ao evoluir das «novas guerras de Obama».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»