«Tenho um emprego e é um emprego bastante simples. Chego, de manhã, olho para as notícias, vejo os jornais e escrevo piadas sobre isso… Junto umas caretas, faço uns sons. Depois, ao final do dia, saio por uma porta e está feito. Mas hoje não vou fazer isso, desculpem. Não tenho nada para vocês, não tenho piada ou sons, devido ao que aconteceu na Carolina do Sul»
JON STEWART,  arranque do «Daily Show» de quinta
 



«Pessoas inocentes foram mortas, porque alguém que queria infligir sofrimento aos outros não teve problemas em obter uma uma arma nas suas mãos. Agora é o tempo do luto e de sarar as feridas. Mas sejamos claros: em algum ponto, enquanto país, temos que lidar com o facto que este tipo de violência em massa não acontece noutros países desenvolvidos. Não acontece noutros locais com este tipo de frequência. E está em nosso poder fazer alguma sobre isso».
BARACK OBAMA, Presidente dos EUA, a reagir ao massacre de Charleston
 

«Quantas mais pessoas precisam de morrer antes de agirmos?»
HILLARY CLINTON, provável nomeada presidencial democrata, sobre o massacre de Charleston
 

«Há pessoas más neste mundo, que são motivadas pelo ódio»
LINDSEY GRAHAM, candidato às primárias republicanas, senador pela Carolina do Sul
 

Columbine, Colorado, abril 1999; Lancaster County, Pennsylvania, outubro 2006; Blacksburg, Virgínia, abril 2007; DeKalb, Illinois, fevereiro 2008; Tucson, Arizona, janeiro 2011; Aurora, Colorado, julho 2012; Oak Creek, Wisconsin, agosto 2012; Newtown, Connecticut, dezembro 2012; base militar de Fort Hood, Killeen, Texas, abril 2014; Charleston, Carolina do Sul, junho 2015.

Não, não é tudo: a lista de tragédias com armas nos EUA, envolvendo mortes de inocentes, tem pelo menos 64 entradas desde 1982. Ontem, na Emanuel African Methodist Episcopal Church, foi a mais recente e levou nove pessoas. And so the story goes.

Nove pessoas mortas numa igreja, baleadas por um atacante que entrou e disparou indiscriminadamente.

Mais uma tragédia envolvendo o uso de armas nos EUA. A juntar a outras, nas últimas duas décadas, tão ou ainda mais mortíferas. Foram mais de seis dezenas de episódios sangrentos, sempre com vítimas inocentes que estavam apenas no local errado, no momento errado, nos últimos 33 anos.
  
Seria motivo para mudanças políticas e sociais drásticas e imediatas.

Mas sabemos que não será assim.

A questão da posse de armas está nos genes do «ser americano». E aparece logo na segunda emenda da Constituição.

Voltemos a Jon Stewart para perceber porquê:

«Não quero entrar no argumentário político das armas e assim. Mas o que me deixa desconcertado é a disparidade da resposta entre o que as pessoas pensam ser estranho pode matar-nos e o que está a matar-nos. Se isto tivesse sido um ataque de terrorismo islâmico, entraria em nós como tal (invadimos dois países e gastámos triliões de dólares e milhares de vidas americanas e agora também máquinas de morte voadoras e não tripuladas, sobre cinco ou seis países). Torturámos pessoas. Tudo para pôr os americanos em segurança. Nove pessoas mortas numa igreja. E então: ‘Hey, que podemos fazer. Loucos, são loucos não é? Nada a fazer…’ Essa é a parte que não posso, enquanto for vivo, aceitar. Sabem no que esta discussão vai dar. ‘Esta é uma terrível tragédia’. Já estão a utilizar essa linguagem, cheia de ‘nuances’, de falta de esforço em relação a isto.»
 
Uma outra forma de ataque terrorista
 
O apresentador do «Daily Show» vai ao fundo da questão: «Isto é um ataque terrorista. Isto é um ataque violento à Emanuel Church na Carolina do Sul, que é um símbolo da comunidade negra. Ouvi alguém dizer nas notícias: ‘A tragédia visitou esta igreja’. Isto não foi um tornado. Isto foi um ato racista. Isto foi um tipo com o símbolo da Rodésia na camisola. Detesto ter que dizer isto, mas esta foi mesmo uma questão ‘preto e branco’. Não há nuance alguma aqui»
 
«Na Carolina do Sul», recorda Jon Stewart, «as estradas que os negros conduzem têm nomes de generais da Confederação,  que lutavam por manter os negros afastados da possibilidade de guiarem livremente por essas estradas. Isso é insanidade. Isso é «wallpaper» racial. Isso... isso nós não podemos permitir».

Em fevereiro de 2013, em fase de acesa discussão no Congresso a propósito das propostas do Presidente Obama para o «gun control», publiquei na TVI24 esta entrevista com Elliot Fineman,  presidente da National Guns Victims Action Council (NGAC), uma associação norte-americana, politicamente independente, que tem como lema ser «uma força que se bate por uma legislação de armas saudável». 

Fineman, nessa entrevista, advogava a solução das «smart guns», que não permitem que a arma dispare se a impressão digital do atirador não corresponder com a impressão digital do dono legal da arma. 

Quase dois e meio depois, muito pouco ou quase nada mudou.

Eugene Robinson, jornalista e colunista negro, aponta no «Washington Post»: «Talvez tenha sido a raiva branca que levou um jovem a matar nove pessoas inocentes enquanto estavam a rezar. Talvez tenha sido a doença mental ou outro tipo de motivação tortuosa. A única coisa que não temos mesmo qualquer dúvida, e que não pode gerar qualquer tipo de debate, é que foi uma arma».

Armas, racismo e insanidade: os três maiores pecados americanos. 

Deus precisa mesmo de abençoar os Estados Unidos da América.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»