Tinha tudo para ser um dos momentos mais tensos da relação de Obama com os democratas -- mas tudo indica que acabará por ser um dos momentos mais produtivos da relação do Presidente dos EUA com a oposição republicana no Congresso.
  
O acordo com o Pacífico (TPP – Trans-Pacific Partnership), proposto há já dez anos entre EUA e um vasto conjunto de países como México, Austrália, Canadá, Chile, Japão, Malásia, Nova Zelândia, Perú e Singapura, só agora chegou à votação no Congresso norte-americano, depois de um longo caminho de negociações, iniciado em 2012 e concretizado, nos seus objetivos essenciais, em julho de 2014, há quase um ano, na cimeira de Otava, no Canadá.
 
O Presidente dos EUA empenhou-se tanto na concretização deste objetivo que, na linguagem mediática e política norte-americana, o TPP tem sido apelidado de «Obama Trade Deal», ou, simplesmente, «Obamatrade».
 
A par da parceria transatlântica (ideia defendida por Obama no Estado da União 2013 e ainda em fase de negociações com a Europa, o TTIP), o TPP será uma das maiores marcas que Barack Obama pretende deixar até ao final do seu segundo mandato.  
 
Integra-se numa visão multilateral que o atual inquilino da Casa Branca advoga para estreitar laços com vizinhos e aliados estratégicos, reforçando a ideia de que «alargar mercados, desde que de forma regulada, será bom para todos a longo prazo».
 
O Presidente tem defendido que o TPP pode promover o crescimento económico e, por extensão, o aumento dos empregos nos países aderentes. 
 
O problema, para Barack Obama, é que essa não é, de todo, a visão de grande parte do seu partido. E isso ficou bem claro no processo de discussão de detalhes para uma adesão efetiva dos EUA ao TPP.
 
Com fortes ligações aos sindicatos e associações de trabalhadores e a correntes de esquerda, a maioria dos congressistas democratas (sobretudo os membros da Câmara dos Representantes, mas também vários senadores) colocaram-se contra esta ideia, receando que a aplicação de acordo comercial desta dimensão possa pôr em risco a continuidade de muitos postos de trabalho na América.
 
Obama não concorda com essa visão das coisas e, durante o processo de discussão do tema, lembrou por diversas vezes que, nas duas campanhas presidenciais que venceu, deu sempre garante relevância ao argumento de « criar postos de trabalho na América e evitar a fuga de empregos para fora dos EUA».
 
Mais propensos à circulação de capitais e a uma menor taxação da atividade económica, os republicanos foram, por uma vez, os aliados improváveis do Presidente, proporcionando uma aprovação muito significativa no Senado, naquela que foi uma das maiores votações bipartidárias da era Obama.
 
Por 60-37, uma «fast track bill» aprovada pelo Senado acelera a aplicação do TPP em lei para muito breve, dando luz verde a Barack Obama para negociar os pormenores que faltam com os outros países, sem grande espaço para que os democratas na House of Representatives, em minoria, a possam travar.
 
Treze dos 60 votos a favor foram de senadores democratas, ainda que esta «fast track» não garanta a inclusão de Trade Adjustment Assistance, programa de assistência a trabalhadores que possam vir a perder o emprego na sequência da aplicação do acordo.
 
«Estou desiludida que a Trade Adjustment Assistance não tenha sido tão robusta como era necessário para complementar este acordo com o Pacífico. Será um acordo capaz de abranger 40% do comércio mundial nos próximos anos e era necessário garantir salvaguardas», comentou Nancy Pelosi, líder da minoria democrata no Congresso.
 
Nancy, forte aliada de Barack Obama nos últimos anos, teve, desta vez, uma divergência de fundo com o Presidente. E veremos quanto tempo as feridas poderão demorar a sarar.

Hillary entre Obama e o «core» democrata
 
Quem foi apanhada a meio da ponte neste estranho braço de ferro entre democratas foi Hillary Clinton.
 
Se Bernie Sanders, outro candidato presidencial para 2016, ficou incondicionalmente do lado dos sindicatos e dos «House democrats», contra o TPP, Hillary hesitou no posicionamento.
 
No essencial dos grandes temas, Hillary tem estado de acordo com a agenda política de Barack Obama. Mas, desta vez, não foi bem assim.
 
A mais do que provável nomeada presidencial democrata defendeu o TPP no passado, mas, depois de período de silêncio, pronunciou-se nos últimos dias de forma favorável às reservas apontadas pelos congressistas democratas, talvez para estancar o crescimento da corrente à sua esquerda no Partido Democrata (e que tem como dois grandes campeões os senadores Bernie Sanders, do Vermont, e Elizabeth Warren, do Massachussets).
 
«O Presidente deve ouvir e trabalhar com os seus aliados no Congresso, começando por Nancy Pelosi, que expressaram preocupações sobre o impacto que um acordo fraco poderia ter nos trabalhadores americanos e para garantir que termos o melhor e mais forte acordo possível», comentou Hillary, dias antes da aprovação no Senado.
 
Três senadores republicanos (Mike Lee do Utah, Bob Menendez da Nova Jérsia e Bob Corker do Tennessee) não foram à votação.
 
Mas Orrin Hatch, senador do Utah que foi um dos autores da «fast track bill» para acelerar o TPP, apontou o argumento mais forte: «Nos próximos anos, a maior fatia do crescimento económico do Mundo acontecerá fora dos Estados Unidos. Temos que aderir a isto e vamos ganhar com isto».
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»