A oposição republicana ao Presidente Obama teve, recentemente, um novo grau de ferocidade.
 
Um grupo de 47 elementos da nova maioria na câmara alta do Congresso assinou uma carta escrita pelo senador Tom Cotton, do Arkansas, que contém uma clara ameaça a Barack Obama: qualquer acordo que esta Administração venha a celebrar com o Irão, a propósito do nuclear, será revogado pelo próximo Presidente.
 
O cenário chega a ser bizarro e só pode ser minimamente entendido à luz do espírito de vingança de que boa parte dos republicanos parece estar investida, desde o grande triunfo nas «midterms» de novembro passado.
 
O facto é que esta carta introduziu um novo «bater no fundo» numa atitude irresponsável da direita mais acirrada (e que teve outro episódio caricato com o convite a Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita agora reeleito, para para dizer mal da político externa do Presidente Obama em pleno Senado...)
 
Se é verdade que as questões de fundo na política externa dos EUA passam muito pelo Senado, e não apenas pelo Presidente, também é verdade que não basta ao Partido Republicano ter tomado o controlo da câmara alta para poder desenvolver atitude de tamanha agressão ao Presidente em funções -- até porque as perspetivas para as presidenciais de novembro de 2016 estão longe de mostrar, neste momento, um quadro de provável vitória republicana que pudesse sustentar esta «promessa» do senador Cotton e seus pares.
 
A carta aparece num momento de particular tensão na política externa norte-americana.
 
O Irão sempre foi um dos pontos de principal discórdia entre a agenda do Presidente e a visão dos republicanos, agora em maioria no Senado.
 
Mas, mesmo nesse quadro, foi possível ir mantendo algum consenso no processo legislativo: nos primeiros anos, o Senado aprovou largamente o acordo STARTII (assinado em 2010 entre Obama e a Rússia) e o essencial da luta anti-terrorismo e anti-jiadista tem tido apoio bipartidário (o mais recente exemplo disso foi a aprovação, no Congresso, do pedido de autorização do Presidente Obama de utilizar a força para travar o Estado Islâmico).
 
Mas esse «consenso mínimo» parece estar em risco. Desde 2010 que a vontade republicana de eliminar politicamente Obama, via Congresso, foi sendo assumida pelo próprio líder da então minoria (e agora líder da nova maioria) republicana no Senado, Mitch McConnell.  
 
Sem rodeios, o secretário de Estado John Kerry avisou: «Esta carta é inapropriada. Não é o Congresso que poderá mudar um acordo do poder executivo. Não serão elementos que estão há 60 dias ou algo assim no Senado que vão impedir isso. Outro presidente poderá ter visão, mas na nossa opinião, um acordo que poderá beneficiar a paz de muitos países deve ser defendido e não atacado».
 
Na mesma linha, a porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki, comentou: «Como o presidente já disse, esta carta é algo sem precedentes. E coloca-nos a questão sobre se os republicanos querem mesmo ver um acordo, se querem mesmo prevenir que o Irão tenha poder nuclear».
 
Tom Cotton já reagiu a estas críticas de Kerry e do seu Departamento de Estado: «Eu e os outros 46 signatários desta carta estamos focados em impedir que o Irão tenha poder nuclear. E quisemos ser claros a transmitir a mensagem aos iranianos que, no nosso sistema constitucional, enquanto o presidente negoceia acordos com governos estrangeiros, é o Congresso que tem o poder de os aprovar ou reprovar».
 
Para já, pelo menos, os democratas e mesmo republicanos moderados no Congresso parecem imunes à pressão da carta do senador Tom Cotton.
 
Mesmo os congressistas que se mostram dispostos apoiar legislação que preveja sanções contra o Irão: «A carta é incrivelmente inapropriada e infeliz. Isso não diminui o meu apoio à legislação que introduzimos», comenta o senador Heidi Heitkamp, democrata da ala centrista, em declarações ao site «Politico».

Gary Peters, senador democrata do Michigan, vai mais longe: «Esta carta é inaceitável». 

O «chief of staff» da Casa Branca, Denis McDonough, pediu, em carta, ao líder do Comité de Relações Externas, o senador republicano Bob Corker, para não avançar para votação da proposta de dar 60 dias ao Congresso para aprovar ou rejeitar um acordo sobre o Irão.

McDonough considera que a pretensão de Corker «ultrapassa as funções do Congresso» e na Casa Branca até se aponta só para junho como momento para o Congresso discutir o acordo.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»