Uma finalista do curso de direito foi interrompida duas vezes por fiscais de prova enquanto fazia o XVI Exame Unificado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), este domingo, em São Paulo. Charlyane Silva de Souza, de 29 anos usava o «hijab», véu muçulmano que cobre os cabelos, orelhas e pescoço, que segundo as regras do exame da OAB não é permitido.

Charlyane garantiu, em entrevista ao G1, que foi revistada logo que chegou ao local da prova por um fiscal e de seguida foi para a sala onde realizaria a prova. Quando o exame começou, outro fiscal pediu-lhe para se dirigir a outra sala.

«Ela perguntou-me se eu era muçulmana e se eu tinha como comprovar a minha religião, porque qualquer um poderia mascarar-se de muçulmana», conta a estudante.

Quando a candidata voltou à sala, a fiscal chamou o coordenador e vice-presidente da Comissão Permanente de Exame da Ordem dos Advogados, Rubens Decoussau Tilkian, que lhe perguntou se ao tirar o véu para fazer a prova a fazia sentir-se desconfortável.

«Expliquei que o hijab não é um acessório, é uma veste que eu não posso tirar», afirma Charlyane.

O vice-presidente da OAB levou, então, a candidata para uma sala reservada, onde esta realizou a prova sozinha.

«A candidata aceitou retirar o véu, mas disse que, se possível, preferia fazer a prova noutra sala. E como havia essa possibilidade, a candidata terminou a prova noutra sala, no mesmo andar», conta Tilkian.

Segundo as regras do Exame, acessórios «tais como chapéu, boné, gorro, durante a prova seriam retirados durante o exame», sendo que não há nenhuma regra específica quanto ao uso do véu muçulmano.

«Se eles querem que o candidato de uma religião tenha atendimento diferente tem que estar claro», explica Charlyane.

Para serem aprovados no exame os candidatos tinham de conseguir acertar 40 das 80 perguntas. Apesar do resultado só ser conhecido no dia 30, Charlyane diz só ter respondido corretamente a 31 perguntas porque as interrupções duraram cerca de uma hora e fizeram com que se desconcentrasse. Contudo, o vice-presidente garante que a conversa durou apenas três minutos e que a mudança de sala foi feita para uma sala próxima e de forma rápida.

«Tentei resolver o problema de imediato e com um tratamento igualitário», afirma Tilkian.

Em comunicado, a coordenação Nacional do Exame da OAB revelou que vai criar novos procedimentos para prever estas situações.

«Diante do inédito da situação, sem precedente similar que tenha chegado à Coordenação Geral do Exame ao longo das suas 16 edições, a OAB vai estudar novos procedimentos para que constem no edital itens que tenham em consideração o respeito ao credo. Para que nesses casos específicos de religiões que exijam o uso do véu exista procedimentos de fiscalização específicos», pode ler-se na nota.