O Syriza de Alexis Tsipras, partido vencedor das eleições deste domingo na Grécia, já conseguiu acordo com os Gregos Independentes (ANEL) para formar coligação e constituir Governo. No entanto, além de serem ambos partidos anti-austeridade, não há muito em comum entre as duas forças políticas.

Alexis Tsipras, líder do Syriza, e Panos Kammenos, dos Gregos Independentes, reuniram-se esta manhã e anunciaram que «a Grécia já tem Governo», subentendendo uma coligação entre os dois partidos, mas sem adiantarem quais os compromissos acordados e onde ficam nas diferenças ideológicas.

Essa é a verdadeira dúvida, porque, para começar, os Gregos Independentes são um partido de centro-direita, e o Syriza é tido como esquerda radical. Ambos são anti-austeridade, mas enquanto o ANEL anunciava querer anular todas as leis impostas por consequência da troika e anular metade da dívida pública, o Syriza promete diálogo e negociações com os credores - ainda que Tsipras tenha dito no discurso de vitória que a troika é «passado».
 
                          

«Acaba este ciclo de austeridade. A vossa voz anula hoje, sem dúvidas, os resgates de austeridade e da catástrofe. A voz do povo grego diz que agora a troika é passado».


As diferenças notam-se pelos programas eleitorais distintos. O ANEL, que foi fundado por um ex-membro da Nova Democracia, prometia romper com a austeridade e as políticas da troika, ao mesmo tempo que se mostra a favor de políticas anti-imigração, anti-multiculturalismo e de um sistema de ensino Cristão-Ortodoxo. Já o Syriza também prometia o fim da austeridade e a renegociação da dívida, propondo medidas sociais como a reposição do salário mínimo nos 750€ e vales de alimentação e transporte para famílias mais desfavorecidas. No entanto, prometeu diálogo e não sair da zona euro, por não querer, justamente, a austeridade que tal opção poderia acarretar para a Grécia.

Mas logo antes das eleições, Panos Kammenos, disse estar disposto a construir uma ponte que una os dois partidos, apesar das suas diferenças ideológicas, e ajudar o Syriza com a sua experiência em Governar (que o partido de Alexis Tsipras não tem). E ao que tudo indica, Kammenos cumpriu.

Este acordo com outro partido «anti-troika» pode significar que as intenções iniciais do Syriza de «fazer frente» às normas europeias sejam mesmo para cumprir. A escolha desta coligação em vez de uma com o partido mais liberal «To Potami», que ficou em 4º nestas eleições e se mostra pró-Europa, ou com os socialistas do PASOK, que ficou em 7º, faz antever que o acordo pode ter sido conseguido justamente por esse fator. Colocando as diferenças entre esquerda e direita de lado a favor do discurso «anti-austeridade» e da renegociação da dívida pública.

Este lado era, aliás, o mais temido pela Europa em relação a uma vitória do Syriza, e a falta de uma maioria absoluta trazia alguma tranquilidade para a zona euro. Mas com o voto de confiança do ANEL, que converge nesta posição, Tsipras poderá ser mesmo obrigado a cumprir com as políticas «anti-troika» que prometeu.

No entanto, como o Syriza conseguiu alcançar 149 deputados, apenas dois abaixo da maioria absoluta, não são esperados grandes compromissos com o ANEL. Com apenas 13 deputados eleitos, os Gregos Independentes não devem ir além de uma pasta do Governo e as suas políticas mais à direita não devem conseguir força para avançar.

Alexis Tsipras ainda vai reunir-se com os líderes do partido o «Rio» (To Potami) e os comunistas do KKE, ainda que não sejam esperados mais acordos de coligação (até porque o líder do ANEL afirmou durante a campanha que não integraria uma coligação com «O Rio»).

Com a formação do Governo tão rapidamente, Alexis Tsipras terá o seu primeiro «frente a frente» com os líderes europeus já dentro de pouco mais de duas semanas, na cimeira de 12 de fevereiro, em Bruxelas, naquela que pode ser a primeira prova ao novo Governo em relação à Europa.

O Syriza de Alexis Tsipras venceu, este domingo, as eleições na Grécia com mais de 36% dos votos, nove pontos acima da segunda força política mais votada, a Nova Democracia, do primeiro-ministro Antonis Samaras (27%).