Dia sim, dia não, os líderes europeus reúnem-se em Bruxelas. E no edifício Berlaymont, a sede da Comissão Europeia, as luzes estão acesas a noite inteira, com funcionários e políticos insones a prepararem negociações, cenários e anúncios.
 
Mas todos sabem que os planos que contam estão guardados nas gavetas do Ministério das Finanças alemão, em Berlim. Nada está decidido antes do poderoso Bundesministerium der Finanzen (BMF) dar a sua palavra.
 
É lá que reina Wolfgang Schauble, um homem que a imprensa alemã diz ser um europeísta convicto. Aos 73 anos, é certamente um dos Alemães que se recorda da História e do papel da Europa na reunificação da Alemanha, na qual Schauble foi um dos arquitetos.

Provavelmente seria hoje Chanceler federal, no lugar de Angela Merkel, se não fosse o escândalo do financiamento ao seu partido político (CDU) no final dos anos 90.
 
Não aconteceu e ficou-se por ministro, mas continua a ser um dos políticos mais poderosos na Alemanha. E a crise da moeda única deu-lhe a oportunidade de deixar um legado europeu.
 
Hoje sabemos bem quem é o líder incontestado do Eurogrupo, o assento dos ministros das finanças da zona euro. Um órgão informal que ganhou um peso desmedido nos últimos anos. Sem o aval do Eurogrupo, não há nada que Atenas possa fazer pelos pensionistas gregos, ou Lisboa pelos jovens trabalhadores precários portugueses.
 
Ao contrário da maioria dos líderes europeus, Wolfgang Schauble tem ideias claras e amadurecidas sobre o que deve ser a moeda única. E como qualquer Alemão, repete em cada frase: regras, regras, regras. Mas não se importa de deixar um espaço generoso para o arbítrio político. Desde que seja o seu.

Há anos que o ministro alemão tem um problema com a Grécia, a ovelha negra da moeda única, que, por natureza ou desespero, se recusa submeter às regras. Em 2012, quando Merkel aceitou o segundo resgate grego, Schauble não escondeu que preferia resolver a situação de forma diferente.
 
Em Janeiro, os Gregos fartaram-se da receita e elegeram um Governo que prometeu mudar o destino traçado no Eurogrupo. Um governo mal-informado sobre as regras, inexperiente, sem aliados políticos, e que decidiu travar uma batalha que não podia ganhar. Dando a Schauble o pretexto para ir à gaveta buscar um plano antigo.
 
Depois do referendo e com a Grécia à beira da ruína, Alexis Tsipras deu uma cambalhota política completa e preparou-se para aceitar todas as exigências dos credores. A bandeira branca foi a demissão do polémico Yanis Varoufakis, uma mente rebelde com um ego insaciável, a quem parecem escapar as evidências do senso comum.
 
O novo ministro, Euclides Tsakalotos, foi despachado para a reunião do Eurogrupo sem instruções para debater ou negociar. As ordens eram claras: apresentar a rendição incondicional de Atenas.
 
Por essa altura, as instituições europeias e alguns países como a França – que também ameaçaram Atenas antes do referendo – já tinham reconhecido a capitulação do governo grego.
 
Apesar de tudo o que acontecera nos últimos meses, os sinais eram de reconciliação.
 
Mas a Alemanha ainda não tinha falado. Desta vez, o BMF - ministro e a sua equipa de secretários e assessores – voou para Bruxelas autorizado por Merkel e até pelo Vice-Chanceler e líder dos sociais-democratas alemães.
 
A tática escolhida foi brutal e insidiosa, ao mesmo tempo.
 
Pouco depois do início da reunião começou a circular, pelas delegações nacionais em redor da mesa, uma única folha de papel, sem identificação de origem.
 
Em poucos parágrafos propunha-se:

1) Atenas tem de vender bens públicos no valor de 50 mil milhões de euros (através de um fundo controlado pelos credores);
2) se não aceitar a Grécia deve ser convidada a escolher a saída do euro (oferecendo-lhe uma reestruturação da dívida).

 
Uma escolha diabólica. A primeira opção é uma humilhação nacional e a fundação de um programa da troika que praticamente vai colocar a Grécia sob tutela direta dos credores. E só a segunda opção oferece o alívio de dívida que o país precisa e pelo qual o Governo grego lutou.
 
Um país não pode ser expulso do euro. Mas pode ser forçado a aceitá-lo.
 
Pouco depois, o papel já tinha sido identificado como um “documento interno” do Governo alemão. Isto é, não era uma posição formal, mas, depois de devidamente circulado, já não se pensou noutra coisa.
 
Schauble conhece bem as regras e os procedimentos, e também sabe como contorná-los. Oralmente, o ministro exigiu apenas a primeira opção e não falou explicitamente da saída da Grécia do euro. Mas a fronteira foi atravessada, pela primeira vez na história da moeda única.
 
Tudo acompanhado por uma performance pessoal que chocou muitos dos que assistiram à reunião. O ministro alemão deu murros na mesa, agitou-se e vociferou com os poucos que se atreveram a sair-lhe ao caminho.
 
E não foi certamente com o ministro grego que acabou por ser um espectador de uma discussão violenta entre países credores e instituições. Apesar de estarem a decidir o futuro do seu país.
 
Nem o Presidente do Banco Central Europeu escapou à fúria do ministro alemão. A dado momento, Mario Draghi explicava o corte da dívida grega feito no passado quando foi interrompido por Schauble: sim, eu não sou estúpido!
 
Era quase meia-noite e, nesse momento, o Presidente do Eurogrupo decidiu acalmar os ânimos e interrompeu o encontro. Reatado no dia seguinte, o ambiente contudo não foi muito melhor e os ministros passaram as decisões para os chefes de Governo, com uma lista de opções em aberto.
 
Mas a vontade de Schauble prevaleceu. O plano do BMF ficou entre parênteses retos (mais uma vez um formalismo hábil), mas estava lá: saída do euro.
 
Entrou Merkel e Schauble foi para o hotel dormir. Ao contrário de Maria Luís Albuquerque e da maioria dos ministros que passaram a noite em claro, a apoiar os seus chefes. A partir daí qualquer cedência alemã seria da responsabilidade exclusiva da Chanceler, foi o sentido do ato.
 
E foram precisas mais 17 horas seguidas de negociação para chegar a um acordo. Fontes europeias falam em “waterboarding mental" ao primeiro-ministro grego. A dado momento, um funcionário comunitário, abatido, descreveu o ambiente na sala numa palavra: “shitty”!
 
No final, houve consenso e os líderes europeus deixaram cair a opção Grexit. Contra a vontade de muitos e graças à intervenção de França, que luta também por equilibrar forças com Berlim. E até com uma ajuda aritmética de Pedro Passos Coelho. Mais a pressão dos Estados Unidos que não querem uma Grécia descontrolada, numa geografia europeia vital.
 
Mas o acordo, arrancado a ferros, não satisfaz ninguém e é política e economicamente tão difícil para Atenas e para os credores que pode romper a qualquer momento. Esta semana, nas próximas semanas, depois do verão ou mais tarde.

Sendo que, depois da luz verde dos líderes, o processo volta à mesa do Eurogrupo. Onde Schauble continua à espera de concretizar a sua visão.
 
O ministro alemão é irascível, mas também é racional. E tem razão quando diz que a moeda única só sobrevive se tiver credibilidade. A Europa deve mostrar ao mundo e aos mercados que é capaz de resolver os seus problemas e, por isso, não quis a participação do FMI nos resgates financeiros. Foi Merkel que o impôs, para ter um escudo político para se proteger das reivindicações dos países e povos resgatados. Mas Schauble também não tem problemas com as fórmulas de austeridade do FMI.
 
O ministro alemão também sabe que a Grécia se tornou um poço sem fundo. Se o terceiro resgate for para a frente, o país terá recebido 450 mil milhões de euros(!), entre empréstimos e perdões de dívida. 
 
Sabemos todos que muito disso nunca será pago. E como a opção da Europa foi transferir para o contribuinte europeu a dívida grega aos bancos alemães e franceses, o problema é insustentável politicamente junto das opiniões públicas.
 
Depois da narrativa criada, na qual os Gregos estão apenas a pagar os erros próprios, nenhum político europeu atreve-se a dizer a verdade aos seus cidadãos. Não há perdão para os Gregos. Pelo menos, não sem um castigo maior.
 
Os Gregos estão desesperados com anos de austeridade, sem resultados e esperança. E, certo ou errado, mostraram ao mundo que coragem e espírito de luta não lhes falta. Um sentimento que, com as devidas diferenças, também corre em Portugal e no Sul da Europa.
 
E não é só a Sul, em verdade ninguém está satisfeito. Também os Bálticos ou os países de Leste, que fizeram grandes esforços para entrar no euro, estão zangados por terem de pagar pelos problemas de países mais ricos.
 
E Schauble manobra com mestria a insatisfação e o medo de uns e outros. Prometendo-lhes que tem planos para uma vida melhor.
 
O euro só existe há 16 anos, mas viveu os últimos cinco em crise profunda.
 
A vida na moeda única não têm sido boa para quase nenhum país. Portugal, Espanha, Itália e França perderam riqueza e competitividade (e as três últimas são as maiores economias depois da Alemanha).
 
Mesmo no Norte da Europa há recessão e a Finlândia, por exemplo, prepara-se para anos de austeridade, que podem fazer regredir progressos sociais e económicos conquistados com esforço, boa gestão e paz social, ao longo de décadas. A crise é de quase todos e não foi por acaso que um partido neo-nacionalista está agora no governo finlandês, catapultado pela insatisfação popular, manipulada no ressentimento aos Gregos e aos imigrantes.
 
Só há um país onde os benefícios do euro são evidentes: a Alemanha.
 
Os Alemães aceitaram o euro relutantemente mas também prepararam-se bem. Políticas de dumping salarial, uma moeda menos forte do que seria hoje o marco alemão, um enorme mercado interno comunitário, milhões de europeus do Sul ávidos de progresso material a quem os bancos alemães emprestaram dinheiro sem limite. Tudo isto serve bem a Alemanha e o seu modelo baseado nas exportações.
 
E com a crise do euro a Alemanha recebeu uma nova dádiva: o país tem poupado fortunas com taxas de juro negativas nos mercados. Num mundo novo em que o crédito é escasso, Berlim saiu por cima.
 
Ao contrário dos seus países aliados, a Alemanha não tem problemas de dinheiro. Nem mesmo com a Grécia.
 
A prova disso é que Schauble está disposto a perdoar a dívida grega se o país sair do euro. E a pagar muitos milhões para um programa humanitário e social ao país, para que o castigo não pese na consciência dos Alemães.
 
A solução vai custar mais dinheiro aos contribuintes alemães do que manter a Grécia no euro, mas quem realmente têm os cofres cheios pode pagar. Mas como explicá-lo aos pobres Eslovacos e Lituanos? Ou aos milhões de desempregados portugueses e espanhóis?
 
Schauble tem mais planos nas gavetas do ministério.
 
O ministro alemão sabe que o euro não vai sobreviver sem um salto em frente na integração europeia, sabe que é preciso completar a arquitetura para corrigir as injustiças e os desequilíbrios de forma da moeda única. O diagnóstico está feito por todos mas continua à espera do remédio.
 
Enquanto a Alemanha continuar a aforrar como se não houvesse amanhã, um amanhã de progresso não vai existir para os outros países. O maior desequilíbrio da Zona Euro é a própria política económica da Alemanha.
 
Mas como corrigi-lo?
 
Para os países devedores há agora muitas regras e condições, criadas ou reforçadas nos últimos anos.
 
Tornou-se moda repetir que a Grécia não é o único país que tem a sua vontade democrática, que há outras 18 soberanias. E outras ainda fora do euro.
 
Sim, mas essas regras que nos conduzem foram criadas sob pressão extrema dos mercados financeiros, num momento em que Espanha, Itália e a própria França tremeram. Num clima de pânico e medo, a escolha forçada foi aceitar o que em grande medida é uma imposição de Berlim: mais disciplina orçamental, espartilhos e mais espartilhos. Que jogam a favor dos interesses da Alemanha.
 
Digamos que tudo isso era necessário e está feito. Mas e o resto?
 
A Comissão Europeia bem pode (timidamente) condenar os gigantescos excedentes orçamentais. Berlim nem finge que ouve.
 
Mas Wolfgang Schauble não é um político como os outros, não tem paciência nem tempo para apenas gerir o momento. Não é como Angela Merkel, que só avança quando há consenso e a situação já apodreceu.
 
Não, o ministro Schauble quer realmente “salvar” o euro e a Europa. Com a sua visão e sobretudo à sua maneira.
 
Por isso prometeu aos países aliados que haverá mais, depois de estabelecidas e cumpridas as regras. Em verdade, Schauble nem se preocupa muito com o detalhe nas contas ou se as reformas são adequadas, neste ou aquele país. O que o ministro alemão exige é confiança e obediência. Quando estabelecidas, Schauble promete que também vai se entregar nas mãos dos outros. Confia em mim e obedece e um dia seremos iguais.

A visão foi filtrada e está hoje nas análises da imprensa séria alemã: a República Federal deseja uma Europa à sua imagem, com partilha de poder e supervisão entre instituições fortes. Com regras claras, mais burocratas e menos interferência política. E para que isso aconteça está disposta a abdicar de mais fatias da soberania nacional, em favor da Europa. Assim que poder confiar nos outros.    

Em Lisboa ou Madrid - onde há Governos alinhados com Berlim (como quase todos) - se escutarmos bem, ouvimos os ecos dessa promessa secreta. União bancária, subsídios de desemprego europeu, um ministério das finanças comunitário, planos para o crescimento, e um dia as euro-obrigações. Um dia, um dia. Berlim tem sossegado as impaciências. Muito pau, alguma cenoura.
 
E esperamos. Por ora, contando com a solidariedade alemã disponível apenas sob a forma dos programas da troika. A estritamente suficiente para não trazer abaixo a casa que a Alemanha governa.
 
O problema é que a visão e as promessas de Schauble exigem uma solução para a Grécia. A própria existência da moeda única exige uma solução para a Grécia. E, já agora, os Gregos também precisam de uma solução europeia que realmente os ajude.
 
É aqui que os caminhos não se cruzam.
 
Schauble sabe que a solução justa e democrática - perdoar a dívida grega, mantendo o país no euro – não está disponível politicamente (nem o ministro gastou capital político para que estivesse). E mesmo que estivesse, seria um mau exemplo para os outros, que certamente iriam pedir o mesmo.
 
E com a Grécia, a receita da troika não permite sequer disfarçar, como em outros países resgatados. A montanha da dívida grega é tão grande que não resulta adiar prazos de pagamento e períodos de carência, como já foi feito. Simplesmente não resiste a uma análise séria. E a alternativa – espremer os Gregos com mais IVAs e corte nas pensões de reforma – já ultrapassou os limites sociais e políticos. Dos Gregos e dos outros.
 
É o FMI que o diz, ao propor um corte gigantesco na dívida grega. Não conseguindo, o Fundo prepara-se para deixar a Grécia à sua sorte. Ou melhor nas mãos de Schauble.
 
Por isso, o ministro alemão tem um plano. Sai a Grécia e avança-se com os outros.
 
O dinheiro, escasso para quase todos, não é problema para a Alemanha. O que é preciso são regras, credibilidade e confiança. Primeiro para os outros, depois para Berlim.
 
A partir daqui vamos aceitar que estamos todos convencidos. Governos, mercados e cidadãos europeus. Os Gregos não querem sair do euro, mas isso é problema deles. E culpa dos oligarcas e do Syriza.
 
Esqueçamos que a experiência vai ser brutal para eles, pode pôr em causa o projeto europeu e a segurança do continente. Esqueçamos até que a Grécia é o país do Mediterrâneo a que chegam mais refugiados, empurrados pela fome e guerra.
 
Vamos aceitar que o Grexit pode ser controlado e gerido. Depois do dracma, não vai regressar o escudo português. Depois da Grécia não serão ameaçados, nesta ordem, Chipre, Portugal e Espanha.
 
Tudo vai correr bem. Já percebemos todos que a Grécia é um caso especial. E contamos com uma resposta musculada do Banco Central Europeu. E depois disso com um salto de gigante na integração europeia. Apesar de estarmos todos zangados uns com os outros e, neste momento, nenhuma opinião pública o desejar.
 
Mas vamos aceitar o que a maioria das pessoas no Norte e Leste (e muitos no Sul) pensa: é preciso um Grexit para limpar o ar.
 
Limpemos então o ar, aceitando o plano de Wolfgang Schauble?
 
Mas afinal o que nos propõe o poderoso ministro alemão? Um novo começo para a moeda única fundado num ato de punição, num exemplo de medo e sofrimento, no sacrifício da Grécia? Uma Europa mais longe da herança helénica, refundada nos princípios germânicos?
 
Aceitemos, aceitemos. Mas quem nos garante que não haverá outros países sacrificados mais tarde? Quem nos garante que a Alemanha cumpre a sua parte da promessa e que dá um salto em frente, justo e desinteressado, a bem do euro, da Europa e de todos (neste caso, à exceção dos Gregos)?
 
Estamos de acordo, não há Europa sem a Alemanha. Só a Alemanha pode colar um projeto europeu a tantos países tão diferentes e estranhos uns aos outros.
 
Mas o problema da confiança é mútuo.
 
Wolfgang Schauble já mostrou que tem planos, convicção e punho de ferro no exercício da autoridade.
 
Mas o que pede aos outros é um salto de fé. Em linguagem popular, o que nos propõe é um “Fia-te na Virgem”. E Schauble é muitas coisas mas não é certamente uma virgem.
 
Talvez seja melhor procurar um plano noutra gaveta.