O objetico de acelerar o financiamento da luta contra as alterações climáticas é um "desafio imenso", mas os países devem fazer tudo para ultrapassá-lo, defendeu o primeiro-ministro das ilhas Fiji.

Frank Bainimarama, que foi o presidente da última conferência das Nações Unidas para o clima da ONU, realizada em Bona, em novembro, participa na Cimeira Um Planeta (One Planet Summit), em Paris, uma iniciativa do Presidente francês, Emmanuel Macron para assinalar os dois anos do Acordo de Paris.

"O desafio é imenso, devemos fazer tudo para o ultrapassar", declarou o primeiro-ministro das Fiji, insistindo na importância dos financiamentos públicos e privados, na abertura da reunião que terá a presença de outros chefes de Estado e de Governo, como o primeiro-ministro português, na tarde de hoje.

O Presidente francês lançou a ideia da realização desta cimeira depois do anúncio da intenção de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, por Donald Trump.

Ativistas contra as alterações climáticas aproveitaram o encontro, que deverá juntar cerca de 50 responsáveis políticos, o secretário-geral da ONU e o presidente do Banco Mundial, para realizar um protesto simulando uma vaga de petróleo.

Algumas centenas de manifestantes estavam hoje junto ao monumento Pantheon, próximo do local da reunião dos representantes políticos, mas também financeiros e empresariais, além de personalidades como Sean Penn, Arnold Schwarzenegger ou Elon Musk, e tinham um enorme cartaz onde se lia "Mais nenhum euro para as energias do passado".

Algumas horas antes da abertura da reunião, o chefe de Estado francês voltou a referir, numa entrevista à cadeia norte-americana CBS, a "responsabilidade face à História" do Presidente dos EUA por ter anunciado a retirada do país do Acordo de Paris.

Disse, no entanto, que acredita que Donald Trump "vai mudar de opinião nos próximos meses ou anos".

Presidente francês diz ser indispensável mobilização "muito mais forte"

O Presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu ser indispensável "uma mobilização muito mais forte" para limitar a subida da temperatura do planeta abaixo dos 2º Celsius, numa entrevista publicada no jornal Le Monde.

Cerca de 50 chefes de Estado e de Governo, como o primeiro-ministro português, além do secretário-geral das Nações Unidas e do presidente do Banco Mundial, participam hoje na Cimeira Um Planeta (One Planet Summit), na capital da França, uma iniciativa do Presidente francês para assinalar os dois anos do Acordo de Paris.

"Estamos muito longe do objetivo do Acordo de Paris de conter a subida das temperaturas abaixo do nível dos 2ºC e, se possível, 1,5º. Sem uma mobilização muito mais forte e um choque nos nossos modos de produção e de desenvolvimento, não conseguiremos", afirmou Emmanuel Macron.

Os compromissos internacionais "colocam-nos atualmente numa trajetória [que leva] aos 3,5º de aquecimento do planeta", apontou.

O Acordo de Paris, conseguido em dezembro de 2015 e que entrou em vigor em novembro de 2016, estipula a redução das emissões de gases com efeito de estufa de modo a tentar limitar a subida da temperatura média do planeta aos 2º Celsius.

As alterações climáticas estão relacionadas com o aumento da frequência de fenómenos extremos de calor, chuva e frio, levando a secas ou cheias, além do aumento do nível das águas do mar.

Para reduzir as emissões, alterando o paradigma económico - para uma economia circular - e apostar na adaptação às mudanças do clima são necessários investimentos muito elevados, uma questão que ainda não está esclarecida entre os países.

União Europeia quer ser plataforma global para investimentos verdes

A União Europeia quer ser "a plataforma global" para os investimentos em tecnologias verdes aproveitando a dimensão do mercado único e pretende apresentar um "plano de ação sobre finanças sustentáveis" nos próximos três meses.

Esta é uma das dez iniciativas anunciadas pela Comissão Europeia na Cimeira Um Planeta (One Planet Summit), a decorrer em Paris, promovida pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, e que reúne chefes de Estado e de Governo, além de outras personalidades, para marcar os dois anos do Acordo de Paris contra as alterações climáticas.

Com o objetivo de tornar a Europa a referência mundial sobre este tema, a 22 de março de 2018 deverá realizar-se em Bruxelas uma conferência de alto nível sobre "o papel dos serviços financeiros na transição para uma economia sustentável", referiu o vice-presidente do executivo comunitário Valdis Dombrovskis.

O desafio para a União Europeia (UE) para cumprir os seus compromissos estipulados no Acordo de Paris no horizonte 2030 e concretizar a transição energética passa por captar 180 mil milhões de euros anuais de investimentos, mas isso, alertou o responsável europeu, só se conseguirá com o setor privado.

"Precisamos de um efeito 'bola de neve' que atraia mais investidores" e, ao mesmo tempo, que estes "olhem além do lucro a curto prazo", defendeu o vice-presidente da Comissão Europeia.

Por isso, a sua ideia de integrar o critério de "sustentabilidade" nas regras dos gestores de fundos e dos investidores institucionais.

Trata-se de fixar "uma linguagem comum para o que é considerado verde e sustentável" através de uma definição europeia e uma classificação de obrigações verdes e fundos de investimento verdes, o que, defende, vai acelerar a entrada de capital.

Valdis Dombrovskis considerou que os bancos necessitam de maiores incentivos para entrar na economia verde e, por isso, a Comissão Europeia está a analisar formas de alterar as suas obrigações de capital para acelerar os investimentos e os créditos.

Outra das iniciativas comunitárias é o plano de investimento externo destinado a países em desenvolvimento em África e aos seus vizinhos, como a Ucrânia, a partir do fundo para o desenvolvimento sustentável.

A partir de uma base de 4,1 mil milhões de euros de verbas orçamentais, a meta é atrair 44 mil milhões de euros de investimentos.

O executivo comunitário também prevê ajudar as cidades a aplicar as suas próprias medidas para atenuar os efeitos de aquecimento global, as ilhas a reduzir a dependência energética através de fontes renováveis e regiões fortemente dependentes do carvão a transformarem a sua economia em outra de baixas emissões de dióxido de carbono.

Também pretende avançar com um novo instrumento para financiar projetos para conseguir edifícios mais eficientes no consumo de energia e redirecionar investimentos para a inovação em energias limpas e ciências do clima.

Portugal é “front runner”

O ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, disse, em Paris, que Portugal está a assumir um papel de "front runner", ou seja, na linha da frente na luta contra as alterações climáticas.

O governante, que está a participar na cimeira de chefes de Estado e de governo "One Planet Summit", na capital francesa, lembrou que Portugal se comprometeu, no ano passado, em ser neutro em carbono em 2050.

"Portugal, no contexto da União Europeia certamente, está aqui a assumir um papel de ‘front runner', alguém que corre à frente, ao dizer que em 2050 vamos ser neutros do ponto de vista das emissões de gases carbónicos", declarou, acrescentando que Portugal o afirmou "antes de quase todos".

João Matos Fernandes disse que "Portugal é um país que sofre bastante - já hoje - das alterações climáticas" e que o país tem "muito boas experiências para contar", apontando, nomeadamente, um filme apresentado na ‘One Planet Summit' sobre o que a cidade de Lisboa tem feito para combater as alterações climáticas.

O ministro enumerou, ainda, que Portugal "é um dos países que tem uma maior quota de energia elétrica produzida a partir de energias renováveis", que está "a investir cerca de 200 milhões de euros para reforçar a resiliência do litoral" e que "as frotas das empresas de transportes coletivos de Lisboa e do Porto estão a ser substituídas - mais ou menos metade - para autocarros de elevadíssima performance ambiental".

O ministro lembrou, também, que as novas contribuições nacionais na luta contra as emissões de gases com efeito de estufa vão ser apresentadas em 2020, porque "o somatório dos resultados de Paris" não chega para conseguir que as temperaturas não aumentem mais de dois graus em relação aos valores pré-industriais, uma das metas do Cimeira do Clima de Paris de 2015 (COP 21).

"Paris é um acordo fantástico, um acordo multilateral, um acordo em que cada país deu o seu melhor, mas se nós somarmos o compromisso de todos não chegamos aos 1,5, máximo 2 graus", afirmou.

No entanto, João Matos Fernandes disse acreditar que em 2020 já deverá haver bons resultados.

"Quero acreditar que da maneira como estamos a andar depressa, muito mais depressa se calhar do que aquilo que a opinião pública imagina, eu acredito que o somatório das contribuições de 2020 já nos vai pôr onde queremos", continuou.

O responsável pela pasta do Ambiente acrescentou que "o que Portugal tem aqui [cimeira de Paris] a fazer não é receber nada, é dar", no sentido de "reforçar o seu compromisso com as políticas de baixo carbono" e destacou que a ‘One Plannet Summit' constitui "sobretudo uma expectativa para o planeta".