A polícia francesa foi avisada que o segundo atacante da igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, na região francesa da Normandia, estava a planear um atentado, mas não conseguiu identificá-lo. Isto quatro dias antes de o padre Jacques Hamel, de 86 anos, ter sido degolado e um paroquiano ter sido gravemente ferido, num crime reivindicado pelo Estado Islâmico.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, as forças francesas de segurança revelaram ter recebido um alerta do estrangeiro e uma fotografia de um indivíduo – identificado esta quinta-feira como Abdel Malik Nabil Petitjean - mas não tinham ideia do nome ou de onde e quando ele iria atacar. Por causa disso, as autoridades não foram capazes de relacionar essa informação com o jovem de 19 anos, de Aix-Les-Bains, na região de Savoie, no sudeste da França, que há menos de um mês foi incluído na ficha S, a lista de observação dos serviços secretos franceses, por ter tentado viajar para a Síria.

Os serviços de inteligência franceses afirmam que as autoridades turcas, que “apanharam” Petitjean a caminho da Síria no dia 10 de junho, não os informaram durante 15 dias que tinham detido o jovem.

Os serviços secretos colocaram-no na ficha de S no dia 29 de junho e alertaram as autoridades na fronteira para que o prendessem quando ele regressasse a França, mas o jovem passou despercebido pelos serviços de segurança e voltou ao país.

Cerca de 10 mil pessoas em França constam da ficha S, a maioria delas alegados extremistas religiosos, mas as autoridades dizem que é impossível manter cada uma delas debaixo de olho.

Abdel-Malik Nabil Petitjean, de 19 anos, nasceu en Saint-Dié-des-Vosges, na região de Savoie, no dia 14 de novembro de 1996. O jovem nunca tinha sido condenado pela justiça, razão pela qual as impressões digitais e o ADN não constavam nos registos da justiça.

Petitjean era procurado pelas autoridades por suspeitas de radicalização e como potencial ameaça à segurança, depois de tentar entrar na Síria a partir da Turquia.

O jornal francês L’Express e o site 20 minute.fr, que citam uma fonte da investigação, referem que a identificação de Malik Petitjean foi feita através de testes de ADN. O nome do jovem era mencionado pelos investigadores desde quarta-feira, mas o corpo não tinha sido formalmente identificado até esta quinta-feira. Durante a intervenção da polícia, na praça da igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, na terça-feira de manhã, o atirador foi baleado no rosto, tornando-se impossível a identificação visual.

Três pessoas da família de Petitjean foram interrogadas pela polícia e as autoridades fizeram buscas em casa da família, indica a mesma fonte da investigação. Até ao momento, no entanto, nada indica que estas pessoas estejam envolvidas no crime, acrescenta.

Conforme refere o The Guardian, e também o L’Express e o 20 minutes.fr, a 22 de julho, quatro dias antes do atentado à igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, a Unidade de Coordenação da Luta Antiterrorista emitiu um comunicado, no qual dizia "ter sido destinatária de uma informação de uma fonte confiável sobre um indivíduo que estaria pronto para participar de um atentado no território nacional". Essa informação era acompanhada de uma fotografia do indivíduo, que seria Petitjean.

Na quarta-feira, o bilhete de identidade de Petitjean foi encontrado na casa do outro suspeito, identificado como Adel Kermiche, de 19 anos, que também estava na mira das autoridades depois de ter tentado, por duas vezes, viajar para a Síria para se juntar ao Estado Islâmico.
 

Quem era Abdel-Malik Nabil Petitjean?

O segundo extremista envolvido no assassinato do padre francês Jacques Hamel era, de acordo com as pessoas que o conheciam, um jovem tranquilo, que frequentava a mesquita e que só há pouco tempo entrou nos radares dos serviços antiterroristas.

"Não te preocupes. Está tudo bem, dorme. Amo-te", foi a última mensagem que o jovem enviou para o telemóvel da mãe.

Malik Petijean tinha a mesma idade que o cúmplice, Adel Kermiche, e, como ele, a família era originária da Argélia. Morava na turística localidade de Aix-les-Bains, nos Alpes franceses, a 700 quilómetros de onde realizou o ataque.

Abdel-Malik Nabil Petitjean obteve um diploma técnico em 2015 e, desde então, trabalhava de forma temporária no aeroporto de Chambéry e depois numa loja.

De acordo com curriculum vitae, Petijean gostava de filmes de ficção científica, videojogos, música e boxe. No bairro modesto em que morava, os vizinhos descrevem-no como um jovem perfeitamente normal.

Enquanto o apartamento da família era revistado pelos serviços antiterroristas, a mãe, Yamina Boukezzoula, não conseguia acreditar na culpa do filho.

"Não, não, não. É impossível. Conheço o meu filho, ele é bom. Eu não criei um diabo", disse a mulher à BFMTV.

“Ele nunca falou do Estado Islâmico… nós somos pessoas positivas, falamos de coisas boas… ele é o meu menino”, acrescentou.

Abdel Malik Petitjean tinha duas irmãs e teve uma infância normal. A mãe contou que o filho lhe disse que ia visitar um primo em Nancy, no leste do país, mas admitiu que nem ela, nem a filha de 17 anos tinham notícias dele desde segunda-feira à noite.

Na quarta-feira à tarde a mãe ainda se agarrava à crença de que o filho nada tinha a ver com o ataque em Saint-Étienne-du-Rouvray.

"Malik, sou eu, a mãe, não sei onde estás. Tenho uma notícia má. Liga para mim porque a polícia veio cá a casa e está a dizer asneiras. Espero que não te tenha acontecido nada, filho. Amo-te", disse a mulher, na mensagem que deixou no telemóvel do filho.