O Alto-Comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi, declarou-se preocupado com o “clima de xenofobia” na Europa, numa entrevista à agência France Presse em Teerão, antes de se assinalar na segunda-feira o Dia Mundial dos Refugiados.

“A responsabilidade dos homens políticos devia ser explicar que a imigração, em certos aspetos, contribui para o desenvolvimento das sociedades e que os refugiados (…) precisam de proteção, pois eles não representam um perigo, mas fogem de sítios perigosos”, afirmou Grandi, que se deslocou ao Irão para evocar a situação dos refugiados afegãos no país.

“Aqueles que fazem o contrário e se juntam à opinião pública contra os refugiados e os migrantes criam um clima de xenofobia que é muito preocupante atualmente na Europa”, disse, adiantando que tal “dá um mau exemplo aos países” que não estão na União Europeia (UE).

Filippo Grandi, que assumiu funções em janeiro, lamentou que “as boas decisões” tomadas no ano passado pela UE para melhor gerir o afluxo de milhões de refugiados “não tenham sido aplicadas”.

Esta foi “uma oportunidade perdida”, porque depois “cada país tomou decisões separadamente, fronteiras foram fechadas”, afirmou.

“Espero que no futuro a Europa retome a discussão para ter um sistema de gestão de fluxos dos refugiados mais coletivo e colegial, baseado na solidariedade e na partilha das tarefas entre Estados”, disse.

Preocupante, segundo Grandi, é também a situação “dos deslocados” no interior dos países em guerra, particularmente no Médio Oriente.

“Dois terços dos deslocados no mundo são deslocados internos”, disse, referindo existirem “milhões no Afeganistão, na Síria, no Iraque, no Iémen”.

“São os mais difíceis de alcançar porque estão no meio das guerras e por isso é perigoso ir ajudá-los”, adiantou o Alto-Comissário das Nações Unidas.

Filippo Grandi desloca-se hoje para o Afeganistão, onde decidiu passar o Dia Mundial dos Refugiados, considerando que a crise dos refugiados neste país “tem sido, infelizmente, regularmente esquecida”.

Segue-se o Paquistão, sublinhando Grandi que “os países vizinhos do Afeganistão, o Irão e o Paquistão, foram os que mais apoiaram os refugiados (afegãos) durante o período de tempo mais longo”.

O responsável elogiou as autoridades iranianas pelo trabalho de acolhimento dos refugiados afegãos, que ascenderão a perto de um milhão no país, segundo números da ONU. Além destes, legais, o Irão terá dois milhões de clandestinos afegãos, frequentemente trabalhadores sazonais.