«Disseram nas praças que sim, que se pode, e nós queremos demonstrar que podemos». Era janeiro de 2014 quando o professor de Ciências Políticas Pablo Iglesias lançava com estas palavras o projeto de formar um partido para concorrer às Europeias. Nascido da onda de protestos contra a austeridade, das fileiras dos Indignados e dos descontentes, cinco meses depois o Podemos conquistou 1,2 milhões de votos, quase 8 por cento do total, elegeu cinco eurodeputados e foi a quarta força mais votada em Espanha.

Centenas de pessoas voltaram a sair esta noite à rua, agora na praça de Sánchez Bustillo, em Madrid, para festejar o momento com Iglesias. Cantaram «o povo unido nunca mais será vencido» e, claro, o mote por trás de tudo isto: «Sí se puede».

Pablo Iglesias, que tinha como currículo público a participação regular em debates e tertúlias televisivas, é o rosto de um movimento que junta muita gente e em poucos meses conseguiu organizar-se para chegar aqui. Fê-lo através de crowdfunding, financiado por quem quis participar. Juntou mais 90 mil euros para a campanha, sem pedir dinheiro a bancos, e apresentou faturas para justificar todos os gastos.

A lista e o programa resultaram de um debate alargado, no qual participaram 30 mil pessoas. O «Podemos» quis assumir-se como uma alternativa de esquerda, de luta contra a corrupção e de luta pela regeneração da democracia. Entre as medidas que propõe no seu programa estão a renegociação da dívida espanhola, o combate à corrupção através do fim do segredo bancário ou dos paraísos fiscais. Assumiu que um dos objetivos era roubar votos aos socialistas do PSOE. Atingiu-o, entre vários outros.

Resultados em Espanha

Não foi só o Podemos. Outros pequenos partidos de cidadãos, com a força assente em formas novas de descontentamento e no poder das redes sociais, conseguiram excelentes resultados, no rescaldo de umas eleições em que os gigantes PP e PSOE perderam claramente, mesmo se a vitória global foi dos populares (é a primeira vez na história que, juntos, não conseguem metade dos votos). O movimento Ciudadanos elege dois eurodeputados, os verdes da Primavera Europeia um.

Mas o Podemos foi mais longe. E, no discurso de celebração, Iglesias elevou a fasquia. «O nosso desafio é converter-nos em alternativa de Governo. É o princípio do fim do bipartidarismo», defendeu.