A crise na Nicarágua, que já causou mais de 285 mortos, foi descrita esta quinta-feira como “muito preocupante” pela representante do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Alicia Londoño.

A situação é muito preocupante, esperamos o fim da violência”, disse Alicia Londoño, depois de se reunir com representantes de organizações humanitárias e movimentos da sociedade civil.

Na reunião, a equipa das Nações Unidas foi informada sobre as cidades que mais sofreram com a repressão do governo de Daniel Ortega e os diferentes tipos de violação dos direitos humanos.

"Foi uma sessão muito introdutória. Pudemos apresentar diferentes aspetos dos problemas do país e estamos encorajados porque eles vão ficar o tempo que for necessário", disse a presidente do Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (CENIDH) Vilma Núñez.

As violações dos direitos humanos incluem "assassinatos, execuções extrajudiciais, maus-tratos, possíveis atos de tortura e detenções arbitrárias cometidas contra a população predominantemente jovem", segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que foi rejeitada pelo Governo da Nicarágua.

Alicia Londoño disse que nesta fase inicial da visita, que vai durar até o fim de semana, o trabalho da equipa das Nações Unidas é exploratório, de modo a definir depois qual o papel a adotar.

Desde 18 de abril, a Nicarágua está mergulhada na crise sociopolítica mais sangrenta ocorrida desde os anos 1980, também com Daniel Ortega como Presidente.

Os protestos contra Ortega e a mulher, a vice-presidente Rosario Murillo, começaram por causa de reformas fracassadas da segurança social e transformaram-se depois em exigências de demissão do chefe de Estado, depois de 11 anos no poder, alvo de acusações de abuso de poder e corrupção.

EUA exigem devolução de carros doados à polícia da Nicarágua

A embaixada dos Estados Unidos na Nicarágua informou quarta-feira que exigiu a devolução ou o pagamento das viaturas doadas à polícia daquele país, por considerar que estes estão a ser usados para "reprimir" a população.

A decisão é justificada pelos Estados Unidos pelo facto de os veículos estarem a ser utilizados para "reprimir violentamente as vozes de quem protesta pacificamente contra as ações do Governo" da Nicarágua, referindo-se aos protestos que já causaram mais de 280 mortos no país.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Nicarágua, Denis Moncada, escreveu na rede social Twitter que a polícia começou a devolver na terça-feira as viaturas doadas pela Administração norte-americana.

"Hoje [terça-feira] foram devolvidos os veículos à embaixada dos Estados Unidos e agora exigimos o pagamento de 16 mil milhões de dólares (13,8 mil milhões de euros) como reparação da guerra que financiaram em território nicaraguense com os grupos 'contra'", publicou o governante.

Denis Mincada referia-se a danos causados à Nicarágua por financiar grupos 'contras' que lutaram com armas contra o governo revolucionário sandinista (1979-1990).