Um cirurgião negro que atendeu os polícias feridos no tiroteio de Dallas, EUA, na semana passada, lamentou as mortes dos cinco agentes que não resistiram aos ferimentos e apelou para a necessidade de existir uma discussão mais aberta sobre os problemas raciais nos EUA, que levam a estes eventos.

Brian Williams contou que entende os motivos que levam alguém a guardar raiva contra a polícia, porque também ele já temeu pela vida em encontros com agentes, em situações que não pressupõem uma intervenção severa das autoridades. O cirurgião esclarece que com isto não quer dizer que apoia qualquer ato como o que levou à morte dos cinco agentes.

Eu entendo a angústia que se sente quando és abordado por um agente de uniforme. Já vivi isso, entendo. Mas para mim isso não significa que se deva apoiar o desrespeito e a morte de agentes da polícia. Abomino o que foi feito contra estes polícias e lamento a perda das famílias”, afirmou Williams, segundo o Washington Post.

O ex-militar da Força Aérea contou, à Associated Press, que há uns anos, vestido à civil, passou um sinal vermelho e foi abordado por um agente. Foi obrigado a sair do carro e a colocar as mãos no capô enquanto era revistado. Williams considera que a atitude do agente foi excessivamente agressiva, porque a maioria das pessoas não é forçada a sair do carro.

Numa outra ocasião, o médico foi abordado à porta de casa enquanto esperava por um colega que o ia levar ao aeroporto. Alegadamente, alguém chamou a polícia porque desconfiou da presença de Williams naquele local. Quando o agente chegou, o ex-militar teve de provar que vivia ali e apenas estava à espera de um amigo.

Estou sempre a rezar para que o encontro termine”.

Novamente, Williams esclarece que essas situações nunca colocaram em causa o seu apoio às forças de segurança.

Quero que a Polícia de Dallas saiba que eu os apoio. Eu defendo-vos e tratarei de vós, mas isso não quer dizer que não tenha medo. Não significa que não me vou preocupar com a minha segurança quando me abordarem.”

O cirurgião garante, no entanto, que não consegue esquecer o que viveu naquela noite.

Penso [naquela noite] todos os dias, que não fui capaz de salvar aqueles polícias que chegaram [ao hospital]. Aquelas mortes pesam na minha consciência constantemente”, contou Williams em conferência de imprensa, visivelmente emocionado.

Cinco polícias foram mortos e quatro outros ficaram feridos na sexta-feira por um atirador negro após uma manifestação contra a violência policial registada em duas situações recentes em Baton Rouge e Falcon Heights, nas quais dois homens negros foram mortos por polícias brancos.