A justiça norte-americana pediu, na segunda-feira, “profundas desculpas” a Paul Gatling, um homem de 81 anos que há 52 foi condenado injustamente da autoria de um homicídio.

Mais de 40 anos depois de sair da prisão, este idoso saboreou finalmente a liberdade ao ver o seu cadastro limpo. Esta decisão é o culminar de um trabalho de dois anos de uma comissão para revisão de penas e de uma vida inteira a declarar a inocência após a morte de um homem em 1963.

 

Paul Gatling abandonou Nova Iorque e foi viver para a Virginia, mas, embora longe, embora os anos tenham passado, nunca esqueceu os nove que passou na cadeia por um crime que não cometeu. Por isso, quando há dois anos viu um artigo num jornal sobre as ações levadas a cabo por esta comissão para apurar casos cujas sentenças tenham sido erradas, o idoso resolveu contactar a advogada que tinha conseguido a sua liberdade condicional há mais de 40 anos.

A advogada, ainda no ativo, não teve o trabalho facilitado. Tantos anos depois, muitas das testemunhas já tinham morrido, mas, ainda assim, foi possível apurar que alguns direitos de Paul Gatling não foram salvaguardados, nem o júri teve acesso a toda a informação.

E que informação era essa?

Em outubro de 1963, Lawrence Rothbort, um artista plástico, morreu alegadamente na sequência de um assalto à sua casa, em Nova Iorque. Depois de algumas hesitações, a mulher do pintor acabou por identificar Paul Gatling como o “negro” e “alto” que entrou na sua casa e atirou sobre o marido quando este se negou a entregar o dinheiro. Também o testemunho de um vizinho do casal, que afirmou ter visto Gatling no bairro naquela noite, contribuiu para a tese de que o homem que alegadamente assaltara a casa era mesmo ele, na altura com 29 anos. Como se não bastasse, a defesa, na altura, sugeriu a Paul Gatling que se declarasse culpado, para assim, evitar a cadeira elétrica.

Em 1964, Paul Gatling foi condenado a uma pena entre os 30 anos e a prisão perpétua. Foi solto ao fim de nove, quando um dos apelos foi deferido pelo governador do Estado, mas, no cadastro ficou sempre a menção à condenação por homicídio.

Afinal, soube-se agora que o casal tinha discussões violentas e da existência do caso de adultério da mulher, grávida do terceiro filho em 63. Factos apurados pela investigação e que não chegaram ao conhecimento do júri e que podiam ter mudado o rumo do julgamento, como refere o New York Times.