“Barack Obama era demasiado bom para o merecermos”

Maureen Dowd, New York Times

“Caros liberais, tenham mais fé no vosso legado. Donald Trump não é o apocalipse”

Alan Draper, USA Today

“Parem de travar a vontade do eleitorad americano”

Donald Trump, Presidente dos EUA

Há uma espécie de sentimento de negação coletiva a dominar os primeiros 500 dias, assinalados esta semana, da presidência de Donald Trump nos EUA.

A América continua a ser um grande país – diverso, livre e heterogéneo – mas os sinais de resistência do sistema aos perigos de ter alguém como Trump na Casa Branca nem sempre se mostram tão fortes e sólidos.

Com Trump na presidência dos EUA, mais de 80% dos juízes federais nomeados são de tendência muito conservadora. Ora, isso não espelha a realidade atual dos Estados Unidos – mas terá consequências reais nas decisões chave para os próximos anos.

Com Trump na presidência dos EUA, a mítica “estabilidade dos consensos bipartidários” em questões como a rota da política externa nas relações com a UE e restantes ‘aliados permanentes’ dos Estados Unidos passou ao caixote do lixo da história. A América deixou de ser um parceiro confiável, rompeu acordos, tratou mal países amigos de longas décadas. O ‘amigo americano’ tornou-se, subitamente e com traços perturbadores, uma ameaça potencial e crescente. Não era suposto.

Com Trump na presidência dos EUA, o Departamento de Estado viu-se esvaziado dos seus melhores quadros, as embaixadas americanas um pouco por todo o mundo e mesmo postos chave perderam peso e conhecimento diplomático. A atual administração parece não acreditar na influência do ‘soft power’ e nas relações duradouras e baseadas na confiança. E aposta tudo no ‘jogo de póquer’ do Presidente e no seu estilo de ‘diplomacia acelerada’. 

“Vamos ver o que acontece…”

Ao ‘podem confiar em nós’, que marcava o estilo de Obama (tanto com Hillary como secretária de Estado como depois com Kerry), sucedeu o ‘let’s see what it happens’ (vamos ver como isto vai correr) com que Trump costuma antecipar os momentos internacionais mais delicados, como a preparação da cimeira com Kim Jong-Un ou a saída hostil americana do acordo nuclear do Irão. 

“Vamos ver o que acontece…” não deveria ser uma estratégia política aceitável para um Presidente dos EUA. O problema é que, definitivamente, não vivemos em “tempos normais”. 

Com Trump na presidência dos EUA, a rota americana na forma de liderar deixou de se fundar em grandes valores e em estudos aprofundados: passou a acreditar-se numa espécie de ‘wishful thinking’ perturbador para quem está por dentro da complexidade dos dossiers. Isso ficou bem patente, por exemplo, no modo como Kushner se apresentou na inauguração da embaixada americana em Jerusalém ou nos inacreditáveis zigue-zagues da posição de Trump em relação ao que, afinal, poderá mesmo acontecer a 12 de junho com a Coreia do Norte: ia haver cimera; não ia haver cimeira; até podia haver, mas se não houvesse não havia problema nenhum. Disruptivo e muito pouco profissional.

Desistência americana 

Com Trump na presidência dos EUA, a América abdicou de ser um farol de Liberdade no seu sentido mais lato. O atual inquilino da Casa Branca revê-se mais nos estilos de Putin, Erdogan ou Xi Jinping (“um dia destes temos que fazer algo assim na América”, foi o comentário de Donald dias depois do líder chinês ter recebido poderes tendencialmente vitalícios e do Partido Comunista Chinês ter adotado o pensamento de Xi como linha oficial a seguir por todos) do que em líderes como Macron, Merkel ou Trudeau. 

Com Trump na presidência dos EUA, a América perdeu a face. Lançou fogo para a gasolina do Médio Oriente (ao rasgar o Acordo do Irão, pôs em risco o elemento de maior estabilização dos últimos três anos) e comprometeu por muito tempo o papel de mediador que os EUA assumiam há décadas na região, ao escolher totalmente o lado de Israel (o reconhecimento precoce de Jerusalém como capital matou qualquer esperança real de uma solução de “dois estados” em que Jerusalém Oriental pudesse vir a ser a capital de um futuro estado palestiniano). 

Com Trump na presidência dos EUA, a América continua a ser o país mais inovador, líder na tecnologia e no conhecimento, com as melhores universidades e as empresas mais prósperas. Mas não por causa do Presidente. “Apesar” do Presidente e graças a uma sociedade civil incrivelmente dinâmica, autónoma e poderosa. A atual administração americana desdenha o conhecimento científico, promove cortes absurdos na investigação, recusa as evidências das alterações climáticas.

 

Com Trump na presidência dos EUA, a mentira passou a ser a linha oficial. Os limites do poder presidencial, bem delimitados naquele sistema de “checks and balances”, são constantemente desafiados por um Presidente que não acredita na necessidade do contrapeso, desrespeita minorias e desfaz alianças, ameaça os poderes que possam rivalizar os seus.

Com Trump na presidência dos EUA, os ‘media’ passaram a ser o inimigo de estimação, o poder judicial é desafiado na sua independência sempre que exibe a sua autonomia perante o peso do Presidente. A instabilidade passou a ser norma na administração, mesmo em postos chave que, até esta bizarra presidência, não costumavam depender diretamente da avaliação política do Presidente. O secretário de Estado durou um ano, o conselheiro-chefe estratega aguentou sete meses, conselheiros de topo em áreas como a Economia ou em setores de política externa caem como tordos, diretores de comunicação já se perdeu a conta (este é o quinto, certo?), tendo um deles durado… dez dias. 

Nunca se viu tal coisa no número 1600 da Pennsylvania Avenue, Washington DC.

Recuperação silenciosa

A Casa Branca, nestes 500 dias trumpianos, perdeu prestígio e deixou de ser uma referência. 

Trump passou quase um ano com níveis de popularidade historicamente baixos (os mais baixos de sempre em primeiro ano de mandato desde que há contagens diárias da Gallup), mas nos últimos meses tem vindo a obter uma recuperação silenciosa, mas claramente identificável.

A Taxa de Aprovação deste presidente estará, aos 500 dias de função, entre os 41 e os 43,5%, dependendo dos estudos. Ora, sendo isso ainda bem menos que metade do eleitorado, a verdade é que se trata de um valor em tudo idêntico ao que tinha Obama pela mesma fase do mandato – e a verdade é que Obama, apesar de tanta fama de ser “impopular e incompreendido pelos americanos”, obteve uma reeleição confortável em 2012. 

Acontecerá o mesmo com Trump em 2020? É muito cedo para responder. Acima de tudo, porque neste momento é absolutamente impossível de prever quem desafiará Trump do lado democrata. O partido de Obama, Hillary e Bill está completamente paralisado: não consegue assumir a liderança da oposição a um presidente inaceitável e está dividido entre apostar num “impeachment” cada vez menos provável e tentar compreender as razões pelas quais alguns segmentos tradicionalmente democratas continuam a apoiar este presidente. 

A recuperação de Trump pode ter a ver com os efeitos imediatos do “choque fiscal” (que a curto prazo beneficia a classe média, embora em muito menor grau que as maiores fortunas e a banca), mas significará igualmente uma espécie de “normalização do inaceitável” que é ainda mais perturbadora.

Prioridades políticas vão e vêm: que surgir a seguir a Trump na Casa Branca pode tentar reverter o essencial, do mesmo modo que Donald está a tentar estragar tudo o que de bom Obama fez em oito anos. 

Algo mais profundo se perdeu

Mas há algo de mais profundo que está a mudar durante esta estranha era trumpiana: a América parece ter entrado em negação sobre o que lhe aconteceu a 8 de novembro de 2016. 

Em vez de se notar uma clara condenação da sociedade americana sobre o comportamento inaceitável deste presidente, o que vemos é uma sociedade cada vez mais dividida entre quem tem acesso à informação e quem não tem.

Os republicanos, que no início se indignavam com os disparates de Trump nas primárias, têm passado por um processo de absorção do essencial da narrativa deste Presidente: à conta do “America First”, boa parte do eleitorado do GOP passou a ter uma agenda unilateralista e protecionista, aceitando a receita da culpa “dos chineses e dos mexicanos” e pondo em causa bases essenciais do comércio internacional e das relações externas, que marcaram décadas do posicionamento republicano.

Não é só Lincoln que deverá estar às voltas no túmulo por causa do estilo “bully” de Trump em relação às minorias. Nixon e Reagan certamente não caucionariam o modo como Trump deitou fora décadas de aproximação americana à China e hostiliza, de modo primário, regras básicas do comércio internacional.

É costume reagirmos aos dislates de Trump com um encolher de ombros ou um sorriso paternalista. 

O que estes 500 dias nos mostraram é que o tema é muito mais sério e grave. 

A América resistirá a Trump – mas, depois disto, talvez nunca mais volte a ser a mesma.