Durante seis meses, um jornalista fez-se passar por um aspirante a jihadista e, assim, conseguiu entrar numa célula do Estado Islâmico, em França. Um trabalho de alto risco para mostrar "o que vai nas cabeças" dos jihadistas. 

Durante seis meses, o jornalista infiltrado filmou e recolheu depoimentos dos jihadistas que atuavam em nome do Estado Islâmico. O documentário “Os soldados da Alá” vai esta segunda-feira para o ar, na televisão francesa Canal +, mas o repórter já levantou o véu. Duas conclusões se retiram deste trabalho: a manipulação dos jovens e as falhas do sistema policial.

 

 

O jornalista usou o nome de Said Ramzi e diz ser da mesma geração do que os terroristas que levaram a cabo os ataques de Paris, em novembro de 2015, e que vitimaram 130 pessoas. Muçulmano, o jornalista – que assinou o trabalho sob pseudónimo e a sua identidade não é revelada por questões de segurança - começou por referir, em declarações citadas pela AFP, que “não viu nada do Islão” nestes contactos.

Ramzi tinha como “objetivo perceber o que vai dentro daquelas cabeças” e só encontrou “jovens frustrados e facilmente manipuláveis”, que “tiveram o azar de nascer na era do Estado Islâmico”. 

O repórter adiantou que o contacto com a célula foi muito fácil, através do Facebook, e que o responsável pelo grupo, que até estava obrigado a apresentações periódicas na esquadra, ia fazendo planos para um ataque terrorista através de mensagens na rede social Telegram. Reside aqui uma das grandes falhas do sistema policial francês, que, segundo disse ao Telerama, “os gendarmes não têm serviço de cibercrime em árabe” e “usam o Google Translate” para decifrar as mensagens em árabe no Telegram.  

Foi fácil chegar até estes jovens, mas ganhar a sua confiança não é tão fácil. Ainda assim, Said Ramzi veio a ser contactado para perpetrar um ataque suicida numa discoteca. O jornalista encontrou-se com uma mulher numa estação de comboios, que lhe entregou uma mensagem: atacar um clube noturno, matar o máximo possível e fazer-se explodir.

Said não chegou ao paraíso

O grupo de jovens muçulmanos, que admirava os irmãos que protagonizaram o massacre à redação do Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, não chegou levar o ataque em diante, já que a segurança em torno dos aspirantes a mártires apertou e vários foram detidos.

A investigação de Said Ramzi terminou pouco depois, quando ele recebeu uma mensagem a dizer: “Estás feito”. O jornalista não adiantou se avisou a polícia, mas, ficou a saber, a dada altura do trabalho, que as autoridades estavam a monitorizar o grupo.

Num dos contactos que teve com um autoproclamado “emir”, com dupla nacionalidade, francesa e turca, este motivou-o a tornar-se bombista suicida: 

Vem irmão, vamos para o paraíso, as mulheres estão à nossa espera e vamos ter anjos como servos”.