Segundo congresso, menos de três anos de existência e o Podemos arrisca-se a ficar feito num oito. O partido de esquerda, apelidada por muitos de radical, que surgiu dos protestos nas ruas contra as políticas de austeridade e se impôs como terceira força política em Espanha, tem este fim de semana a sua maior prova de fogo.

A imagem de que se têm vindo a afiar as facas é sobejamente usada pela imprensa espanhola. Que fala mesmo de punhaladas frequentes antes da "faena" do congresso entre as hostes do "diestro" e secretário-geral Pablo Iglesias e do seu número dois e amigo desde os tempos da faculdade, Íñigo Errejón.

Creio que essa divisão existe. Acho normal haver uma disputa de liderança. Mas essa divisão é real", reconhece, em conversa com a TVI24, Marisa Matias, a eurodeputada que lida diariamente no Parlamento Europeu com cinco colegas do Podemos, no grupo da Esquerda Unitária Europeia.

Mesmo que as divergências se possam considerar como algo normal no seio dos partidos, a disputa no Podemos já teve o condão de virar os holofotes de todos para o seu congresso, que decorre no multiusos Vistalegre, em Madrid. Mas se as luzes focam a atenção da maioria dos observadores, o que se prevê ver por lá pode não ser um espetáculo muito animador.

Quase certo é que o congresso do Podemos não irá fazer sombra à reunião magna que o Partido Popular leva a efeito neste mesmo fim de semana, igualmente na capital espanhola. Onde o primeiro-ministro Mariano Rajoy deverá ser aclamado. Quiçá, levado em ombros.

Com o agendamento do congresso para Madrid, no mesmo fim de semana que o do PP, Pablo Iglesias pretenderia mostrar as diferenças entre um partido novo e um outro "de casta", segundo a análise do jornal El País. Só que surgiram-lhe amargos de boca, com estratégias políticas alternativas e efetiva disputa de liderança. Que, depois de uma fase mais polida, apenas com indiretas, já se aproximou do confronto pessoal.

Tão amigos que já fomos

O verniz estalou. De vez, entre Pablo Iglesias e Íñigo Errejón. Conhecem-se e são amigos, pelo menos desde os bancos da Universidade Complutense de Madrid, onde estudaram Ciência Política. Agora, defendem caminhos divergentes para o Podemos, que criaram em 2014, na sequência dos protestos do movimento Indignados contra a austeridade a que Espanha foi sujeita, devido à pressão da União Europeia.

Íñigo tem 33 anos. É o número dois do partido, até este momento, e defende agora que se devem tentar pontes de aproximação com os tradicionais socialistas do PSOE. Que continuam a ser a segunda força na política espanhola, de onde o Podemos não os conseguiu destronar nas eleições de junho. Mesmo aliando-se à coligação Izquierda Unida (IU), criada em torno do PC espanhol.

Para Íñigo, como disse recentemente numa entrevista à rádio Cadena Ser, sem a aproximação ao PSOE, será mais difícil retirar o PP do poder.

Já Pablo, de 38 anos, secretário-geral do Podemos defende uma postura independente de esquerda. Sem aproximação premeditada aos socialistas. Mesmo assumindo que a última coligação com os comunistas da IU não correu como previsto. Juntas, face à soma anterior de ambas, as duas forças acabaram por perder 1,2 milhões de votos nas eleições de junho.

Não creio que tenha sido uma estratégia errada. Porque a estratégia não se faz só de resultados eleitorais, embora esses sejam importantes. Não correu bem. Nem para o Podemos, nem para a IU e eles já reconheceram essa derrota eleitoral", sustenta a eurodeputada Marisa Matias, analisando o momento do jovem partido espanhol.

Até há dias, tanto Íñigo quanto Pablo, preferiram manter a disputa apenas no plano político-ideológico. Mas a demissão de nove apoiantes do número dois da direção regional de Madrid terá sido a gota de água que fez transbordar o copo.

Esta sexta-feira, Pablo Iglesias, na manhã da rádio Cadena Ser acusou Íñigo de "atirar a pedra e esconder a mão". Desafiou o adversário a ser "valente" e a abandonar a ambiguidade, assumindo as suas diferenças políticas. Quanto à escolha do congresso, acredita que vai ganhar, mas diz-se pronto a sair, em caso de derrota.

Em vésperas do congresso, há muito mais agora a separar Pablo e Íñigo, do que a uni-los, num diferendo que passa até pelo sistema de contagem dos votos na reunião, além de acusações aos apoiantes de cada um.

É lamentável essse contorno mais pessoal, porque é uma parte que não é relevante para ninguém", sustenta a portuguesa Marisa Matias, para quem "o Podemos já criou o seu próprio espaço e a questão não é pessoal, é política. E não haverá assim tantas divergências".

"Conseguirá dar a volta por cima"?

De fora, mas atenta e a observar o congresso do Podemos - que não terá convidado nenhuma delegação de partidos que lhe são próximos no estrangeiro, caso do Bloco de Esquerda (BE) - a eurodeputada Marisa Matias defende não ser de recear "o debate interno, que deve ser feito e que se faz em todo o lado. Em que o Bloco não é exceção".

De facto, há pouco mais de dois anos, o Bloco de Esquerda viu-se dividido entre a liderança bicéfala de Catarina Martins e João Semedo e o desafio de Pedro Filipe Soares. As propostas enfrentaram-se na convenção de novembro de 2014. Não sem antes terem dividido até fundadores do BE, como Francisco Louçã e Fernando Rosas, por um lado, e Luís Fazenda, a apoiar o então pretendente ao lugar de coordenador.

O que se passou no Bloco não é comparável. Creio que, em Espanha, as divergências são muito mais profundas e não sei se o Podemos conseguirá dar a volta por cima como deu o BE", considera Marisa Matias, para quem, "o Pablo chega mais às pessoas".

Para a eurodeputada portuguesa, "as pessoas precisam de políticas claras, para que se identifiquem com elas. Sem dúvidas".

A mensagem anterior do Podemos era algo dúbia, quando se dizia que não eram nem de esquerda, nem de direita e tinham um programa claramente de esquerda", acrescenta Marisa Matias.

A eurodeputada prefere assim "uma identificação clara com a esquerda" e aproxima-se claramente da posição de Pablo Iglesias, para quem "o Podemos tem de perceber que a política tem a ver com instituições e governação, mas também com uma família que não consegue chegar ao fim do mês", como afirmou em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Assumir-se de esquerda não impede o Podemos de poder fazer coligações futuras com o PSOE. Para quem tenha dúvidas, basta ver o que se passa em Portugal. Agora, não me parece que traga algo de novo, apontar isso, desde logo, como um compromisso", defende Marisa Matias.

Certo, ou pelo menos adivinhável, é que nada será como dantes no Podemos, após o congresso deste fim de semana. E está em jogo o futuro de um partido que representa um quinto do eleitorado espanhol, que conseguiu mais de cinco milhões de votos, logo na primeira vez que foi às urnas em eleições gerais.

O Podemos teve uma trajetória fulgurante. Não é comum um partido crescer e tornar-se incontornável na sociedade espanhola em tão pouco tempo. E eles têm a noção de que não tinham estruturas preparadas para esse crescimento", considera a eurodeputada, Marisa Matias.