A crise hídrica em São Paulo entrou definitivamente na campanha eleitoral brasileira e pode custar a presidência ao candidato do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), Aécio Neves. Dilma Rousseff (PT – Partido dos Trabalhadores) tinha assegurado que não ia explorar o tema «de forma eleitoreira», mas a sua candidatura distribuiu, em São Paulo, um panfleto em que associa o problema ao Governo estadual liderado por Geraldo Alckmin (PSDB, o mesmo partido de Aécio Neves), reeleito na primeira volta das eleições brasileiras.

«O PSDB tentou fazer você de bobo na eleição para governador. Dê o troco na eleição para presidente. Não vote Aécio», dizia o panfleto. 

 

A equipa de Dilma Rousseff passou a explorar o tema para resgatar votos que eventualmente Aécio Neves estaria a conquistar, depois de declarações da presidente da Sabesp (concessionária dos serviços básicos de São Paulo), Dilma Pena, em que admitia que pode faltar água na região durante o mês de novembro. Fontes petistas, citadas pelo jornal «Estado de São Paulo», afirmam que há sondagens a mostrar que a declaração de Pena tem aumentado a rejeição a Aécio no estado de São Paulo.

Assim, o PT está a aproveitar para acusar o PSDB paulista de ter escondido a verdadeira gravidade da situação antes da primeira volta das eleições que elegeram Alckmin. Esta segunda-feira, em conferência de imprensa, Dilma Rousseff falou no assunto por, diz ela, estar solidária com o sofrimento das pessoas e para mostrar que o modelo de gestão do PSDB não está a resultar. «Um modelo que meu adversário político não só defende, como representa», disse.

Acusações mútuas

Aécio Neves culpou o Governo federal por falta de apoio ao governo estadual. «Talvez o que tenha faltado seja uma parceria maior do Governo Federal. Por exemplo: a Agência Nacional de Águas, criada pelo Governo de Fernando Henrique Cardoso, se não tivesse no Governo do PT servido outros fins. Nós nos lembramos muito bem quais foram as indicações, os critérios para se ocupar cargo na diretoria da ANA. Ela poderia ter sido uma parceira maior do Governo [estadual]», disse Aécio Neves, numa ação de campanha em Minas Gerais. 



«Qualquer tentativa de transmitir responsabilidade para o Governo federal, nós olharemos com grande estranheza. Não acredito que as estruturas do Governo do Estado podem atribuir a nós qualquer responsabilidade ou qualquer omissão na ajuda. Nós ajudamos em todas as circunstâncias», sublinhou Dilma Rousseff, numa conferência de imprensa em São Paulo.    

Dilma acusa ainda Alckmin de orgulho e de não ter aceite a ajuda do seu Governo quando ela foi oferecida: «Eu disse para o governador: “o senhor devia fazer obras emergenciais, porque tudo indica que esta seca se prolongará e vocês não têm capacidade de abastecimento de água suficiente”». Mas, segundo Dilma, Geraldo Alckmin não quis fazer obras de emergência.

Aécio tenta colocar o tema a seu favor e promete ajuda ao Governo estadual para ultrapassar o problema: «Meu Governo não vai terceirizar responsabilidades. Vai assumir as suas e agir em parceria. Serei parceiro de Alckmin para enfrentar estas e outras questões».

«O governador estava esperando que chovesse»

O estado de São Paulo vive uma das piores crises hídricas de sempre. Um problema que também afeta o estado de Minas Gerais, de onde é originário Aécio Neves. Pelo menos 67 municípios de ambos os estados têm sofrido interrupções no abastecimento de água nas últimas semanas. De acordo com o jornal «Folha de São Paulo», a falta de chuva está a formar uma espécie de «cinturão de seca» que vai desde a Grande São Paulo até ao Sul de Minas Gerais.

Dilma já comparou a situação à crise energética de 2001, quando Fernando Henrique Cardoso era presidente do Brasil, e que resultou mesmo num racionamento de energia. «Concordo que esta seca é mais intensa que a de 2001 e 2002, quando houve um ano de racionamento “brabo”. Porque não houve [desta vez]? Porque passámos a planear o crescimento e o investimento no setor elétrico», disse. 

 

Questionada se considerava que o Governo estadual tinha mudado o comportamento em relação ao assunto depois da primeira volta das eleições que reelegeram Alckmin, Dilma foi taxativa: «Acho que o governador estava esperando que chovesse».

Empate técnico mantém-se

Enquanto esta e outras questões aquecem uma das campanhas mais truculentas de que há memória na democracia brasileira, novas sondagens colocam Dilma e Aécio num empate técnico, mas desta vez com a candidata do PT à frente. A sondagem Datafolha (encomendada pela TV Globo e pelo jornal «Folha de São Paulo») atribuem 52% dos votos válidos a Dilma e 48 a Aécio.

Assim, na última semana de campanha para a segunda volta das presidenciais brasileiras, os dois candidatos continuam empatados, no limite da margem de erro, que é de dois pontos percentuais. Mas é a primeira vez que nesta segunda volta Dilma aparece à frente.

A Datafolha anterior, divulgada a 15 de outubro, atribuía 51% dos votos válidos a Aécio Neves e 49% a Dilma Rousseff.