“Eu sempre fui o outro dos outros”, diz a mulher que já foi homem e que continua a ser cristã e também candidata a um lugar no Parlamento de Ancara. 

Deva Özenen foi ouvida pelo diário espanhol “El País” que a apresenta como um dos muitos exemplos da abertura da Turquia, nação eurasiática de esmagadora maioria muçulmana e, tantas e tantas vezes, violentamente homofóbica.

Candidata à entrada na União Europeia, a Turquia terá nas legislativas do próximo domingo (7 de junho) um teste à consolidação dos progressos sociais e políticos de um país que durante décadas teve como timoneira a máxima: “Um só Estado, uma só Nação, uma só língua, uma só bandeira”. 

Um lema que, por um lado, é convite à união e unidade mas que, por outro, ameaça pôr em risco a diversidade cultural e social deste que é um país, metade europeu, metade asiático. 

A votos vão 20 partidos e mais de 150 candidaturas independentes, a diversidade é por isso garantida, já menos segura é a entrada dos pequenos partidos no hemiciclo de 550 lugares. O sistema eleitoral não favorece as pequenas formações. Uma reforma eleitoral de 1980, na sequência do golpe militar, estabelece que só os agrupamentos políticos com 10 por cento da votação, ou mais, têm lugar na assembleia de Ancara. 

No entanto, este é um quadro legislativo que convive com sondagens recentes que apontam para a forte possibilidade de os turcos passarem a ser mais representados politicamente na casa da democracia. Tudo indica, o hemiciclo será mais plural. Sendo esperada a inédita eleição de um deputado cigano, de um yazidi (pequena minoria religiosa) e de pelo menos um arménio, ao fim de 51 anos. 

Conquistas democráticas das quais não ficaram alheados os cristãos, que talvez consigam eleger meia dúzia de parlamentares numa assembleia na qual, hoje, senta-se apenas um deputado não muçulmano. 

Os analistas, concretamente os torcedores de uma Turquia mais liberta de um excessivo peso da religião, invocam a história recente para alimentarem a expectativa de que o próximo ato eleitoral vai premiar as minorias. Foi assim em 2007, quando os curdos, a maior minoria étnica da Turquia, conquistaram um grupo parlamentar de vinte deputados.  

Um feito hoje encarado como o precedente, o pé de cabra, que forçou a abertura da hermética caixa das opções políticas, que parecia abrir-se apenas para as três grandes formações partidárias, com o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) - no poder há 13 anos - à cabeça, seguido do Partido Republicano do Povo, da oposição de centro esquerda e em terceiro o Partido do Movimento Nacionalista (MHP).

E assim, noutra resenha histórica, é também possível concluir-se que quase cem anos passados sobre a fundação da República da Turquia, oficialmente proclamada a 29 de outubro de 1923, seguida da expulsão do território da família real otomana e a abolição do califado, claro sinal da laicidade e irreversibilidade do regime, este domingo, o legado de Mustafa Kemal, o primeiro presidente da República Turca, tem condições para ficar mais consolidado.