Espanha vai a eleições gerais a 20 de dezembro e as sondagens já começam a sair do forno. Bem como a mensagem política que os partidos querem passar, dando-lhes a volta ou comparando até com o que se está a passar em Portugal. Dois desenvolvimentos pré-eleitorais: o partido Ciudadanos, que já existe há 10 anos mas só agora alcançou a posição de terceira força política, está a recolher cada vez mais apoio; e o atual chefe de Governo e líder do PP – de direita - já deixou um aviso que os socialistas do seu país podem vir a fazer o mesmo que António Costa em Portugal e aliar-se à esquerda.
 
"Espero que isso não se passe em Espanha e que a lista mais votada possa governar já que, em democracia, foi o que sempre vivemos em Espanha”. É o desejo de Mariano Rajoy, à chegada ao Congresso do Partido Popular Europeu, que decorre até quinta-feira em Madrid. E foi mais longe na classificação do Bloco de Esquerda e do PCP: 

"O Partido Socialista [está] a aliar-se com quem quer que seja para que não governem os mais votados"


Rajoy está convencido que o PSOE de Pedro Sanchéz pretende fazer o mesmo. E, por isso mesmo, recordou os acordos que os socialistas conseguiram depois das últimas eleições municipais e autonómicas em 13 comunidades autónomas. O PP ainda foi o partido mais votado globalmente -  em várias autonomias e cidades-chave como Madrid -, mas os socialistas lá viabilizaram acordos à esquerda, afastando os populares do poder em várias regiões.

Mas há um terceiro elemento que pode perturbar as pretensões governativas tanto do PP como do PSOE, os partidos tradicionalmente no poder no país vizinho: o Ciudadanos.


Quando um partido mais pequeno pode ser a chave

 
Segundo os resultados da última sondagem conhecida, divulgados esta quarta-feira pelo jornal conservador ABC, o partido liderado por Albert Rivera, 35 anos, está a conquistar eleitores centristas, tanto com pendor de esquerda como de direita, roubando apoio aos dois principais partidos.
 
O Ciudadanos arrisca-se mesmo a ter um papel cimeiro num parlamento que se antecipa fragmentado depois do escrutínio do fim do ano.
 
É que, segundo a sondagem, o PP do atual chefe de Governo, Mariano Rajoy, continuaria a ser o mais votado, com 27,7% e 128 lugares (atualmente tem 186 e a última sondagem já apontava para apenas 131), num parlamento composto por 350, mas para a maioria absoluta precisaria mesmo do apoio do Ciudadanos.
 
A terceira força política recolhe, agora, 17,6% das intenções de voto, o que representaria 56 deputados no parlamento. São mais 24 lugares em relação à última sondagem, pelo que é uma subida de tomar nota e fazer os partidos antecipar os possíveis jogos parlamentares com que 2016 poderá brindá-los.
 
Já os socialistas do PSOE, se as eleições fossem hoje, também continuariam a ser a segunda força política, com 21,8% das preferências dos eleitores, mas com menos 26 deputados: 84 assentos, o que compara com os atuais 110.
 
O Ciudadanos faz lembrar o Bloco de Esquerda não pelo que defendem politicamente (o primeiro é tido como de centro pelos eleitores e o bloco é de esquerda), mas pelo crescimento que as sondagens antecipam e que, no caso do partido português, os resultados eleitorais até excederam.

Já o Podemos, esse sim, mais em linha com o que defende o BE português, é igualmente um partido anti-austeridade que expressou o seu apoio ao Syriza na Grécia, mas que viu as projeções eleitorais caírem de 41 deputados para 39. Assim, seria a quarta maior força no parlamento.
 
Por sua vez, o Ciudadanos tem mantido uma linha ascendente na perceção do eleitorado. Em maio passado, nas eleições municipais, triplicou o resultado das europeias. Nove anos depois de ter surgido, alcançou um resultado que se pode dizer histórico.
 
Tudo começou em Barcelona como um movimento cívico e intelectual, os Cidadãos da Catalunha. Um grupo de 15 professores universitários e profissionais de diversas áreas uniu-se para sonhar uma região autónoma diferente, sem nacionalismo. E o sonho alastrou a todo o país.
 
O Ciudadanos ambiciona acabar com o bipartidarismo em Espanha e protagonizar uma verdadeira regeneração política. Quem o apoia, entende que é capaz de roubar votos à esquerda e à direita. Nas urnas se verá.