A cidade de Donetsk está na linha da frente dos confrontos na Ucrânia. Para sobreviverem, 40 adultos e 12 crianças vivem nas caves húmidas e abarrotadas de uma casa na Rua Kosareva no distrito de Petrovsky, na zona oeste de Donetsk. Três das crianças que vivem no abrigo antibomba têm hoje a certeza de que querem ser jornalistas de guerra. Outras duas querem ser soldados e uma outra quer ser trabalhador humanitário.

Conforme conta um jornalista britânico «The Independent», em reportagem no local, esta semana constitui um marco para as pessoas que vivem no abrigo da Rua Kosareva: assinalam cinco meses de vida subterrânea.

A casa daquelas 52 pessoas em Petrovsky é o última povoação antes de uma zona tampão controlada pelos rebeldes em Donetsk e o subúrbio Marinka, que foi recuperado pelas forças governamentais. O bairro é um dos mais perigosos de toda Ucrânia. Quase metade dos blocos residenciais foram danificados. É muito arriscado passar longos períodos acima do solo. Quase todos os adultos no abrigo têm histórias para contar de um amigo ou de um parente que foi morto ou está mutilado. E todos sabem que a casa temporária que é o abrigo oferece pouca proteção no caso de um bombardeamento direto.

Natalya Leonidovna, 59 anos, diz ao «The Independent» que a irmã e o marido morreram durante combates intensos em agosto.

«A vida não é sem dificuldades, aqui em baixo, mas dá-nos a melhor hipótese de continuarmos vivos», afirma. «A minha irmã e o marido morreram: a única coisa que fizeram foi sair para o pátio, e foi o lugar errado à hora errada», refere.


Enquanto a Rússia e a Ucrânia medem forças e apontam dedos, as bombas continuam a cair destruindo edifícios, casas e hospitais. Os sobreviventes procuram abrigo, fugindo das constantes explosões. Hoje o modo de sobrevivência é só um: conseguir chegar ao abrigo, quer se trate de uma cave, como acontece com os moradores da Rua Kosareva, ou de um bunker, um dos vários abrigos subterrâneos que remontam à era soviética, como acontece com os moradores de uma pequena cidade da região. Cerca de mais de 200 pessoas de Petrovka deixaram as casas, ou o que restava delas, para viverem debaixo da terra, nos antigos abrigos subterrâneos construídos durante a era soviética, como descreve uma reportagem da agência Reuters.

A maior parte dos desalojados apenas levou a roupa que vestia, alguns cobertores e pouco mais. No mesmo abrigo várias famílias encaixam-se e agrupam-se à volta de uma mesa ou de uma caixa, normalmente às escuras devido às falhas de eletricidade. 

É cada vez mais difícil arranjar mantimentos já que das lojas que ainda não foram destruídas, muitas estão fechadas e as que abrem só vendem água, pão, massas e arroz. Os distribuidores deixaram de fornecer produtos a estas zonas, com medo dos bombardeamentos.

As idas ao exterior são feitas, na maior parte das vezes, uma vez por dia para cozinhar sobre fogueiras, tomar duche com a ajuda de uma garrafa de água furada ou uma desculpa para as crianças brincarem com os cães e gatos vadios, que procuram afetos e comida.

As condições em que estas pessoas vivem mostram o impacto humanitário do conflito. A Rússia acusa Kiev e o Ocidente de travarem confrontos em áreas civis. Por outro lado, o Governo ucraniano assegura que as tropas não lançam ataques contra zonas residenciais, culpando Moscovo de alimentar o conflito ao fornecer armas aos rebeldes.