Muitos acreditavam que a queda de Donald Trump seria uma questão de tempo e de paciência. Mas já vai na terceira vitória consecutiva nos caucus de New Hampshire, Carolina do Sul e Nevada. Tem sérias hipóteses de vir a ser o candidato republicado nomeado para defrontar um dos democratas elegíveis: Hillary Clinton ou Bernie Sanders. Ou seja, quem pensava que ele acabaria por cair o melhor é esperar sentado.

Desde 1980 que nenhum candidato republicano que venceu nestes estados deixou de ser o indicado pelo partido. Há 36 anos, sim. Trump está imparável e até já fala como se estivesse na Casa Branca, em discursos à sua imagem e estilo: “Ganhámos com os evangélicos, ganhámos com os jovens, ganhámos com os idosos, ganhámos com os mais formados, ganhámos com os que não têm estudos – adoro os que não têm estudos, 46% com os hispânicos!”.

"Dentro de pouco tempo vão estar orgulhosos do vosso Presidente"

Os arautos da desgraça ainda antecipavam uma derrapagem na popularidade, já que os últimos dias foram pródigos em polémicas, com Trump a atacar o ex-Presidente George W. Bush, que acusou de mentir na liderança da guerra do Iraque, a lançar farpas à Apple e nem o Papa fica indiferente ao irreverente, excêntrico, tantas vezes inconveniente candidato multimilionário. Francisco disse com todas as letras que aquele homem “não é cristão”. E ele, como sempre, teve resposta na ponta da língua: "Se o Estado Islâmico atacar o Vaticano, o Papa vai desejar que o Donald Trump tivesse sido eleito".

Os analistas bem estudam o fenómeno e ficam boquiabertos com tamanha popularidade. Trump recolhe votos anti-sistema. Muitos não perguntam nem querer saber que tipo de republicano ele é ou quais são as suas contradições. É um candidato diferente, sem dúvida. E há quem procure isso, sem fazer uma avaliação pela lente ideológica. Antes pelo carisma. Ou por outros motivos, como ser o próprio a financiar a sua candidatura, sem ficar dependente de doações e interesses instalados. Mas, claro, é preciso não esquecer (será que se esquecem?) que dinheiro é coisa que ele tem de sobra.

Quem pode pará-lo?

Temos os adversários: Marco Rubio, Ted Cruz e John Kasich.

Rubio é o candidato do stablishment, que recebe a bênção de muitos republicanos, mas o partido está fraturado e isso não é favorável para, juntos, derrubarem Trump. Rubio venceu no Iowa, mas até agora ficou-se por aí. Ficou em segundo na Carolina do Sul e agora no Nevada, a longa distância de Trump (45,9% contra 23,9%) e mais perto de Ted Cruz (21,4%). Os resultados no seu Estado natal, a Florida (15 de março), serão importantes, mas antes ainda há outras batalhas para travar, nomeadamente a Super Terça-Feira, a 1 de março. São as próximas primárias, com 15 Estados a ir a eleições.

Ted Cruz deixou para trás o grande impulso que teve no Iowa, quando ficou em segundo lugar. No New Hampshire já não acontecer, no Nevada tinha grande expectativa dada a grande mobilização, mas ficou em terceiro. Terá de apostar tudo na Super Terça-feira: afinal, é a vez de o Texas, o seu estado natal, e em toda a região sul. O problema é que na Carolina do Sul também foi ganha por Trump. E, para além disso, a imagem que Cruz tem passado nos media já teve melhores dias, com alguns escândalos que resultaram já, por exemplo, na demissão do seu principal porta-voz.

John Kasich, o governador do Ohio, tem de agarrar a maior oportunidade para se relançar na corrida precisamente nesse seu estado natal, a 15 de março. Só conseguindo todos os delegados e mais alguns noutras votações é que ainda poderá angariar apoio que baste para afastar Trump da nomeação pelos republicanos. Pode ser difícil, uma vez que a sua candidatura tem pouco impulso e ainda menos dinheiro.

 

Marco Rubio, Donald Trump e Ted Cruz (Fonte: Reuters)

Depois, quem pode abalar a fúria de Trump são os eleitores independentes, caso deixem de lado a dispersão de votos entre os vários candidatos e se juntem na escolha de um único para travar aquele que consideram tóxico (neste caso seria Trump).

Finalmente, temos o próprio candidato. Pode ser Trump a cair sozinho, se disser ou fizer algo que, de tão escandaloso, será capaz de fazer implodir a sua própria candidatura. Até agora, a sua controvérsia, o seu tom e a sua mensagem política não têm sido penalizados. Resta esperar para ver se o próprio conhece os (seus) limites.

Com as quatro primeiras votações e com a Super Terça-feira à porta, ele tem a oportunidade de fazer com que o seu efeito bola de neve ganhe velocidade, imparável faça chuva ou faça sol.

Se vier a ser o nomeado candidato pelos republicanos, a batalha seguinte será com o democrata escolhido. E desse lado da barricada não há vencedores que possam ser já dados como certos. Bernie Sanders tem dado luta a Hillary Clinton, tida como a favorita no início. É esperar pelas cenas dos próximos episódios, já que as eleições para o sucessor de Barack Obama só são em novembro. Até lá, ainda tudo pode acontecer. It’s America.