O caráter bizarro e potencialmente inaceitável da presidência Trump criou uma espécie de “síndrome de Estocolmo” nos que acompanham ao pormenor a política americana: há mais de um ano, andamos todos a cair, repetidamente, no mantra do choque pelo comportamento público do atual Presidente dos Estados Unidos e na perplexidade sobre como tudo isto foi possível de acontecer.

Chocamo-nos com Trump mas caímos todos na armadilha de estar só a falar dele.

A poucos dias de entrarmos em 2018, começa a ser tempo de tentar olhar as coisas mais em perspetiva.

No calendário ultraexigente da política americana, os dados para a eleição presidencial de 2020 começam a ser lançados.

O relógio está a contar: quem poderá travar a reeleição de Donald Trump? Como está o Partido Democrata a lidar com a derrota inesperada de 2016?

Já por algumas vezes, nos últimos meses, escrevi e comentei que as “saudades de Obama”, sendo um sentimento legítimo e diferenciador do disparate que se vive por estes dias com a presidência Trump, podem ter, também, um efeito contraproducente.

Não me interpretem mal: como ex-Presidente dos EUA, Barack Obama tem, obviamente, todo o direito de falar e aparecer quando quiser.

Mas em nome do futuro dos democratas, como elementos decisivos no sistema bipartidário americano -- que se funda na alternância política –, Obama deveria deixar mais espaço no palco mediático para novos nomes com capacidade de assumir os desafios nacionais.

As “saudades” de Obama

Até agora, o «pós Obama», do lado democrata, tem vindo a ser marcado por essas “saudades” do estilo e das qualidades pessoais e políticas do anterior Presidente dos EUA – e ainda pelo choque da não eleição de Hillary (com a ex-senadora e ex-secretária de Estado Clinton a sentir-se na necessidade de ter explicar as razões de uma derrota a todos os títulos inexplicável para Donald Trump).

Há motivos fundados para que o último ano tenha sido assim: a total incapacidade política de Donald Trump tem vindo a acelerar uma certa justiça histórica aos oito anos de presidência Obama.

Mas é urgente que o Partido Democrata consiga virar a página.

Há, sem dúvida, um problema geracional evidente: Barack Obama, com 55 anos, já cumpriu dois mandatos presidenciais e não há tradição de regressos para quem ocupou a Casa Branca; Hillary Clinton, 71 anos, já teve duas oportunidades de ouro para lá chegar e por duas vezes falhou na reta da meta – não seria prudente promover uma terceira tentativa, por muito que ela até a merecesse.

Muitos suspiram por Michelle Obama, 52 anos, a ex-Primeira Dama que foi sempre mais popular que o marido e mostrou ser mais mobilizadora que a própria candidata, nos comícios de Hillary Clinton.

Sucede que Michelle não tem qualquer ambição política: não será, certamente, por aí. Joe Biden, o número 2 de Obama nos oito anos da presidência de Barack, ter-se-á arrependido de não ter avançado contra Hillary nas primárias democratas do ano passado.

Esse arrependimento, por muito que seja humanamente compreensível, aos olhos de hoje é “pointless”: esse tempo já passou.

Joe, figura muito querida e popular no universo democrata e com percurso de quase meio século nos corredores do poder em Washington (36 anos como senador, oito anos como vice-presidente), terá… 74 anos em 2020. Não é realista pensar que será ele o nomeado do campo democrata para combater a reeleição de Trump.

Haveria outros dois nomes com força e dimensão nacional para sonhar com a nomeação presidencial democrata: Bernie Sanders, que teve 46% dos votos nas primárias de 2016 e quase tirava a nomeção à “pré-vencedora” Hillary; e Elizabeth Warren, a senadora do Massachussets, antiga responsável pela proteção ao consumidor na Administração Obama e espécie de “campeã” da esquerda americana em temas como a equidade fiscal, luta contra a pobreza ou alterações climáticas.

Há setores da esquerda americana que se baterão por uma destas duas soluções, mas também não creio que a resposta esteja aqui.

Bernie ou Elizabeth? Hum… talvez não

Com todo o respeito pelos senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren, dois americanos com um percurso político e histórias de vida absolutamente notáveis, não acho realista considerar que Bernie, que em 2020 terá 78 anos, ou que Elizabeth – com um eleitorado demasiado ideológico e colado à esquerda – tenham condições de derrotar Donald Trump numa eleição geral.

Ora, é mesmo essa a grande contradição do atual momento da política americana.

Trump é um presidente incrivelmente impopular: não consegue reunir mais que 36%-38% de aprovação (muitas vezes fica-se por ainda menos), valores a que nenhum presidente baixou em apenas um ano.

A questão é que esses 30 e tal por cento são-lhe cegamente fiéis – e podem chegar, por isso, para que Trump consiga, pelo menos, a nomeação republicana para 2020.

Não são suficientes, é certo, para a reeleição – mas o estranho caso de 2016 mostrou-nos que uma “minoria mobilizada” (46% de eleitores Trump) pode ser suficiente para chegar à Casa Branca.

Desde que a “maioria oposta” (48.5% de eleitores Hillary) esteja pouco mobilizada e algo desconfiada. Como resolver este paradoxo?

É essa a grande questão que os democratas têm que saber responder nos próximos dois anos, de modo a estarem devidamente preparados para apresentarem o candidato certo na eleição geral de 2020.

Não vai ser fácil.

Outros nomes, menos conhecidos a nível nacional mas com força no plano estadual e potencial de crescimento político e mediático, devem ser olhados com atenção.

Kamala Harris, senadora pela Califórnia e uma das “preferidas” de Obama; Eric Garcetti, mayor de Los Angeles; Chris Murphy, senador do Connecticut; Kirsten Gillibrand, senadora que rendeu Hillary Clinton em representação de Nova Iorque em 2013 e se tem batido cara a cara contra Trump; Cory Booker, senador por Nova Jérsia; Tim Ryan, congressista do Ohio; Andrew Cuomo, governador de Nova Iorque; Jerry Brown, governador da Califórnia pela segunda vez, depois de primeira experiência nos anos 70/80, figura a quem a CNN tem dado muito tempo de antena, mas que terá 82 anos em 2020; Pete Buttigieg, mayor de South Bend, Indiana, de apenas 35 anos, apontado por Obama como "um dos líderes democratas do futuro"; Sherrod Brown, senador pelo Ohio, que manteve sempre boa aceitação tanto do lado Hillary como do lado Obama na última década democrata.

E, pelo menos como ponto de partida, não deverá ser excluída a possibilidade de se tentar alguém de fora da política.

Ainda que pelas piores razões, os republicanos abriram em 2016, com Donald Trump, uma caixa de Pandora que dificilmente voltará a ser fechada. Pela primeira vez, foi nomeado – e depois eleito Presidente – um “não político-sem qualquer experiência-de chefia militar-ou credenciais diplomáticas”.

Tendo em conta as movimentações de figuras como Mark Zuckerberg (dono do Facebook, que fez no último ano um “tour” por todos os estados americanos”) ou Mark Cuban (dono dos Dallas Mavericks, empresário, ator e filantropo), ainda que não sejam as hipóteses mais prováveis, não devem ser postas de parte.

O “problema branco” dos democratas

A escolha democrata para 2020 não pode ignorar dois factos essenciais.

O primeiro é que uma das chaves para se compreender o triunfo inesperado de Trump sobre Hillary no Michigan, Wisconsin e Pensilvânia tem a ver com o desempenho abaixo do esperado da democrata no eleitorado branco e nas mulheres. O nomeado para 2020 tem que ser forte nesses dois segmentos específicos.

O segundo é que, na era da “pós-verdade”, o adversário de Donald Trump em 2020 tem que ser capaz de inverter a agulha – e não pode cair nos erros de cálclo que a campanha Hillary cometeu em 2016.

Os dados para 2020 terão equações pouco convencionais. Convém não esquecer que, na Casa Branca, está alguém que não é bem um Presidente dos Estados Unidos.