O discurso de aceitação da nomeação presidencial de Donald Trump mostrou um candidato a apelar a uma visão sombria e erradamente catastrófica do estado da América e das suas relações com o resto do mundo.

O «reality check» prova que os EUA estão muito melhores do que o agora nomeado presidencial republicano quer fazer crer: o desemprego está a menos de metade pico da crise em 2010 (4.9%), os Estados Unidos estão hoje muito mais independentes em termos energéticos do que estavam há uma década (e isso é mérito das duas Administrações Obama); o petróleo árabe, iraniano ou venezuelano conta, por isso, muito menos, na balança comercial norte-americana; até os preços das casas, que caíram a pique com a crise do subprime em 2009 e demoraram anos a recuperar, dão mostras de alguma subida.

Nem tudo está perfeito na economia americana, mas a criação contínua de emprego em toda a era Obama e aposta em novas tecnologias dão conta de que os EUA, mesmo após a crise, continuam a ser um país de referência nos mais diversos setores da produção, da inovação, da investigação e do desenvolvimento.

No plano externo, e apesar das inquietações crescentes ao nível das novas formas de terrorismo a que temos assistido nos últimos meses, a verdade é que os EUA continua a ser um ator fundamental: já não conseguem decidir tudo sozinhos, mas nenhuma grande questão mundial é deslindada sem a intervenção americana – seja a contenção nuclear (acordo com o Irão e novo tratado START com a Rússia), as alterações climáticas, a aproximação a Cuba ou o processo de paz no Médio Oriente (Israel e Autoridade Palestina continuam a ver os EUA como único mediador fiável e determinante, independentemente de estarmos em fase política de maior ou menor tensão).

Nas relações comerciais, os grandes acordos internacionais (os tais que Trump promete rasgar para… «fazer outros melhores») têm tido nos EUA de Obama o seu pivot fundamental: foi assim com o TPP (Acordo Transpacífico), está a ser com o TTIP (mega acordo com a Europa, cujas negociações têm sido promovidas pelo Presidente Obama desde o início de 2014 e que terão agora, com o inesperado «Brexit», o seu momento definidor, tendo em conta que o principal parceiro dos EUA na UE se prepara para sair do barco europeu).

Mesmo a ameaça económica chinesa, fantasma tantas vezes acenado pelo candidato Trump, tem que ser vista em perspetiva.

Os anos Obama foram marcados bem mais por uma aproximação do pelo afastamento com Pequim.

A ascensão económica da China, comportando riscos, tem também grandes oportunidades que, de forma demagógica, Trump camufla.

Por outro lado, essa ascensão, sendo espetacular em termos absolutos na última década, tem vindo a decrescer um pouco em percentagem nos últimos anos, o que pode sinalizar algumas fragilidades no modelo de crescimento chinês.

E a verdade é que, nos últimos três ou quatro anos, a recuperação económica encetada pelos EUA de Obama levaram a que as empresas americanas fossem consideradas, pela primeira vez na última década, mais atrativas para o investimento estrangeiro do que as empresas chinesas.

As perceções contam mais que a realidade

Ou seja: uma análise fria e desapaixonada das grandes tendências mostra-nos que, embora com algumas bolsas de preocupação, os EUA continuam a ser maior potência mundial em todos os grandes domínios: militares, económicos, tecnológicos, sociais.

O ponto fraco da herança Obama neste plano macro será o modo incompleto como as guerras em que os americanos estavam metidos no início da presidência foi conduzido (saída por concluir do Afeganistão e do Iraque) e, sobretudo, a forma como o poder americano se revelou incapaz de prever o crescimento da ameaça do ISIS e de o eliminar (promessa que, na verdade, o Presidente Obama já fez em setembro de 2014).

Trump está a ser um ás no modo como passa a mensagem de que, com Obama (e Hillary) «os Estados Unidos ficaram mais fracos e perdem em todo o lado», uma simplificação grosseira do que realmente tem acontecido no terreno (no Iraque e na Síria, o Daesh tem perdido, mês após mês, posições, dinheiro e território, em boa parte pelos bombardeamentos da coligação liderada pela Administração Obama).

O jogo das perceções, que neste capítulo é bem mais poderoso do que a análise da realidade concreta, aponta para que Obama, o presidente da contenção e do retraimento americano, seja «fraco» para o universo trumpiano, que admira bem mais um estilo Putin de lidar com os problemas do mundo.

«Dark America» e o pesadelo americano

A «dark America» com que Trump nos quis assustar nos últimos dias em Cleveland (a manchete de sexta do Huffington Post sentenciava um pesadelo nacional: ‘American Nightmare’) revela um candidato que, demagogicamente, manipula factos e números, jogando, de forma habilidosa, com um instrumento eleitoral extremamente poderoso: o medo.

Será melhor ignorar e desvalorizar? Claro que não.

Isso seria repetir erros políticos dramáticos que foram cometidos, na época de primárias, por candidatos como Jeb Bush, Marco Rubio ou Ted Cruz.

Não é exagero e convém não poupar na adjetivação do que sucedeu, nos últimos meses, num dos dois partidos chave do sistema político americano: Donald Trump raptou o Partido Republicano. Tomou-o de assalto, abafando outras tendências e correntes de pensamento politico que se pensava serem muito mais sólidas do que na verdade são.

Lançou o medo, a raiva, o ressentimento e o ódio como sentimentos dominantes num partido que chegou a ser uma referência no respeito pela diferença e na afirmação de valores fundacionais da América.

«É o Partido de Donald Trump, agora», sentencia Shirish Dáte, no Huffington Post.

Jonathan Cohn, também no Huff Post, foi mais longe: «Foi um discurso assustador e perturbador. Tenham medo. Tenham muito medo».

Jason Linkins, editor do «Eat the Press», apontou: «Se há alguém que está, neste momento, a unir o Partido Republicano é Hillary Clinton, não Trump.

Reações notadas na convenção, como o movimento «Stop Trump», as «Mulheres Republicanas por Hillary» ou o discurso corajoso de Ted Cruz dão nota do caráter quase bizarro com que a investidura de Donald se revestiu.

Cuidado: estamos em 2016

Mas 2016 está a ser, a todos os títulos, um ano atípico e imprevisível na política internacional.

E isso chegou de forma mais relevante do que muitos achariam (o autor destas linhas incluído) ao modo como o processo de sucessão de Barack Obama está a acontecer.

A desunião do campo republicano levaria, supostamente, a uma fragilização clara de Donald Trump para o ataque à eleição geral.

Com cerca de um quarto ou um terço do partido a pôr-se de fora, Trump correria o risco de perder apoios fundamentais para desenhar uma rota eleitoral de triunfo sobre Hillary Clinton – para mais quando, do lado democrata, a paz interna entre as diferentes correntes parece estar assegurada, com o acordo Hillary/Bernie a garantir a ala esquerda e a escolha de Tim Kaine para «vice» a satisfazer os setores mais centristas e mais ligados ao poder institucional (Tim foi governador, foi líder do Comité Nacional do partido e é atualmente senador, a câmara alta do Congresso).

Uma tendência que deverá ter confirmação na Convenção Democrata de Filadélfia, a arrancar esta segunda, numa oportunidade clara que Hillary Clinton tem de mostrar que é uma candidata muito mais sustentada e consistente do que o seu opositor para novembro.

Mas as grelhas de análise e de antecipação, em 2016, têm mesmo que ser postas em causa.

A forma como Trump chegou à nomeação republicana foi uma espécie de «quanto pior melhor».

Romney, seu antecessor no estatuto de nomeado, não o apoia e diz que Trump não é digno e não tem dimensão para ser candidato, pelas coisas que diz e pelo comportamento que revela? Donald não quer saber e, na verdade, Romney «até foi um candidato falhado que perdeu por muitos para o Presidente Obama em 2012, certo?»

Perante esta lógica de pensamento, que supostamente não deveria colher em política mas que, na verdade, se revelou muito proveitosa eleitoralmente para Trump nas primárias republicanas, fica difícil antecipar cenários.

Resta esperar que a tal tentação que muitos americanos parecem revelar de… dar o passo em frente na iminência do abismo que seria a eleição presidencial de Donald Trump não seja dominante a 8 de novembro.

Hillary Clinton, muito mais bem preparada nos temas cruciais e com uma experiência política acima de qualquer suspeita, terá nos próximos dias a sua grande prova de fogo: encontrará, na convenção que a vai nomear, a narrativa ideal para atacar da melhor forma a eleição geral?

Faltam 108 DIAS para as eleições presidenciais nos EUA.

*jornalista, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição»