Donald Trump afundou-se nas sondagens, Hillary Clinton aproveita depois de uma convenção forte e bem preparada.

A 91 dias da eleição geral, a democrata consolida a vantagem adquirida depois das convenções: sondagem da Universidade de Monmouth, focada nos «likely voters», dá 50% de intençõe de voto a Hillary, apenas 37% a Donald Trump, 7% ao candidato libertário Gary Johnson, 2% à ecologista Jill Stein, com apenas 3% de indecisos.

Desta vez, e ao contrário do que tem acontecido nas últimas corridas presidenciais nos EUA, os «terceiros candidatos» podem ter algum peso, perante o elevado peso de rejeição dos candidatos dos grandes partidos, sobretudo em relação a Donald Trump.

A CNN fez as contas a todas as sondagens feitas desde as convenções e concluiu que Hillary tem, por esta altura, uma vantagem média de 10 pontos sobre Trump no voto popular.

Quanto ao Colégio Eleitoral, a soma dos estados (o que verdadeiramente vai decidir a eleição), a diferença é ainda maior: Hillary, de acordo com o «FiveThirtyEight», site de Nate Silver, a democrata está à frente em todos os estados decisivos, incluindo na Carolina do Norte.

Um cenário como este, refletido noutros estudos realizados nos últimos dias, aponta para um quadro de grandes dificuldades do candidato republicano.

Desconforto e sinais de alarme

O descoforto na Direita americana é evidente.

Os sinais de que algo de ainda mais grave pode ainda ocorrer no campo republicano até novembro vão crescendo.

Em carta conjunta, revelada segunda-feira, meia centena de republicanos que já desempenharam funções oficiais em administrações americanas alertaram, mais uma vez, para os perigos que resultariam de uma “presidência Trump”.

“Trump revela falta de caráter, valores e experiência para ser presidente”, pode ler-se na missiva.

“Ele acusa falta de legitimidade e autoridade para se assumir como líder do mundo livre. Mostra falta de conhecimentos básicos sobre a Constituição americana, as leis americanas, as instituições americanas, incluindo a tolerância religiosa, liberdade de imprensa e independência judiciária”, refere ainda a carta, que mereceu a assinatura de vários antigos assessores e conselheiros de George W. Bush, e diversos elementos que trabalharam no Pentágono e no Departamento de Estado nas últimas administrações republicanas.

Nomes com a influência de Michael Hayden, ex-diretor da CIA, ou John Negroponte, antigo subsecretário de Estado norte-americano e ex-responsável máximo dos serviços secretos dos EUA, também assinaram a carta, embora não apareça nela a assinatura de qualquer antigo chefe de diplomacia ou secretário da Defesa.

Entre os congressistas republicanos, cresce um sentimento ainda mais poderoso na político do que a indignação: o medo de perder votos ou até o lugar.

De acordo com o Politico, sete em cada dez republicanos na Câmara dos Representantes e no Senado defende que Trump deve desistir, caso não recupere nas sondagens nem corrija a mensagem excessivamente agressiva.

Outro candidato?

Que há espaço suficiente na Direita americana para uma outra candidatura forte de um republicano, isso parece claro, tão largo e sonoro é o desconforto do GOP em relação a Donald Trump.

Mas… haverá tempo? Nem por isso.

A apenas três meses da eleição geral, não se vê como muito realista que algum candidato republicano de última hora, por muito forte que pudesse ser (e não se vê, neste momento, quem seria) pudesse conseguir financiamento suficiente para competir com a máquina muito bem oleada dos democratas – e da qual Hillary Clinton já está a beneficiar há vários meses.

Ainda assim, vai crescendo um grupo de congressistas republicanos auto-intitulado “Anti Trump”, sob a liderança de Evan McMullin, antigo diretor de planeamento de políticas do Partido Republicano, que pretende mesmo avançar com uma candidatura que defenda os verdadeiros valores republicanos.

“Nunca é tarde demais para se fazer o que é certo”, comentou McMullin à ABC News. “A América merece melhor do que Donald Trump e Hillary Clinton nos oferecem”.

Duas décadas depois de ter vigorado o “é a Economia, estúpido” no surpreendente triunfo de Bill Clinton sobre o então Presidente Bush pai, desta vez pode muito bem prevalecer o “é o caráter, estúpido”, no modo como muitos republicanos estão a repelir Donald Trump como o seu representante na eleição geral.

A América, de facto, nunca para de nos surpreender.