A imprensa brasileira divulgou, esta sexta-feira, novas escutas telefónicas relacionadas com a investigação ao ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, no âmbito do processo Lava Jato.

Entre as conversas telefónicas está uma, gravada a 10 de março, entre o então ministro da Casa Civil – o cargo que é agora de Lula -, Jaques Wagner, e o presidente do PT, Rui Falcão, onde este último pede uma reação do Governo sobre o pedido de prisão do ex-presidente do Brasil.

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A segunda está relacionada com os motivos que levaram as autoridades a apontar para Lula. O ex-presidente foi escutado a ligar para um funcionário de uma quinta em Atibaia, uma das duas propriedades que se desconfia pertencerem ao ex-presidente, mas que não estão em seu nome. A conversa parece sugerir que a quinta pertence a Lula, já que a chave da propriedade é guardada pelo seu filho Marcos.

As suspeitas do Ministério Público recaem não sobre este ponto, mas sim sobre se umas obras realizadas nesta propriedade e num triplex em Guarujá foram contrapartidas para favorecimentos a empresas agora investigadas no processo Lava Jato.

Conversa entre Rui Falcão e Jaques Wagner a 10 de março, dia em que foi divulgado o pedido de prisão de Lula da Sila pelo Ministério Público, feito pelos procuradores Casio Conserino, José Carlos Blat e Fernando Henrique Araújo.

Transcrição segundo o G1.

RF: Oi, JAQUES. O louco do Conserino aqui pediu a preventiva do LULA.
JW: É, eu vi porra.
RF: Sim, e vocês vão deslocar alguém pra cá, como é que é?
JW: Deslocar em que sentido?
RF: Não, acho que tem que vim alguém pra cá, porra, pra se mexer aqui também.
JW: Mas alguém quem? Só pra eu entender. Não, que eu não tô raciocinando. (Ininteligível)
RF: Não tem ministro da Justiça, não tem.
JW: Não, tem ministro da justiça. Ele tá no ministério. Claro. Ele tá no posto.
RF: Alguma iniciativa vocês precisam tomar. Porque tá na mão de uma juíza da quarta vara que não sabe quando toma decisão, mas pode tomar decisão hoje. Nós...
JW: Ah, ele pediu a preventiva do cara em cima do quê?
RF: Não... não tem... em cima do TRIPLEX, da denúncia, ele é louco. Os três promotores aqui Jaques.
JW: Tá bom. Deixa eu fazer alguma coisa aqui.
RF: É, porque eles podem, a juíza pode despachar agora, tá? Tem os advogados tá lá, "tamo" chamando deputado...
JW: Falou, ok.
RF: A outra coisa é o seguinte: se nomear ele hoje, o que que acontece?
JW: Aí não sei, eu tô por fora.
RF: Então, consulta isso também...
JW: Mas ele já decidiu?
RF: Não, mas nós "tamo", todo mundo pressionou ele aqui. FERNANDO HADDAD, todo movimento sindical, todo mundo.
JW: Tá bom.
RF: Tá.
JW: Eu acho que tem que ficar cercado em torno do prédio dele e sair na porrada, Rui.
RF: Tem nada.
JW: Não, tudo bem, ué? Mas tem que cercar tudo.
RF: Não, eu sei, mas enquanto isso..
JW: Tudo bem, deixa eu falar aqui.
RF: Alerta a presidente. Toma a decisão de estado-maior aí.
JW: Falou, ok.
RF: E mantém a gente informado. Ele, tá?
JW: Tá bom.

A outra gravação, que foi intercetada a 20 de fevereiro, revela uma conversa entre Lula da Silva e Azevedo, um alegado funcionário de uma quinta que o ex-presidente usava em Santa Bárbara, Atibaia, São Paulo. Segundo o G1, a Polícia Federal acredita que esta conversa pode ser um indício que o presidente era o dono real da propriedade, apesar de esta não estar no seu nome.

Na conversa, o ex-presidente pergunta se a chave do local está com o “Marcos”, que a procuradoria acredita ser Marcos da Silva, filho de Lula. Este pode ser um indício, porque a chave é guardada pela família de Lula, e não por Fernando Bittar e Jonas Suassuna, os proprietários da quinta.

Lula: Ó Azevedo, sou eu.
Azevedo: Boa noite presidente. Pode falar.
Lula: Deixa eu falar uma coisa para você. A chave do sítio tá com o Marcos, né?
Azevedo: Sim senhor.
Lula: Você precisa entrar em contacto com ele porque eu não sei que horas eles vão chegar, vão chegar tarde pra cacete. Para gente pegar a chave amanhã de manhã, porque nós vamos pro sítio cedo amanhã
Azevedo: Ah, sim senhor, tá ok. Eu vou tentar falar com a dona Carla agora. Tá bom?
Lula: Tá bom.
Azevedo: Tá ok, presidente.

Uma outra conversa intercetada pelas autoridades revela o filho de Lula, Fábio da Silva, a dar autorização ao irmão de Fernando Bittar, Kalil, para utilizar a propriedade. O telefonema gravado foi entre Fábio e Maradona, o homem que toma conta da quinta, a anunciar a chegada de Kalil Bittar.

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O Governo brasileiro, e em especial a presidente Dilma Rousseff, está envolto em polémica, depois da nomeação do ex-presidente Lula para o cargo de ministro da Casa Civil, alegadamente, para evitar a sua detenção.

Antes da tomada de posse de Lula da Silva, o juiz do processo Lava Jato divulgou uma série de escutas telefónicas feitas ao ex-presidente, uma das quais revela a conversa onde foi sugerido que Lula fosse ministro.