Bill Clinton assinou um dos grandes discursos da Convenção Democrata, contou (como só ele sabe fazer) a história de como conheceu em Yale, «na primavera de 1971», a mulher que viria a tornar-se a primeira a ser nomeada presidencial de um grande partido do sistema.

Em todos os sítios onde esteve, Hillary mudou as coisas para melhor. Fê-lo como nunca vi ninguém fazê-lo. Nas atuais circunstâncias da história, para este momento em concreto, ela é a melhor candidata possível. A mais qualificada para o que se exige e para o que é preciso. Hillary é uma change maker."

A plateia da Convenção, que no primeiro dia chegou a ter uma percentagem grande de descontentes e revoltados pela forma como Hillary foi beneficiada pelas estruturas do partido, rendeu-se finalmente. Bill, em discurso poderoso e inspirador, apresentou de forma brilhante o caso a favor da sua mulher.

E sem nunca precisar de nomear Trump, foi pontuando a sua narrativa com elogios a Hillary que contrapunham, na perfeição, com os defeitos de Donald: "Sem se preocupar com as luzes da ribalta, sem saber se havia câmaras de televisão, Hillary conseguiu mudar as coisas para melhor. E fê-lo sendo mãe, e sendo esposa, e sendo advogada. Tendo uma carreira profissional e política."

Bill Clinton era um dos discursos mais aguardados da noite

Noutras "farpas" ao nomeado republicano, Bill lembrou o trabalho feito por Hillary com mulheres e jovens deficientes: "Ela puxava pelo melhor deles, mostrando as capacidades que eles tinham. Não se ria com as deficiências que poderiam apresentar". E o mesmo em relação ao trabalho feito por Hillary, enquanto senadora, no Comité de Defesa e Forças Armadas: "Ela sempre soube que os nossos veteranos de guerra são heróis e são exemplos, não são falhados ou derrotados".

Desenvolvendo uma estrutura de discurso muito peculiar, que só ele sabe fazer com aquela mestria, começou no estilo storytelling e só a meio foi exibindo trunfos e vitórias políticas e profissionais de Hillary. Cativados pela parte pessoal da história, os delegados democratas ficaram, assim, mais propensos a aplaudir as partes em que apareciam os aspetos mais políticos -- uma estratégia brilhante de Bill, para terminar de vez com as desconfianças do setor progressista, afeto a Bernie Sanders, com o apoio a Hillary.

Numa eleição em que Hillary está a ser rotulada de «candidata do sistema», «herdeira do establishment» e «perpetuada no poder há várias décadas», em contraponto com um Donald Trump que se reclama a «voz de quem quer mudar o establishment», esta forma hábil e bem construída de Bill Clinton apresentar a esposa como uma «change maker» pode ajudar na ideia forte que a candidata democrata tem que desenvolver nos próximos três meses: a de que, ela sim, consegue mudar as coisas para melhor, ela sim será a «change maker» que os americanos pretendem.  

O «caso de Bill» por uma Hillary «change maker» foi o momento alto do segundo dia ("ela fê-lo em todo os sítios onde passou na vida", repetiu o 42.º Presidente dos EUA, "acho que se alguém a deixasse um dia num sítio inóspito e voltasse uns tempos depois, esse local teria ficado bem interessante e construtivo, graças ao seu poder transformador"), mas houve também Madeleine Albright, a primeira mulher a chefia a diplomacia americana (1997-2001, segundo mandato de Bill Clinton) a decretar em favor de Hillary: "Conheço-a há 25 anos e continuo a ficar impressionada com a sua preparação e capacidade. Não tenho dúvidas de que ela é a pessoa certa para o cargo de Presidente dos EUA nesta altura".

Madeleine Albright não poupou elogios a Hillary Clinton

E também Madeleine teve uma «indireta» a Trump, insinuando que se Donald vencesse Putin se ficaria a rir: "Como é possível que haja americanos que pensem votar num candidato que diz que 'em matéria de liderança daria um A a Vladimir Putin'?"

«Girl on Fire» - Hillary depois de 44 homens

Meryl Streep foi ao palco recordar a luta de várias mulheres para serem as primeiras na história nas respetivas funções. Alicia Keys cantou «In Common» e antes exortou "os apoiantes de Bernie e os apoiantes de Hillary a unirem-se finalmente".

A atriz Meryl Streep, na convenção democrata, esta quarta-feira

 

Foi o aquecimento para outro grande momento da noite em Filadélfia: no videowall passaram, de forma rápida, 44 rostos masculinos. O primeiro foi o de George Washington, o último deles foi o de Barack Hussein Obama. E logo a seguir a verem-se todos os presidentes da história americana, apareceu em grande plano Hillary Clinton, impecavelmente penteada e de vermelho, enquanto passava a música «Girl on Fire».

O público foi ao delírio, Hillary, em direto e à distância, falou à Convenção agradecendo a nomeação e lembrando que "se quebrou finalmente o teto de vidro", numa referência a ser a primeira mulher nomeada. A candidata deixou de aparecer em grande plano e passámos a ver que ela estava acompanhada de várias raparigas americanas, de diferentes idades e origens. "A partir de agora, todas elas podem sonhar com tudo", exortou Hillary.

Hillary falou à convenção em direto e à distância

Antes disso, na convenção passaram vários testemunhos de familiares de vítimas ou de sobreviventes do 11 de Setembro de 2001, para passar a ideia de que Hillary, enquanto senadora por Nova Iorque,"ajudou e esteve lá sem nunca cobrar por isso". E até houve críticas à forma como Donald Trump, enquanto grande empresário nova-iorquino, não ajudou as vítimas do 11 de Setembro, limitando-se a dizer que "as suas empresas e propriedades não tinham sido afetadas".

Ao segundo dia, a Convenção rendeu-se a Hillary e ficou a conhecer trunfos que não estava a apontar à candidata democrata.

Esta noite, o momento alto será de Barack Obama. E espera-se que o Presidente retribua o apoio de Hillary em 2008 com um discurso em que explique as razões que o fizeram, desde cedo, apontar a sua antiga secretária de Estado como a pessoa ideal para o suceder na Casa Branca.

* jornalista, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição»