A ministra da Saúde de Espanha demitiu-se esta quarta-feira. A decisão de Ana Mato foi anunciada poucas horas depois de o juiz a ter citado como «participante a título lucrativo» num caso de corrupção, designado por Gurtel, que envolve vários ex-dirigentes do Partido Popular (PP), entre eles o seu ex-marido. 

Foi através de um comunicado do seu ministério que deu publicamente conta da sua saída do Governo PP de Mariano Rajoy: «Decidi apresentar a minha renúncia como ministra da Saúde, Serviços Sociais e Igualdade», lê-se na declaração, que é citada pelo «El País». 

Ana Mato faz questão de frisar que o juiz não lhe atribui «responsabilidade criminal» no caso e explica que não quer que esta questão possa, de alguma forma, «prejudicar o Governo de Espanha, o seu presidente, nem o PP». Por isso, prefere sair. 

Pablo Ruz é o juiz da Audiência Nacional que investiga o caso e considera que Ana Mato terá beneficiado dos delitos cometidos pelo ex-marido, Jesús Sepulveda, o ex-alcaide da localidade de Pozuelo de Alarcon, nos arredores de Madrid. 

O anúncio do auto de Ruz causou profunda tensão no Governo e no Partido Popular (PP), tendo inicialmente o gabinete de Mato rejeitado que esta se demitisse, o que acabou por acontecer agora. 


Ana Mato (Foto: EPA/Lusa)




A despedida de uma sobrevivente política

Apesar da polémica causada pelo auto, Ana Mato não chega a ser constituída arguida, mas pode ter que responder em tribunal como responsável civil pelos alegados delitos.

O juiz considera que Ana Mato não cometeu por si própria qualquer delito, mas que teve benefícios dos delitos alegadamente cometidos pelo ex-marido, um dos 43 arguidos do caso Gurtel, um dos maiores processos de corrupção da história de Espanha.

Em fevereiro de 2013, Ana Mato garantiu que não pensava demitir-se. A então ministra considerou que estava a ser alvo de uma «infâmia» e de uma «caçada política» que a pretendia relacionar com o caso Gurtel.

«Esta infâmia não me vai vergar. Não tenho nada que esconder. Vou continuar a trabalhar ao serviço dos espanhóis e muito orgulhosa de fazer parte deste governo», disse na altura a governante.

Rede de corrupção municipal

O caso Gurtel investiga uma rede de corrupção que alegadamente operava em várias zonas de Espanha, todas elas governadas pelo Partido Popular - tanto a nível local como regional - e que subornava líderes políticos para conseguir contratos milionários. Branqueamento de capitais, fraude fiscal, tráfico de influências, suborno são alguns dos crimes imputados aos principais responsáveis da rede.


Luis Bárcenas, antigo tesoureiro do PP espanhol (Foto: Reuters)


O documento policial refere-se à suposta mediação de vários responsáveis do PP para adjudicar contratos e ajudas públicas a empresas, a troca de que recebiam uma comissão que era justificada através de faturas falsas.

Ainda no final de outubro foram detidas 51 pessoas, incluindo vários presidentes da câmara do PP, por suspeita de corrupção. O antigo «número dois» do PP madrileno, Francisco Granados, e um antigo tesoureiro do PP, Luís Bárcenas, estão presos. Um antigo ministro do Interior, Ángel Acebes, é investigado no âmbito do mesmo caso.

Pablo Iglesias, secretário-geral do partido Podemos, já reagiu, pedindo a demissão do chefe do Governo espanhol, Mariano Rajoy, e a convocação de eleições antecipadas.

«A corrupção chegou a níveis completamente inaceitáveis para o funcionamento básico das instituições democráticas para que o chefe do governo não se demita», disse à EFE o eurodeputado em Estrasburgo.

O líder do Podemos disse também que «chegou a hora de devolver a palavra aos cidadãos» através de eleições antecipadas.