Nem ventos de concordância nem casamentos a três, o impasse governativo continua em Espanha, depois de, nesta quarta-feira, o debate de investidura de Mariano Rajoy ter decorrido como começou: condenado ao fracasso.

O primeiro-ministro interino do Governo de Espanha precisava de 176 votos para garantir a maioria absoluta, mas conseguiu apenas 170 votos a favor (e 180 contra), cenário que já se antevia durante o debate no Congresso. Mariano Rajoy terá mais uma oportunidade na sexta-feira, com nova votação. 

A incapacidade de quatro partidos sem maioria se entenderem - PP, PSOE, Podemos e Cidadãos - coloca, desde já, em cima da mesa o espectro de novas eleições, as terceiras em Espanha, previstas para 25 de dezembro, naquela que é uma crise cada vez mais inédita.

O “não” dos socialistas não foi surpresa, depois de a última tentativa de aproximação entre Rajoy e Pedro Sánchez, na véspera do debate, ter sido classificada pelo líder do maior partido da oposição como “perfeitamente prescindível”. Desprezo que se manifestaria horas mais tarde no debate e, claro, também na votação, com um redondo "No".

Mas o fracasso não é só do PP e do PSOE, é da classe política espanhola, que não consegue chegar a entendimento sobre quem deve governar, que não encontra uma saída para o impasse, que não vislumbra alternativas. E enquanto isso não acontece, Mariano Rajoy mantém-se como líder de um Governo interino, frágil nas suas decisões, impedido que está de aprovar novas medidas ou leis até às terceiras eleições legislativas do ano, caso os partidos não cheguem a acordo sexta-feira e até 31 de outubro, data limite antes da convocação automática, a 1 de novembro, de novas eleições.

Até lá, não há limite para a realização de debates de investidura, assim surjam candidatos, crónicos ou novos. Um cenário de todo tranquilizador, uma vez que o líder do PSOE deixou bem claro que o seu único sentido de voto é e será "não".

Não, não e não

Mariano Rajoy, que se apresentou na primeira sessão do debate de investidura, na terça-feira, como a única alternativa “estável, moderada e eficaz”, perante a possibilidade de um Governo de “mil cores” ou “Frankenstein”, como lhe chamou o antigo secretário-geral do PSOE, Alfonso Pérez Rubalcaba, referindo-se a uma possível aliança entre PSOE, Podemos e forças nacionalistas e independentistas (Partido Nacionalista Basco e Partido Democrata Catalão), voltou a fazê-lo na segunda sessão.

O ainda chefe do Governo espanhol precisava de 176 votos para alcançar a maioria absoluta, apenas mais seis do que os que tinha à partida para o debate e após o acordo alcançado com o Cidadãos de Albert Rivera (170 votos no total – 137 do PP, 32 do Cidadãos e 1 da Coligação Canária). E não foi mesmo além disso. Faltaram-lhe os seis votos que Sánchez se negou a colocar na bandeja, por todos os motivos e mais alguns, elencou o seu líder.

Pela primeira vez, o candidato da primeira força política é incapaz de conseguir os apoios necessários para a investidura. E essa responsabilidade é exclusivamente sua”, acusou o líder do PSOE, que em nenhum momento vacilou na crítica a Rajoy: “Não é possível confiar em si. A sua gestão resume-se numa palavra: cortes, nas liberdades, nos direitos, na igualdade, na democracia. Os cortes, na maioria dos casos, não se explicam pela crise mas pela sua ideologia. Durante quatro anos, o senhor Rajoy teve apenas um companheiro de viagem: o seu ideal político, que é o mais conservador da Europa. Por isso votamos não.”

"Não" foi, aliás, a palavra mais vezes repetida por Sánchez. “Reiteramos e termino: o que a Espanha precisa não são de mais quatro anos de Rajoy à frente do Governo.”

Rajoy não gostou do tom e atacou o líder do PSOE. “Já me disse que não, é suficiente. Já entendi todas as partes do não, tranquilize-se. Você quer impedir que eu saia chefe do Governo e tem de justificá-lo de alguma forma”, começou por dizer, lançando de seguida: “Se sou assim tão mau, quanto de mau é você? Péssimo?”

Não creio que o senhor Rivera [Albert Rivera, líder do Cidadãos] e eu passemos à história depois deste debate, mas sim você, porque passará a ser aquele que forçou a realização de eleições gerais pela terceira vez em Espanha”, perspetivou o líder do Partido Popular, para indignação do PSOE, que condenou a “chantagem”.

“Os resultados são hoje mais claros que nas anteriores eleições. Consegui um acordo com o Cidadãos e posso apresentar-me no Parlamento com 170 votos, que é um número razoável para tentar a investidura. Você não pediu o voto do PP, mas eu quero o seu apoio e entender-me consigo. Estamos numa situação excecional e agora temos de fazer algo mais que a mera repetição de eleições, porque assim não vamos a lado nenhum”, pediu Rajoy, anunciando ainda que o acordo alcançado com o Cidadãos não é apenas um pacto e sim “um acordo de Governo para os próximos quatro anos”.

Mas Sánchez não quis saber, nem hoje nem nunca. "O PSOE não tem confiança em si. Não nos vamos abster. Não peça isso ao grupo parlamentar socialista. O problema é que você não é de fiar. Por isso votaremos contra a sua candidatura", assegurou.

Rajoy insistiu. “Os espanhóis não estão de acordo com muitas coisas do PP, mas há mais espanhóis que estão de acordo com o PP do que com o PSOE, e isso é o que parece ainda não ter percebido. Já que temos um acordo com 170 deputados, deixe-nos ao menos governar, não nos leve a uma terceira convocatória eleitoral, é a única coisa que lhe peço."

Foi Albert Rivera quem permitiu ao PP chegar muito perto da maioria absoluta. Com a promessa de Rajoy de que o combate à corrupção seria uma prioridade para o novo Governo, o Cidadãos comprometeu-se. 

Os espanhóis não se enganaram a 20 de dezembro e o Cidadãos percebeu. Também não se enganaram a 26 de junho. É preciso escolher entre o mau e o menos mau", afirmou, deixando, no entanto, um aviso ao candidato a chefe do Governo. 

"Senhor Rajoy, estamos nas suas mãos, mas você também está nas nossas. Conte comigo para uma oposição responsável, mas conte também connosco para controlar, exigir, mudar. Estamos à disposição da Espanha que queremos", avisou, tentando puxar o PSOE para o mesmo lado: "Se temos 100 medidas em comum com a esquerda e a direita, por que em lugar de travar a investidura, primeiro de Sánchez e depois de Rajoy, não nos pomos a falar?"

Uma tentativa que não passou disso mesmo. À irredutibilidade do PSOE juntou-se a impossibilidade de um Podemos.

Este debate não vai mudar a sua sorte, não vai ser investido hoje nem na sexta-feira, você sabe-o, todos o sabem. Estamos fartos de boas intenções que desaparecem nos pressupostos", acusou Pablo Iglesias.

"É o único democrata que existe neste Câmara e é o único incorrupto que existe em Espanha?", questionou Rajoy.

A presidente do Congresso espanhol, Ana Pastor, convocou nova sessão para as 19:00 de sexta-feira (menos uma hora em Lisboa). A votação deverá acontecer uma hora depois, mas dificilmente o resultado será outro.