Um medicamento que já estava há décadas no mercado registou um aumento no preço de 5000% de um dia para o outro. Darapim, que é um medicamento para a toxoplasmose, ajudando também no tratamento de infeções causadas pelo HIV, alguns tipos de cancro e malária, custava 13.50 dólares (12 euros) e passou a ter um preço de 750 dólares (672 euros) desde que foi adquirido por um nova empresa.

Os especialistas em infeções estão a interrogar-se quais as diferenças no medicamento para os preços dispararem desta forma. A droga foi adquirida pela empresa Turing Pharmaceuticals em agosto e, desde essa altura, que o preço subiu 5.000%.

“O que é que eles estão a fazer de forma diferente que está a levar a este aumento?”, perguntou Judith Aberg, médica especialista em doenças infeciosas. “O aumento do peço pode fazer com que os hospitais usem terapias alternativas que podem não ser tão eficientes”.


Mas este pode mesmo ser o verdadeiro preço a pagar pelos doentes que necessitam deste medicamento com urgência, uma vez que “segundo a estrutura de preços atual, o custo anual estimado para o medicamento, sozinho, vão ser 336.000 dólares [cerca de 300.000 euros] ”, afirmou um grupo de especialistas numa carta enviada como protesto à empresa. “Este custo é injustificável para os doentes vulneráveis que precisam do remédio e insustentável para o sistema de saúde público”.

O caso é ainda mais revoltante porque a droga já está no mercado há mais de 60 anos e é essencial para o tratamento da toxoplasmose, uma infeção contraída a partir de um parasita, normalmente encontrado nos gatos, que pode causar deficiências nos fetos durante a gravidez. Para além disto, a droga tem servido para ajudar no tratamento de pacientes com doenças graves como o HIV, cancro e malária.

Contudo, a inflação do preço no Darapim não é um caso isolado. Vários medicamentos, mesmo os genéricos, em especial para tratar cancro, Hepatite C e colesterol têm sofrido aumentos nos últimos anos.

Por exemplo, o medicamento Cycloserine, usado para tratar a tuberculose, passou dos 10 para 500 dólares por uma caixa de 30 comprimidos. Doxycycline, um antibiótico, passou dos 20 dólares, em 2013, para 1.849 dólares em 2014.

Segundo o New York Times, esta subida seria normal em casos de escassez, mas estes aumentos estão a fazer parte de uma estratégia para obter mais lucro, comprando medicamentos velhos ou negligenciados e, ao aumentar os preços, tornando-as em drogas “de especialidade”.

O caso está a levantar tanta polémica que já foi abordado pela Secretária de Estado americana, Hillary Clinton, que afirmou que é necessário criar uma estratégia para combater esta manipulação do preço.
 
Price gouging like this in the specialty drug market is outrageous. Tomorrow I'll lay out a plan to take it on. -H  https://t.co/9Z0Aw7aI6h
— Hillary Clinton (@HillaryClinton)  September 21, 2015

Apesar das críticas, Martin Shkreli, o diretor da Turing Pharmaceuticals, afirma que a empresa não pretende explorar os pacientes, querendo apenas que o lucro sirva para financiar investigações, para que possam surgir novos medicamentos para a toxoplasmose de forma mais eficaz.

“Não se trata de uma companhia farmacêutica gananciosa que tenta explorar os doentes, isto somos nós a tentar manter-nos no mercado”, acrescentou, garantindo que os pacientes que tomam o medicamento têm esperanças de vida até um ano e que o preço está mais em linha com outros medicamentos para doenças raras.

“Este é um dos produtos farmacêuticos mais pequenos do mundo. Não faz mesmo sentido nenhum sermos criticados por isto”.


Sobre o tópico, o diretor da companhia acabou por se envolver numa troca de palavras mais acesa com um jornalista, no Twitter, depois de este lhe perguntar o porquê do aumento. Martin Shkreli respondeu a John Caroll, editor da Fierce Biotech, apelidando-o de "idiota" e afirmando que este "é um mau jornalista, que não verifica as fontes ou pensa logicamente",
 
O dono da Turing Pharmaceuticals esteve também em alguns programas televisivos onde foi entrevistado e disse que "qualquer empresa que estivesse a vender este medicamento estaria a perder dinheiro e, com este preço, há um lucro razoável, não excessivo".

Daraprim foi aprovado pelo F.D.A, nos EUA, em 1953. Há apenas alguns anos, uma dose custava apenas 1 dólar.