"Um ditador", per supuesto, mas também um homem com "carisma", "conhecedor de tudo" e com "uma grande capacidade de sedução".

É Fidel Castro visto por quem o conheceu pessoalmente e por quem acompanhou como ninguém a evolução política do regime cubano no quadro regional do continente americano e do mundo, desde o último quartel do século passado. José Paulo Fernandes-Fafe viveu em Havana entre 1975 e 1978, quando o seu pai foi nomeado como primeiro embaixador português na capital cubana após o 25 de abril de 1974.

Na TVI24, lembrou o líder cubano que morreu este sábado, como um homem que venceu as batalhas em que combateu. A começar pela revolução dos "barbudos" que liderou com Che Guevara, Camilo Cienfuegos, o seu irmão Raul e mais um punhado de homens, conseguindo derrubar o regime do ditador Fulgencio Batista.

Desembarcou com um barquito na costa oriental de Cuba, com 70 homens. Sobreviveram 12. E ao fim de três anos entrou em Havana com o povo atrás. Isto é uma coisa que hoje era impossível. É um homem que em dois anos e meio conquistou um país com doze guerrilheiros e com o apoio entusiástico de um povo", sustentou, lembrando que também o longo braço de ferro com os Estados Unidos acabou por não quebrar pelo seu lado.

Os Estados Unidos perderam a guerra, entre aspas, contra Cuba. Ao longo destes 60 anos, os Estados Unidos falharam a política contra Cuba. O bloqueio falhou, não resultou. A invasão que apoiaram contra Cuba, falhou. O Fidel foi um vencedor, goste-se ou não. Fidel Castro morre como um vencedor", defendeu José Paulo Fernandes-Fafe.

"Nunca conheci ninguém na política com o carisma e a capacidade de sedução que ele tinha"

Com a morte de Fidel Castro, para José Paulo Fernandes-Fafe desaparece "um dos grandes estadistas do século XX", um homem "com carisma e uma enorme capacidade de sedução".

Nunca conheci ninguém na política com o carisma e a capacidade de sedução que ele tinha. Um homem que marcou a história dos últimos 60 anos como pouca gente marcou", salientou, colocando Fidel no patamar de estadistas como Churchil, Roosevelt ou Kennedy.

Um homem com quem Fernandes-Fafe privou, que conheceu na sua adolescência em Havana, nos inúmeros encontros que manteve com o seu pai, embaixador de um Portugal saído da revolução do 25 de Abril, pelo qual Fidel, filho de galegos, tinha enorme estima.

Fidel Castro é um produto dos jesuítas, porque sempre estudou em colégios de jesuítas. Aliás, costumo dizer, um pouco a sério, um pouco a brincar, que ele tinha muito a ver connosco. Porque ele era de ascendência galega e era formado pelos jesuítas", salientou.

"Fidel falava sobre tudo com paixão" 

Em Havana, em 1975, na missão diplomática portuguesa, que Fidel frequentava muitas vezes - "e aparecia de surpresa, quando precisava de falar com o meu pai" - , José Paulo Fernandes-Fafe recorda a primeira vez que conheceu o líder cubano. Foi no dia 25 de abril de 1975, que o irmão Raul Castro, hoje presidente cubano, o levou até Fidel com quem conversou durante uns 20 minutos. E aí se revelou um homem "conhecedor de tudo" e que "falava sobre tudo com paixão".

Ele olhava para o mapa de Angola, onde nunca tinha ido na vida e descrever Angola. Como se estivesse em Angola. Ele conhecia os dossiês, ele estudava as coisas, ele era um homem apaixonado pelas coisas. Era capaz de falar duas horas sobre vacas e produção leiteira, sobre charutos, sobre vinhos. Ou vinho verde, que era uma coisa que ele adorava", contou Fernandes-Fafe na TVI24.

Nas lembranças dos anos em Havana, o consultor político recorda também o fascínio com que ouviou pela primeira vez um dos longos discursos do líder cubano e até um episódio real, contado pelo seu pai no livro que escreveu [Fidel, por José Fernandes-Fafe] que mostram a química irresistível de Castro.

Muitas vezes chamava o meu pai ao palácio e ele tem uma frase muito engraçada no livro, em que diz: ajeito a gravata e digo à minha mulher: lá vou eu ser seduzido", lembrou.

"Ele não era comunista. Era castrista"

Sobre a postura política do grande líder cubano do século XX, José Paulo Fernandes-Fafe sustenta que foi a fracassada política norte-americana face a Cuba que empurrou Fidel para o alinhamento com o bloco soviético. O envio de tropas cubanas para Angola em apoio ao MPLA na guerra civil após a independência na antiga colónia portuguesa serve de exemplo. 

Hoje está provado à saciedade que ele não informou a União Soviética de que ia mandar tropas para Angola. Achou que devia estar em Angola e pronto", sustentou Fernandes-Fafe, considerando que Fidel ficará como um dos grandes nomes revolucionários da América Latina, com o seu espírito "incontrolável".

"A revolução deu a Cuba algo que Cuba não tinha"

"Fidel Castro era um ditador? Claro que era um ditador!", salientou José Paulo Fernandes-Fafe, para quem, ainda assim, viu sempre a maioria da população cubana colocar o líder cubano acima de todos os problemas que se vivem no país. Em grande medida pelas melhorias que a revolução trouxe.

A revolução cubana deu a Cuba algo que Cuba não tinha, em matéria de educação, de saúde", referiu o consultor político e analista, considerando que o pior que podia suceder ao país seria voltar a cair na dependência dos Estados Unidos, nos moldes em que estava durante o regime de Fulgencio Batista.

Que Cuba não volte a ser o que era antes da revolução cubana. E acho que a Europa tem de jogar um papel fundamental, para que Cuba não seja uma "colónia" americana. E acho que o atual governo cubano tem essa noção. De abrir para a Europa - e acho que o professor Marcelo teve essa inteligência quando foi agora a Cuba - de maneira a não deixar o campo todo livre para os Estados Unidos", defendeu José Paulo Fernandes-Fafe.

"Maçonaria jogou um papel fundamental na aproximação Cuba-Estados Unidos"

Com a saída de Fidel Castro da presidência de Cuba, sucedeu-lhe Raul Castro, sempre com uma "imagem muito mais austera, muito mais ortodoxa do que o comandante Fidel Castro".

A partir daí, houve abertura económica e política que, para José Paulo Fernandes-Fafe, é um passo que está dado. Apesar das dúvidas que a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, a par de um congresso republicano, possam trazer no futuro.

O analista revela, contudo, uma faceta curiosa e importante do que levou Raul Castro e Barack Obama a reatarem relações diplomáticas.

A maçonaria jogou um papel fundamental na aproximação entre Cuba e os Estados Unidos. Porque o comandante Raul Castro é maçon e Obama é maçon. Se repararmos no cumprimento que têm no funeral do presidente Mandela é um aperto de mão maçon", revelou José Paulo Fernandes-Fafe.