Da Coreia do Norte, chega-nos um testemunho que mostra como cerca de 250 euros podem mudar a vida de alguém no país mais fechado do mundo. Dzhon Ken-um, um gerente de um hotel em Pyongyang, deu uma entrevista ao jornal The Guardian e revelou como uma caixa com uma erva típica do país mudou a sua vida.

Dzhon era dos poucos cidadãos que podia contactar com estrangeiros, fruto da sua profissão, já que o governo do país controla esse tipo de comunicações.

Um dia, o gerente de hotel deu a um hóspede japonês uma caixa com ginseng, uma erva usada para tratamento natural de várias doenças. Como forma de agradecimento, o hóspede deu a Dzhon uma gorjeta de 300 dólares, cerca de 269 euros. Este ato de generosidade mudou a sua vida para sempre, explicou o cidadão norte-coreano, exilado na Coreia do Sul desde 2003. 

A atividade comercial é proibida pela liderança socialista, mas em 1999, quando milhares morreram à fome, as vendas ilegais proliferaram.

Em 2004, o primeiro parque industrial da Coreia do Norte abriu portas e as autoridades começaram a permitir que os cidadãos iniciassem negócios. Dzhon agarrou essa oportunidade e iniciou um negócio de importação de roupa, investindo os 269 euros que guardara – uma pequena fortuna, tendo em conta que o rendimento anual de um trabalhador médio no país é de 900. Desde cedo, começou a ver lucro no negócio e rapidamente atingiu os 90.000 euros.

Embora a compra de certos produtos fosse permitida por volta dos anos 2000, muitos cidadãos ainda se encontravam no mecanismo de racionamento do estado para comida e roupa. Peças de roupa interior e meias eram entregues trimestralmente e “os sapatos eram providenciados muito raramente. Tudo era escrupulosamente registado”, contou o exilado. 

Kim Jon-un, Presidente da Coreia do Norte

Com o passar dos tempos, Dzhon foi percebendo que adquirira uma importância crescente em alguns grupos sociais, contudo, a ameaça à sua integridade física também acompanhou essa mudança. O homem reparou que os seus colegas de negócio desapareciam sem deixar rasto e começou a temer pela vida.

Era uma questão de tempo – amanhã, depois de amanhã, em uma semana… eles [as autoridades] iriam ter comigo”, disse. “Grandes quantidades de moeda estrangeira em mãos privadas representa uma ameaça para as autoridades, especialmente se esse capital não for compartilhado com o estado”.

Considerando que fugir com a família seria muito arriscado, o comerciante decidiu fingir a sua própria morte, afastando a mulher e filhos de retaliações por parte das autoridades. Por 45 euros conseguiu um falso certificado de morte, após um abstrato acidente de automóvel. Encoberto por uma suposta viagem de negócios à China, o fugitivo atravessou a fronteira e nunca mais voltou. 

Esta era a única opção. Se eles [as autoridades] soubessem que eu estava vivo e tinha fugido, mas não tinha reportado, eles [os familiares] tinham sido severamente punidos”, revela.

Passados quarto meses de quase-reclusão na China, Dzhon pediu asilo político na embaixada da Coreia do Sul. Chegado à capital, Seul, o recém-chegado foi alvo de interrogatório por parte dos serviços de inteligência sul-coreanos e, posteriormente, foi incluído no sistema especializado de ajuda a exilados, cujo principal trabalho é adaptar os norte-coreanos à vida capitalista do sul.

É muito difícil para as pessoas que viveram toda a vida num país socialista adaptarem-se a estilo de vida capitalista”, descreve Dzhon.

No norte, o partido [único] diz-te o que deves fazer durante toda a vida – não tomas nenhuma decisão. O sul força-te a tomar todas as decisões pessoais e, numa primeira impressão, é incrivelmente difícil de perceber”

"Quanto mais tempo eu estiver ‘morto’, mais tempo eles [os familiares] ficarão vivos. Isto é no que penso todos os dias”

Agora com 60 anos, Dzhon é locutor de rádio na Emissora de Unidade Nacional, uma estação de rádio que tenta emitir para o povo norte-coreano, como forma de combater a propaganda do governo de Kim Jon-un.

Em tom de conclusão, o fugitivo da ditadura norte-coreana disse não pretender voltar a casar e que a tentativa de contato com a família que ficou em Pyongyang está fora de questão.

Se o partido descobrir que eu estou vivo e que estou na Coreia do Sul, os meus familiares ficarão em ‘maus lençóis’”.