“Estamos à beira da rotura”, François Hollande.

“Estamos a tornar-nos os arquitetos da nossa destruição”, príncipe Carlos de Inglaterra. 

“Os EUA aceitam a responsabilidade de fazer algo”, Barack Obama.


A preocupação quanto ao impacto das alterações climáticas parece estar nas palavras dos representantes dos 195 países que marcam presença na   21ª Conferência do Clima da ONU (COP21), que esta segunda-feira começou em Paris. Vista como uma das últimas oportunidades de travar o aquecimento global, o aumento das temperaturas em mais de dois graus Celsius, a cerimónia de abertura, onde discursaram vários líderes mundiais, deixou a sensação que um acordo alargado e duradouro pode ser alcançado, mas até 11 de dezembro há muito para discutir.

Há, para já, uma boa notícia. Os presidentes dos dois maiores poluidores mundiais, China e EUA, mostraram-se empenhados em encontrar uma solução que trave as alterações climáticas, antes que seja tarde demais. Porém, vale lembrar que ambos não são signatários do protocolo de Quioto, uma das tentativas passadas de encontrar uma solução para o problema.

 

Xi Jinping (Foto: EPA)

 

A China, representada pelo presidente Xi Jinping, defendeu que a solução deve ser ajustada a cada país, tendo em conta o seu poder económico, permitindo a cada nação avançar com as suas próprias soluções internas. Porém, o país está a favor de um controlo das emissões de gases poluentes.

“O acordo deve colocar um controlo efetivo ao aumento da concentração de gases de estufa, e encorajar os países a optarem por um desenvolvimento [assente em políticas] verdes, e de baixas [emissões]”, disse, segundo a Reuters.


O país com a maior economia do mundo, os EUA, foi representado igualmente pelo seu presidente, Barack Obama, que se comprometeu a fazer parte de uma solução. Obama viu, no verão passado, “os efeitos das alterações climáticas no Alasca, onde o mar está já a engolir vilas e a causar a erosão costeira, onde os glaciares estão a derreter a um ritmo sem precedentes nos tempos modernos”. “Uma antevisão de um possível futuro: o destino dos nossos filhos”, lamentou.
 

“Como líder da maior economia e segundo país mais poluente, os Estados Unidos da América não só reconhecem o seu papel na criação do problema, como aceitam a responsabilidade de fazer algo.”    

 
Mas das palavras aos atos há um longo caminho a percorrer, e a “procrastinação” tem sido demasiado recorrente nas questões do clima. Como se uma dieta se tratasse, aquela que prometemos começar sempre na próxima segunda-feira, de cimeira em cimeira, de encontro em encontro, uma solução rígida e duradoura que garanta um esforço global nunca chega realmente.
 
O príncipe Carlos de Inglaterra avisa que não há “ameaça pior para a humanidade” que as alterações climáticas, um problema que causámos e que temos capacidade para resolver. Algo tem de ser feito, sem mais “procrastinação”.
 

David Cameron, príncipe Carlos, príncipe Alberto e Angela Merkel na Cimeira do Clima (Foto: Reuters)


“Se o planeta fosse uma paciente, já a teríamos tratado há muito tempo. Vocês, senhoras e senhores, têm o poder de a colocar em suporte de vida, e devem iniciar os procedimentos de emergência sem mais procrastinação. Ao danificar o clima estamos a tornar-nos os arquitetos da nossa destruição. Temos o conhecimento, as ferramentas e o dinheiro [para resolver esta crise].”

 
Do lado da Rússia chegou uma voz mais dura. O presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, disse que o limite das emissões de gases de estufa deve ser obrigatório por lei e igual para todos, seja nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento.
 

“Nós conseguimos reduzir significativamente as emissões de gases, ao mesmo tempo que dobrámos o nosso PIB. Demonstrámos que é possível assegurar o desenvolvimento económico, ao mesmo tempo que se protege o ambiente.”

 
“A Rússia vai continuar a contribuir para a prevenção do aquecimento global”, acrescentou, segundo a Reuters.
 
Em estado de alerta devido ao fantasma do terrorismo, cuja materialização no dia 13 de novembro já atirou as metas orçamentais para “segundo plano”, a França parece, ainda assim, comprometida em fazer parte de uma solução.
 

François Hollande (Foto: EPA)


François Hollande, que também falou na sessão de abertura, não deixou de incluir o problema do terrorismo no seu discurso, porém dá às alterações climáticas uma importância igualmente significativa, na construção de um mundo melhor.
 

“Para resolver o problema do clima, a boa vontade não é suficiente. Estamos à beira da rotura. (…) Não posso separar a luta contra o terrorismo da luta contra o aquecimento global. São dois desafios que temos pela frente, pois devemos aos nossos filhos um mundo sem terrorismo, mas também um planeta sem catástrofes [naturais].”

 
O derradeiro apelo partiu, como esperado, do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

“A ciência já o provou. Mesmo um aumento de dois graus Celsius irá ter consequências sérias para a segurança de comida e água, na estabilidade económica e para a paz internacional”.
 

“Peço [a todos os países] que digam aos seus negociadores para escolherem o caminho do compromisso e do consenso. Uma ação corajosa pelo clima está no interesse nacional de todos os representados nesta cimeira.”

    
O primeiro-ministro português, António Costa, também esteve na cerimónia, porém não pôde discursar por o Governo anterior não ter feito a sua inscrição.

Veja também: "Corrida contra o tempo", uma grande reportagem de Isabel Loução dos Santos, sobre as alterações climáticas,