Mais de 200 habitantes de uma localidade chinesa, na província de Sichuan, assinaram uma petição para que uma criança de 8 anos seja «isolada». Peng Liyuan, a primeira-dama da China, liderou este mês uma luta contra a discriminação das vítimas de HIV sob o lema «juntos para sempre». 
 
O jornal chinês «Beijing Youth Daily», que publicou uma reportagem sobre o rapaz - conhecido apenas como Kun Kun - disse que 203 residentes de Xichong assinaram uma petição solicitando que as autoridades adotem «medidas de isolamento preventivas, levando Kun Kun para longe da aldeia, para proteger a saúde dos moradores e das crianças».
 
A mãe - que transmitiu o vírus durante a gravidez - e o padrasto vivem numa outra província, por isso, os responsáveis por Kun Kun são os avós. O jornal chinês publicou uma fotografia de Kun Kun a ver o avô a assinar a petição. O rapaz «correu para casa, enfiou-se na cama e ficou ali, sem falar», lê-se na reportagem, como cita a BBC.
 
«Não podemos tomar conta da criança», disse o avô, Luo Sheng, ao jornal chinês. Luo explicou que ele e a mulher estavam demasiado velhos e doentes e que não era o avô biológico do rapaz, mas o pai do homem que agora vivia com a mãe de Kun Kun.
 
O jornal adianta que o rapaz não vai à escola, por não ter sido admitido em nenhuma, e passa os dias a brincar na floresta. Foi considerado culpado de ter iniciado incêndios na aldeia, inclusive à própria casa.
 

«Ninguém quer brincar comigo, tenho de brincar sozinho», disse Kun Kun. Alguns vizinhos confessaram que receavam que os filhos «apanhassem» sida se tocassem no rapaz ou se ele os mordesse.

 
As autoridades chinesas explicaram que a discriminação contra portadores do vírus é frequente no país. Os relatos dos jornais locais referem que a criança contraiu o vírus a partir da mãe, durante a gravidez, e que só foi diagnosticado quando tinha 5 anos.
 
«Sentimos pena dele. É inocente e é só um rapaz. Mas o facto de ter sida é demasiado aterrorizante para a comunidade», disse o secretário da assembleia, Wang Yishu, ao jornal.
 

«O que essas pessoas fizeram é extremo e irracional. Mas na verdade é compreensível. É porque ainda não sabem muito sobre a doença e temem-na bastante», disse Ye Dawei, o diretor da Fundação Laço Vermelho, ao jornal China Real Time. «Conseguimos aperceber-nos que não fizemos trabalho suficiente de propaganda», acrescentou.

 
A Organização Mundial de Saúde (OMS) informou, no início do mês, que a China tinha conquistado avanços na prevenção e tratamento do HIV, mas que ainda são necessários mais esforços.