A possibilidade de Hong Kong impor restrições à utilização de ar condicionado por parte dos empregados domésticos está a causar polémica. Um político que lidera um grupo de patrões afirmou mesmo que os trabalhadores deviam "habituar-se ao clima quente".

A hipótese ganhou força depois da publicação de uma mulher se ter tornado viral no Facebook. A mulher mostrou-se indignada porque a empregada ligou o ar condicionado no quarto, durante a noite, sem autorização.

Estou muito irritada”, escreveu a mulher, identificada apenas como Wong, de acordo com a AFP.

Wong afirmou que iria remover o interruptor do ar condicionado do quarto da trabalhadora, de imediato.

Embora a mulher tenha sido amplamente criticada por algumas pessoas, houve também quem a apoiasse.

O político Michael Lee, que lidera um grupo de patrões, disse, numa entrevista, que os domésticos devem estar habituados às temperaturas elevadas porque vêm de países muito quentes, como as Filipinas e a Indonésia. E pediu aos empregadores que estabelecessem regras rígidas em casa.

Se vieram de países quentes devem habituar-se ao clima quente”, disse Michael Lee, em declarações à AFP.

O político afirmou que os trabalhadores devem ter ar condicionado, mas apenas para conseguirem executar as tarefas domésticas. 

Eu recomendo que todos os empregadores de Hong Kong estabeleçam regras em casa, que digam o que os trabalhadores podem e não podem fazer”, acrescentou.

As declarações surgem numa altura em que Hong Kong tem registado temperaturas elevadas, acima dos 30 graus.

Os ativistas dos direitos humanos defendem que limitar o ar condicionado aos empregados domésticos é “ridículo, injusto e desumano”.

Restringir o uso do ar condicionado por parte dos empregados domésticos é desumano e poderá causar a deterioração da saúde (dos trabalhadores)”, disse Eni Lestari, antiga empregada doméstica e porta-voz do Organismo de Coordenação dos Migrantes da Ásia, de acordo com a AFP.

Segundo a AFP, Hong Kong tem cerca de 340 mil trabalhadores domésticos, a maioria originários das Filipinas e da Indonésia.

Aqui, os domésticos são obrigados, por lei, a viver com os patrões.

Os ativistas dos direitos humanos afirmam que a maioria dos trabalhadores sofre abusos e maus-tratos.

Em 2015, uma patroa de Hong Kong foi condenada a seis anos de prisão por torturar a empregada, uma mulher chamada Erwiana Sulistyaningsih.

As organizações dos direitos humanos também têm criticado as agências responsáveis pelo recrutamento, por cobrarem taxas exorbitantes aos migrantes.

Os ativistas já tentaram que fossem feitas alterações na legislação, incluindo, por exemplo, o fim da “regra de duas semanas”, que obriga os trabalhadores domésticos a sair da cidade 14 dias depois de ficarem sem emprego, a menos que consigam encontrar outro. Contudo, o governo ainda não alterou nenhum regulamento.