Um ataque terrorista nas instalações do jornal «Charlie Hebdo», esta quarta-feira de manhã, em Paris, fez 12 mortos. Dois dos mortos são polícias, os restantes são trabalhadores da redação. Há ainda 11 feridos, quatro em estado crítico.  Os três suspeitos do ataque já foram identificados pela polícia. A polícia francesa desencadeou uma operação na localidade de Reims durante a noite.

O relato AO MINUTO sobre o atentado ao jornal francês

Charb, o diretor do jornal satírico, é um dos mortos. Cabu (considerado um dos maiores cartoonistas franceses), Wolinski e Tignous também morreram, assim como o acionista do jornal, o economista de esquerda Bernard Maris. Ao final da noite foi confirmado que um dos mortos por identificar é o cartoonista Phillipe Honoré, de 73 anos.





O ataque foi realizado por três homens durante uma reunião de trabalho do «Charlie Hebdo» e o momento foi captado por várias testemunhas:
 
Os suspeitos entraram no jornal, todos vestidos de negro, de cara tapada e fortemente armados, e sabiam quem queriam matar, tendo chamado por nomes específicos. Estavam munidos com duas metralhadoras Kalashnikov e também um lança-granadas.

Terão ameaçado uma das jornalistas do «Charlie Hebdo», que entrava no edifício e que lhes terá aberto a porta. De acordo com a jornalista em causa, reclamaram pertencer à Al-Qaeda.

Um vídeo-amador captou mesmo o momento em que, depois do ataque à redação, os suspeitos matam ainda um polícia na rua. 

O «Le Parisien» acrescenta que os dois homens conseguiram fugir em direção ao norte da capital francesa, num carro furtado. Segundo os polícias, os homens gritaram: «Vingámos o profeta» e «matámos o Charlie Hebdo».

A viatura foi, entretanto, abandonada no 19º Bairro e decorre uma gigantesca caça ao homem.



A violência dos disparos ficou marcada nas vitrinas de uma loja vizinha do jornal. Os tiros aparentam ser de uma arma Kalachnikov. 
 
  «Um ataque terrorista»

François Hollande, o presidente francês chegou pelas 11:50 à sede do jornal. Classificou este atentado como «bárbaro» e, sem dúvida, «um ataque terrorista». 

«Os responsáveis por este ataque serão punidos. A França está em estado de choque. É um ataque terrorista, sem dúvida», disse Hollande.

Cerca das 20:30 locais, François Hollande voltou a falar ao país, desta vez a partir do Palácio do Eliseu. O Presidente francês decretou um dia de luto nacional, na quinta-feira. O chefe de Estado prometeu que a França não se vai render ao terrorismo e que a liberdade será sempre salvaguardada.

«A nossa melhor arma é a unidade. Nada nos pode dividir, nada nos pode separar. A liberdade será sempre mais forte do que a barbárie», avisou.


O presidente também mandou reunir um gabinete de crise e a França está em alerta máximo com receio de ataques terroristas. A segurança está a ser reforçada em todas as redações, de acordo com o «Le Fígaro». Segurança reforçada ainda em grandes armazéns comerciais, locais de culto e também transportes.  As escolas suspenderam todas as atividades no exterior, como passeios e excursões, e foi proibido o estacionamento em frente a estabelecimentos escolares, mesmo para recolher crianças.

O último tweet do jornal antes do ataque

Alguns minutos antes do ataque, o último tweet do jornal mostrava uma imagem satírica com o  líder do Estado Islâmico, Al-Baghdadi.

 

 
Jornal já tinha sido atacado antes

Esta não é a primeira vez que a redação do «Charlie Hebdo» é atacada em retaliação por críticas ao mundo islâmico.

Em novembro de 2011 a redação do jornal foi atacada com uma bomba incendiária que destruiu a sede, uma retaliação a outras caricaturas referentes ao mundo islâmico.



Em 2012, numa altura em que, um pouco por todo o mundo, os muçulmanos se manifestavam contra o filme norte-americano «Innocence of Muslims», onde se mostra o profeta Maomé em diversas cenas de sexo, com mulheres e com homens, a revista francesa publicou novas caricaturas do profeta islâmico.

Fazendo referência ao filme «Intochables», que conta a história de um homem tetraplégico que encontra no seu novo assistente um amigo para a vida, na caricatura publicada na capa da revista vemos Maomé numa cadeira de rodas a ser empurrado por um judeu ortodoxo, lendo-se «Intochables 2» como título.



Outros desenhos foram igualmente colocados no interior da revista, onde se vê, por exemplo, o profeta do islão nu.

Já em 2006, «Charlie Hebdo» tinha sido um dos media europeus a publicar as caricaturas do jornal dinamarquês «Jullands-Posten», que cerca de um ano antes pediu a 40 cartoonistas que desenhassem caricaturas do profeta islâmico.

Os desenhos enfureceram a comunidade islâmica, uma vez que a representação do profeta é proibida.

No mês passado, França sofreu quatro ataques seguidos relacionados com muçulmanos radicalizados, mas tratavam-se de pessoas isoladas. 

Manifestações por todo o mundo

Um pouco por toda a França foram realizadas manifestações em solidariedade com o jornal satírico «Charlie Hebdo», e a reivindicar a liberdade de imprensa e os valores da democracia e República. As manifestações juntaram mais de 100 mil pessoas e também acabaram por alastrar-se a outras cidades europeias.

Em Espanha, onde houve um susto na redação da Prisa, o nível de alerta antiterrorista foi aumentado

A lista das vítimas
 
  • Charb, alcunha de Stéphane Charbonnier, 47 anos, cartoonista e diretor do jornal «Charlie Hebdo»;
  • Cabu, Jean Cabut, 76 anos, cartoonista, considerado um dos melhores profissionais da área, em França, e um dos pilares do jornal. Também trabalhava para o jornal «Le Canard Enchaîné»;
  • Georges Wolinksi, 80 anos, cartoonista, nos anos 60 integrou a revista satírica Hara-Kiri e mais tarde tornou-se numa das figuras principais do «Charlie Hebdo»;
  • Tignous, ou Bernard Verlhac, 57 anos, cartoonista, trabalhava para o Charlie Hebdo e para a «Fluide Glacial»
  • Bernard Maris, ou «Oncle Bernard» (Tio Bernard), 68 anos, economista, cronista no «Charlie Hebdo» e acionista do jornal
  • Philippe Honoré, 73 anos, cartoonista no jornal
  •  Michel Renaud, fundador do diário de viagem Clermon-Ferrand, foi chefe do gabinete do governador da capital de Auvergne
  • Franck Brinsolaro, 49 anos, polícia que fazia proteção ao diretor do jornal, Charb
  • Ahmed Merabet, 42 anos, polícia, membro da brigada VTT, uma brigada de polícias em bicicleta do distrito 11
  • Mustapha Ourrad, corretor
  • Fréderic Boisseau, agente de serviços
  • Elsa Cayat, psicanalista e colunista

A identidade dos onze feridos ainda não foi confirmada pelas autoridades.