A próxima edição do jornal satírico Charlie Hebdo foi revelada, esta segunda-feira, depois do jornal ter interrompido as publicações, durante quase dois meses, na sequência do atentado terrorista que matou 12 membros da redação a 7 de janeiro.

A nova edição chega às bancas já esta quarta-feira com um vermelho garrido e com um cão fugir com um jornal na boca. Logo atrás vai, em furiosa perseguição, uma matilha com semelhanças a Sarkozy, a Marine Le Pen, a um jihadista e a um papa.



A letra garrafais a mensagem: «Aqui vamos nós outra vez!». A redação do jornal já veio esclarecer que «independentemente das ameaças que pairam sobre o jornal», na próxima quarta-feira há mais Charlie Hebdo nas bancas

Em entrevista à Lusa por telefone, a desenhadora, Corinne Rey, conhecida como «Coco», e sobrevivente do atentado de 7 de janeiro, explicou que os colaboradores do Charlie Hebdo estão «sob proteção» [policial] e lembrou que «as ameaças contra Zineb El Rhazoui, contra Riss e contra o próprio jornal continuam presentes» mas insistiu na necessidade de «não ceder ao medo».

«Não estávamos preparados para este tipo de acontecimento, não é humano. O que nós vivemos deixa-nos um pouco céticos, mas não vai impedir a liberdade de expressão porque o que eles queriam era calar-nos. Digo não ao medo. Claro que isso não trava a angústia porque vivemos um choque traumático. Porém, não temos medo», descreveu.


Os desenhos para a próxima edição foram escolhidos na sexta-feira passada e «Coco» preparou «uma coluna sobre o processo DSK [Dominique Strauss-Kahn] em Lille», o mediático julgamento do antigo diretor do Fundo Monetário Internacional que enfrenta a acusação de proxenetismo agravado.

Com a redação ficou reduzida depois do ataque de 7 de janeiro, o jornal recorreu «à ajuda de outros desenhadores» como, por exemplo, Pétillon do semanário satírico «Canard Enchaîne».

Visto que se trata de «um jornal onde se desenha sobre as notícias da atualidade», as páginas do próximo Charlie Hebdo também vão contar com desenhos sobre os ataques de 14 de fevereiro em Copenhaga: o primeiro contra um centro cultural onde o cartoonista sueco Lars Vilks - que, em 2007, tinha desenhado o profeta Maomé com corpo de cão - participava num debate sobre liberdade de expressão e o segundo contra uma sinagoga.

«Foi outro choque. É um crime contra a nossa liberdade, contra a cultura, contra a democracia, seja em França, na Dinamarca ou em qualquer outro sítio do mundo. É preciso lutar contra isso e não ceder ao medo», continuou.


Tal como a «edição dos sobreviventes» que saiu a 14 de janeiro - uma semana após o atentado - a nova edição foi preparada numa sala do diário Libération, mas a redação do jornal satírico deve mudar-se «dentro de algumas semanas».