Em 45 anos de existência (e uma longa interrupção), «Charlie Hebdo» sempre incomodou, e sempre foi, aliás, esse o objetivo: fazer rir, fazer reagir, fazer pensar. Até 2011, foi sobretudo nos tribunais que a escrita do jornal foi atacada. Até ao incêndio com origem criminosa em 2011. E até ao massacre desta quarta-feira, dia 7 de janeiro de 2015.
 
Fevereiro 1969 François Cavanna, Georges Bernier sob o pseudónimo de Professor Choron e Henri Roussel, aliás Delfeil de Ton, membros da publicação «Hara-Kiri», o «jornal estúpido e maldicente», lançam «Charlie». Era então apenas um jornal mensal e amplamente ilustrado. A publicação torna-se «Charlie Hebdo» no ano seguinte, em 1970, após ser proibida a publicação de «Hara-Kiri», na sequência da morte do general De Gaulle e da famosa manchete sobre o óbito: «Baile trágico em Colombey: um morto».


 
Dezembro 1981 O título deixa de ser publicado por falta de leitores.
 
1992 «Charlie Hebdo» renasce. O professor Choron não faz parte da nova equipa editorial. Mas à equipa de seniores Cavanna, Delfeil de Ton, Siné, Gébé, Willem, Wolinski, Cabu juntam-se novos membros como Plantu, Charb, Olivier Cyran.


 
1998 Uma das caricaturas de «Charlie Hebdo» gera polémica. Com o título «Défice de Comunicação em línguas regionais», um desenho de Riss tem como pano de fundo a aldeia de Oradour-sur-Glane, palco a 10 de junho de 1944 do massacre de 642 pessoas pela 2ª Divisão Blindada SS Das Reich. Catorze pessoas da Alsácia, comprometidas com os nazis, e 150 soldados foram julgados em Bordéus, em 1953, pela participação no massacre. O deputado socialista Armand Jung considerou, na altura, que «todos os limites do que é admissível foram ultrapassados».

Fevereiro 2006 A publicação, pelo «Charlie Hebdo», de caricaturas do profeta Maomé faz escândalo. E torna-se a causa dos ataques que se seguirão. Na capa do jornal, Maomé com as mãos na cabeça, reclama: «É difícil ser amado por idiotas». No interior, o jornal reproduziu nas próprias páginas as 12 caricaturas publicadas num jornal dinamarquês, o «Jyllands Posten», antes de serem publicadas na íntegra no jornal «France Soir» e, algumas delas, também no «Libération» e no «Le Monde». «Decidimos publicar as caricaturas, em solidariedade com o diretor editorial do «France Soir» demitido e para apoiar a liberdade de expressão», defende o diretor de «Charlie Hebdo» na época, Philippe Val. O caso causou comoção, as vendas do jornal dispararam.



Fevereiro 2007 Perseguido na justiça por várias organizações muçulmanas, por ter publicado as caricaturas de Maomé, «Charlie Hebdo» responde às acusações em tribunal. Em causa estão duas caricaturas: a que mostra Maomé com uma bomba no turbante, e também aquela em que Maomé trava um grupo de homens-bomba com a afirmação: «Parem, não temos mais virgens em stock». Vários intelectuais, políticos e redações de jornal, entre as quais a do «Libération», apoiaram «Charlie Hebdo».


 
22 de março 2007 «Charlie Hebdo» é absolvido em tribunal. «Numa sociedade secular e pluralista, o respeito por todas as crenças está associado à liberdade de criticar religiões, quaisquer que sejam», afirmaram os juízes, que sublinharam que a blasfémia já não é crime em França.
 
Julho 2008 Rebenta o caso Siné. O caricaturista, um histórico do «Charlie Hebdo», é demitido pelo diretor Philippe Val por causa de uma crónica considerada antissemita. O debate sobre a liberdade de expressão volta a estar na ordem do dia.

Novembro 2011 «Charlie Hebdo» publica um especial «Sharia Hebdo» para «celebrar a vitória» do partido islamita Ennahda, na Tunísia. Na noite que precedeu o lançamento do especial, a redação do jornal é atacada com uma boma incendiária. Não houve feridos, mas a sede, na altura localizada no nº 62 do Boulevard Davout, foi destruída. No dia seguinte, o jornal «Libération» acolheu os jornalistas de «Charlie Hebdo». A redação, mais mobilizada do que nunca, ali permaneceu algumas semanas. Desde essa altura, os desenhos de autoria de Luz ou de Tignous permanecem afixados nas paredes.

Setembro 2012 Novas caricaturas de Maomé, novo escândalo. A manchete «Intocáveis 2» causa indignação. A rubrica «Les unes auxquelles vous avez échappé» («As manchetes a que você escapou») também inclui duas caricaturas de Maomé que fazem escândalo. Uma apresenta o profeta numa posição muito explícita, que o canal iTélé se recusou a colocar no ar. Jean-Marc Ayrault, então primeiro-ministro, defende a liberdade de expressão, mas recusa «excessos».


 
Alguns dias antes da publicação deste número, uma manifestação foi realizada perto da embaixada dos Estados Unidos, em Paris, na sequência da controvérsia que se gerou nos EUA e em França, após o lançamento do filme islamofóbico «A inocência dos muçulmanos». Uma onda de protestos eclodiu no mundo muçulmano. «Eu não digo aos puristas muçulmanos que leiam Charlie Hebdo, assim como eu não iria a uma mesquita para ouvir discursos que vão contra aquilo em que eu acredito», defendeu Charb, chefe de redação do «Charlie Hebdo».
 
Dezembro 2013 Nova polémica em torno de uma canção gravada à margem de um filme «La Marche» («A Caminhada») de Nabil Ben Yadir em que o rapper Nekfeu diz «reclama um auto de fé [fogueira] para estes cães de Charlie Hebdo». Charb denuncia a canção «fascista».
 
Fevereiro 2014 «Charlie Hebdo» vai mais uma vez a julgamento. Desta vez, por iniciativa da Liga da Defesa Judiciária dos Muçulmanos, liderada pelo ex-advogado Karim Achoui que ataca a manchete «O Alcorão é uma merda, não trava balas». O julgamento foi realizado em Estrasburgo: o direito da Alsácia-Moselle prevê o delito de blasfémia. Nessas regiões, a lei de 1905 de separação entre a Igreja e o Estado não é aplicada.