O cerco tem-se apertado para Lula da Silva nas últimas horas, com a notícia da suspensão da posse do antigo presidente brasileiro como Chefe da Casa Civil por parte de um juiz federal. Segundo o Globo, o juiz deu deferimento a uma providência cautelar. Lula da Silva, como Chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff, gozaria de imunidade. 

Horas antes desta decisão foram divulgadas as escutas ao antigo presidente do Brasil, no âmbito do mega processo de corrupção “Lava Jato”. Antecipando-se à tomada de posse marcada para esta quinta-feira, o juiz federal Sergio Moro divulgou as conversas entre a atual presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e o ex-presidente, Lula da Silva e que a imprensa brasileira publica.

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No telefonema de 16 de março fica indiciado que Dilma nomeia Lula para a Casa Civil com o propósito de livrá-lo do banco dos réus.

DILMA: LULA, deixa eu te falar uma coisa.

LILS: Fala querida. "Ahn"

DILMA: Seguinte, eu tô mandando o "BESSIAS" junto com o PAPEL pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o TERMO DE POSSE, tá?!

Dias antes, Lula queixara-se a Dilma das buscas a sua casa e a casa dos filhos e, na troca de palavras com a presidente, chama a tudo um espetáculo de “pirotecnia” e dá a entender que é um caso de perseguição política por parte daqueles que querem “refundar a República”. Foi numa conversa captada a 6 de março, em que Lula é suspeito de tentar que a presidente intercedesse junto da ministra da Justiça, Rosa Weber, para travar o processo.

"É um espetáculo de pirotecnia sem precedentes"

DILMA: Alô, alô. Oi LULA! LILS: Tudo bem?

DILMA: Não, não tô achando tudo bem não.

LILS: Faz parte...

DILMA: Ah, faz parte? Então tá bom. E como é que você tá? LILS: Eu tô bem...

DILMA: tá?

LILS: eu tô bem, eu falei com a MARISA agora, eles já foram embora de casa, já foram embora da casa do FÁBIO, já foram embora da casa do SANDRO, eu só não conseguir falar com MARCOS. As perguntas, se os canalhas tivessem mandado um ofício, teria ido prestar depoimento, como eu já fui 3 vezes a Brasília prestar depoimento. Eu acho que o MORO quis fazer um espetáculo, antes da decisão daquele negócio que tá no SUPREMO pra decidir, a gente não sabe se é contra ou a favor, mas ele precisava fazer um espetáculo de pirotecnia. As perguntas foram as mesmas que eu já respondi ao MINISTÉRIO PÚBLICO e a dois Delegados da POLICIA FEDERAL. Dos meus filhos, eles levaram os mesmos documentos que já tinha levado quando tinham levado na “invasão” na casa do meu filho.

 

(…)

LILS: Mas viu querido, “ELA” tá falando dessa reunião, ô WAGNER eu queria que você visse agora, falar com “ELA”, já que “ELA” tá aí, falar o negócio da ROSA WEBER, que tá na mão dela pra decidir. Se homem não tem saco, quem sabe uma mulher corajosa possa fazer o que os homens não fizeram.

JAQUES WAGNER (ministro da Casa Civil): Tá bom, falou! Combinado, valeu querido, um abraço. Um abraço na MARISA e nos meninos.”

A 26 de fevereiro tinha sido intercetada uma conversa que falava no nome de Rosa Weber. O “nosso amigo” é, segundo o resumo da polícia, Lula da Silva.

ROBERTO TEIXEIRA: Fala pra ele, fala pro "nosso amigo" aí que o nome daquele assunto é ROSA WEBER.

MORAES: Ah, tá, tá bom, já guardei...

ROBERTO TEIXEIRA: O nome da pessoa é ROSA WEBER, e que seria conveniente ele falar com o... (interrompido)”

 

"Lutando como um leão pra não morrer como um gatinho", diz Lula

São inúmeras as conversas que evidenciam o desconforto de Lula da Silva com a situação, como esta, transcrita a 9 de março.

VAGNER: Tudo. Tá firme e forte, aí?

LILS: Firme e forte, lutando como um leão pra não morrer como um gatinho.

VAGNER: Não, não.. um cabra como você não morre, e se morrer não é como um gatinho. Jararaca não morre.”  

Num outro diálogo com o mesmo interlocutor: “E hoje eu disse para os SENADORES: Eu não quero incendiar o país! Eu sou a única pessoa que poderia incendiar esse país... E eu não quero fazer como "NERO", sabe? Não quero! Sou um homem de paz, tenho família...”

"Se ele quiser agora vir prendê-lo, que venha, mas não prenda minha mulher, meus netos, meus filhos"

Num telefonema escutado em 4 de março, entre um advogado colaborador de Lula e um sujeito identificado como Jorge, este último “diz que tem que subir o tom, transformar Lula em preso político”, resume o documento oficial. Entre estes dois homens escutados é orquestrado um plano para acabar com a “perseguição” ao ex-presidente.  

JORGE: Eu acho que a fala do presidente foi bom, mas ela foi muitos tons abaixo do que deveria ser.

ROBERTO TEIXEIRA: Certo.

JORGE: Talvez.. olha a minha ideia.. falei até com o DAMOUS. Talvez seja a única oportunidade que o presidente tem de por fim à essa perseguição, essa caçada contra ele. Se numa segunda-feira, por exemplo, reflitam sobre isso, ele chamar uma coletiva e comprar e estabelecer uma relação, um diálogo com seu MORO pela, ao vivo, MORO, PROMOTORES, DELEGADOS, dizendo que ele não aceita mais que ele persiga a família dele porque ele tá agindo fora da lei, os promotores fulano e ciclano estão agindo fora da lei, os delegados fulano e ciclano e quem age fora da lei é bandido e que se ele quiser agora vir prendê-lo, que venha, mas não venha prender minha mulher, prender meus netos, nem meus filhos.. E forçar a mão nele pra ver se ele tem coragem de prender por desacato a autoridade, porque aí, aí eles vão ter uma comoção no país, porque ele vai tá defendendo a família dele, a honra dele.. dizer: olha, eu estou defendendo a minha honra, você está agindo fora da lei, quem age fora da lei é bandido.. me sequestraram, me colocaram.. eu não sei, tinha que pensar algo parecido com isso e dar uma coletiva e provocar e dizer que não vai aceitar mais.

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito.

JORGE: Não aceita, em hipótese nenhuma.. se rebelar.. greve de fome, alguma situação.. você tem também alguma insubordinação judicial, não aceito mais ser investigado por esse bando que tá agindo fora da lei e querendo alcançar minha família, minha mulher, meus filhos e meus netos. Não aceito mais. Me prendam. Se prenderem ele, aí vão prender e tornar um preso político, aí nós fazemos esse país virar de cabeça pra baixo. Fora disso eu não vejo saída (ininteligível).

 

(…)

JORGE: Diga: me prenda, eu estou aqui. Vou ficar nesse endereço esperando a chegada dos seus subalternos com o mandado de prisão. Se ele prender, o LULA vira um preso político e vira uma vítima, se não prender, ele também se desmoraliza. Tem que virar o jogo agora. Esse negócio de andar o Brasil, de falar, isso não vai funcionar, isso foi num passado distante. Tem clima, e isso tem que ser feito urgente, porque senão no dia 13 vai ter milhões de pessoas na rua querendo a prisão do LULA. Eu to dando um toque, eu to no andar de baixo andando e é só mais pra vocês refletirem um pouco se puder.

ROBERTO TEIXEIRA: Perfeito. Vamo, vamo refletir sim, vamo transferir isso aqui. Ele agora vai estar num ato aqui dos bancários, que ele vai agora falar pro povo, né? E...

JORGE: Eu não sei, mas você fala, diz: ó, foi uma possibilidade, LULA, existe greve de fome quando alguém se rebela e não aceita determinadas coisas, na parte judicial, porque ninguém do Supremo vai dar colhida mais ao LULA, mas tem muitas manifestações favoráveis. Se o LULA colocar como o defensor da família dele, da mulher, dos filhos e desafiar e dizer que eles tão agindo fora da lei, como agiram hoje fora da lei, quem age fora da lei é bandido e dizer: vocês são bandidos, agiram foram da lei. Só vai ter uma saída: ou o cara prende ele ou fica desmoralizado. Não aceito mais. Que o judiciário ponha um juiz isento pra me investigar, ponha um promotor isento pra me investigar, ponha é.. é.. delegado da polícia federal isento.. esse MOSCARDI veio aqui no Acre, fez uma operação contra o PT, nós denunciamos pro ZÉ EDUARDO CARDOSO, entramos com uma representação há seis anos contra esse delegado que pegou o presidente hoje. Ele é um inimigo do PT e tava lá. Agora, o presidente não tem outra oportunidade. Pra mim ele tem que fazer no máximo até segunda-feira, chamar uma coletiva e insubordinar e dizer que não aceita mais, não aceita mais e dizer: olha, vocês estão agindo fora da lei, e quem age fora da lei é bandido (ininteligível) o senhor está agindo como bandido, e o senhor não tem moral de me apurar de me investigar, eu to falando como cidadão, não é como ex-presidente, cidadão. Aqui está a constituição. Pense nisso. Reflita, porque nós não vamos ter outra oportunidade igual ao dia de hoje, não”.  

As suspeitas dos telefones sob escuta

No resumo de um telefonema escutado a 27 de fevereiro, a polícia conclui que “há indícios de que o Exmo. Sr. Ministro da Casa Civil Jaques Wagner tivesse conhecimento de que os telefones utilizados por Lula da Silva fossem objeto de monitoramento telefónico autorizado pela 13ª Vara Federal de Curitiba”.

A conversa passa-se entre o deputado federal, Paulo Teixeira, Jaques Wagner e Lula da Silva (LILS).

LILS: Viu. É urgente de urgente de urgente de urgente tá bem. Ele vai falar com você tá. E depois o CRISTIANO também fala com você. Tá bom?

JAQUES WAGNER: Falou.

PAULINHO: Ministro, como é que a gente pode falar com o senhor?

JAQUES WAGNER: Pera aí. Só um minuto. "Cê" tá falando do quê? "Dum" fixo?

PAULINHO: Não. Isso aqui é celular. Como é que pode falar pessoalmente com contigo? Pra gente falar pessoalmente? A gente vai aonde você "tiver".

JAQUES WAGNER: Pessoalmente é só na Bahia.

 

(…)

JAQUES WAGNER: (Ininteligível) ... no telefone fixo?

PAULINHO: Num telefone fixo? Podemos falar num telefone fixo.

JAQUES WAGNER: Repare. Se você tá num hotel e fizer ligação via hotel... (ininteligível) ...Tipo um PABX, daí dá.

PAULINHO: Tá bom. Então vamos fazer o seguinte: qual o telefone? Qual o telefone?

JAQUES WAGNER: (fala ao fundo) Me dê o telefone aí.

 

(…)

JAQUES WAGNER: Se tirar o zero do telefone daí. Faz ligação pelo PABX de hotel, acho impossível ter algum problema.

PAULINHO: Tá bom. A gente tá ligando pra você então. Tchau, tchau”. 

 

Moro tinha suspendido escutas antes da gravação polémica

A conversa telefónica divulgada na quarta-feira em que Dilma Rousseff diz a Lula que estaria naquele momento a enviar-lhe pelo subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil o documento da posse como ministro e que foi interpretado como um salvo-conduto para impedir uma eventual detenção foi obtida depois de a escuta ter sido suspensa.

Mas o juiz responsável pelo processo “Lava Jato”, Sergio Moro, defendeu a legalidade desta gravação mesmo depois de emitida a ordem judicial para interromper as escutas telefónicas do ex-Presidente.

De acordo com a imprensa brasileira, o fim das escutas foi determinado às 11:12 de quarta-feira e a conversa sobre o documento que só deveria ser usado “em caso de necessidade” foi registada às 13:32.

Para o juiz, a explicação é simples: no curto espaço de tempo que decorreu entre a ordem que determinava a interrupção das escutas e a hora em que ocorreu a conversa entre Dilma e Lula, a notificação ainda não tinha chegado às companhias telefónicas.

Moro entende, ainda, que esta gravação “é relevante no contexto das investigações”, uma vez que, para a Polícia Federal, Dilma enviou o termo de posse a Lula como se de um salvo-conduto se tratasse, de modo a evitar um mandado de prisão antes da tomada de posse como número dois do Governo.

Além disso, escreve o juiz no despacho, apesar de Dilma beneficiar do estatuto de “foro privilegiado”, quem estava sob escuta era Lula, pelo que “a comunicação foi intercetada fortuitamente”.

No despacho, Moro faz ainda referência ao escândalo político conhecido como Watergate e que culminou na renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon, para dizer que “nem mesmo o supremo mandatário da República tem um privilégio absoluto no resguardo de suas comunicações”, numa alusão clara a Dilma Rousseff.

 

Telefonemas e mais telefonemas, que circundam numa teia de contactos e influências, que pode ler, na íntegra, abaixo:

 

Dilma envia termo de posse a Lula

 

"Se ele prender, o LULA vira um preso político e vira uma vítima"

"É um espetáculo de pirotecnia sem precedentes, querida", diz Lula da Silva

Lula da Silva: "Eu não quero incendiar o país!"