A sensação de insegurança que passou a ser uma constante na vida dos cariocas é partilhada pelos imigrantes que vivem no Rio de Janeiro e se vêem obrigados a mudar os seus hábitos para evitar situações perigosas.

«A gente tem que pensar previamente por onde vai passar antes de sair de casa e o horário que vai sair. Tem que fazer um verdadeiro mapeamento e um circuito do percurso para não ser surpreendido por assaltantes», disse à Lusa o português Eduardo Neves, 62 anos.

Nascido na cidade do Porto e a viver no Brasil desde os sete anos de idade, Eduardo Neves conhece bem a realidade do Rio de Janeiro, onde mora há mais de cinco décadas e exerce actualmente a vice-presidência da Academia Luso-Brasileira de Letras, além de presidir ao Elos Clube, entidade que promove actividades culturais para integrar a comunidade lusa.

«É preciso ter cuidado ao sair de casa. Todos da minha família já foram assaltados pelo menos quatro vezes», contou. Com saudades, Eduardo Neves lembrou os tempos em que podia transitar com tranquilidade pela «cidade maravilhosa» a qualquer hora.

Brasil: protesto contra sequestro e tortura de jornalistas

«Vivo desde 1953 no Rio e na minha juventude eu gostava de sair à noite para festas. Podia chegar a qualquer hora. Pegava bonde, autocarro e andava a pé sem preocupação», recordou, lamentando que os dois filhos jamais saberão o que é viver em segurança no Rio.

Na sua avaliação, «existe pouca atenção para identificar e neutralizar o problema da desigualdade social no Brasil e falta, além de educação, uma integração social da população carioca».

Brasil: cinco traficantes mortos

O luso-descendente António Carlos Costa, presidente do movimento Rio de Paz, criado em Janeiro de 2007, disse à Lusa que «não há como não ser alarmista», porque a situação é «demasiadamente grave».

Segundo dados do Rio de Paz, de 2000 a 2007, houve mais de 60 mil homicídios no Estado.

Somente no ano passado, foram registados cerca de 8.000 homicídios no Estado do Rio e 4.600 desaparecimentos, sendo que, de acordo com o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Cândido Mendes, 70 por cento dos desaparecidos foram assassinados.

«Se as estatísticas dos anos anteriores se repetirem, teremos, no mínimo, 4.000 mortes no segundo semestre deste ano no Estado do Rio. Este quadro justifica a presença das Forças Armadas aqui», defendeu.

Para alertar as autoridades para essa triste projecção, o movimento Rio de Paz vai promover, na sexta-feira, uma grande manifestação na praia de Copacabana, onde a comunidade portuguesa deverá juntar-se aos brasileiros no protesto contra a violência.

Organizadores vão encher de gás 4.000 balões vermelhos para representar o número iminente de mortes no Estado nos próximos seis meses do ano.

Numa grande faixa estarão escritos os dizeres: «São dias de indiferença, insanidade e maldade nunca vistos na história do Estado do Rio de Janeiro».

Já fomos 2,5 milhões

Actualmente, cerca de 300 mil portugueses vivem no Estado do Rio de Janeiro, onde existem 46 associações lusitanas entre clubes, casas regionais, entidades culturais, filantrópicas e beneficentes. Nos anos de 1950, os cidadãos portugueses eram cerca de 2,5 milhões.

A comunidade portuguesa tinha maior concentração no centro da cidade e nos bairros de Fátima, Gamboa, Catumbi, Tijuca, Rio Comprido, na zona Norte, e em Jacarepaguá, na zona Oeste, actualmente regiões ocupadas por grandes favelas e controladas pelo narcotráfico.

Em todo o Brasil, a estimativa é de que vivam 650 mil portugueses, a maioria (cerca de 90 por cento) concentrada nos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.