O jornal Libération não se poupa nas palavras. Fala mesmo de mentira da parte das autoridades francesas, e em particular do ministro do Interior, por terem garantido haver um dispositivo policial adequado no Passeio dos Ingleses, a marginal rente ao Mediterrâneo, na cidade de Nice, na noite de 14 de julho.

A investigação do jornal parisiense dá conta de estarem apenas dois polícias municipais no acesso à marginal, por onde entrou o camião conduzido por Mohamed Lahouiaej Bouhlel. O atentado, na noite de festa do 14 de julho, dia nacional francês, fez 84 mortos e cerca de 200 feridos.

Pressionado politicamente, o ministro do Interior Bernard Cazeneuve anunciou esta quinta-feira a abertura de um inquérito para apurar que dispositivo policial estava realmente montado.

Será o organismo estatal conhecido como “a polícia das polícias” que irá averiguar a situação, uma decisão já louvada pelo governo regional da Riviera, mas que não cala a oposição política ao governo dos socialistas franceses.

Le Pen quer “a cabeça” de Cazeneuve

Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, de extrema-direita, já veio exigir a demissão do ministro.

A demissão de Bernard Cazeneuve, que se apressou a acusar o Libération de conspiração sem ter ainda verificado os factos avançados pelo jornal, parece doravante inevitável. É uma questão a seu tempo de honra política e de transparência democrática”, sustentou a líder da Frente Nacional em comunicado.

Ainda à direita, os Republicanos do ex-presidente Nicolas Sarkozy reclamam o total esclarecimento sobre o dispositivo de segurança montado no terreno.

É necessário que uma comissão de inquérito parlamentar faça toda a luz sobre os factos. Os franceses têm direito à verdade e a nossa democracia tem o dever de lhes trazer essa verdade”, sustentou um porta-voz dos Republicanos.

Em resposta, o próprio presidente François Hollande aplaude a vontade de “verdade e transparência” que o seu ministro pretende agora alcançar com a abertura do inquérito.

Esta decisão inscreve-se numa procura de transparência e de verdade devidas às vítimas e às suas famílias, que foi sempre a do governo após o terrível atentado de Nice”, sustentou Bernard Cazeneuve.

Onde parava a polícia?

A necessidade de esclarecer como estava realmente montado o dispositivo policial em Nice, na noite de 14 de julho, põe, contudo, em causa anteriores declarações dos governantes franceses.

No passado sábado, o ministro Cazeneuve garantiu que o controlo policial estava bem montado.

A polícia nacional estava presente e bem presente no Passeios dos Ingleses”, sustentou Cazeneuve.

E o primeiro-ministro viria mesmo a secundar estas afirmações no parlamento francês.

Nunca aceitarei a acusação vergonhosa que insinua que tudo poderia ser evitado, porque dizer isso, é desacreditar a nossas forças de segurança que se batem todos os dias e que conseguem resultados”, sustentou Manuel Valls.

Contra os argumentos invocados, o jornal Libération apresenta esta quinta-feira outros factos, que não batem certo com o esquema de proteção policial que, segundo foi dito, estaria montado em Nice, por ocasião dos festejos do 14 de julho.

Com base em vídeos, fotografias e testemunhos de fontes policiais, o jornal adianta que na zona onde o camião entrou estavam apenas dois efetivos da polícia municipal de Nice.

Pior ainda. A ausência de polícia nacional no acesso ao Passeio dos Ingleses, segundo o jornal, até estaria conforme com o plano de segurança traçado em reuniões preparatórias. E que por isso não coincide com as informações apresentadas pelas autoridades após o atentado.