Quatro dias depois dos atentados em Paris, começam a surgir os detalhes da operação policial que teve lugar no Bataclan, para tentar travar os terroristas. Tiroteios, reféns e explosões, o cenário parecia “algo vindo do inferno de Dante”, assegurou um dos primeiros polícias a chegar ao local.

Duas horas e meia de terror vivido no Bataclan e que, quem experienciou, nunca mais vai conseguir apagar da memória.
 

22:00: o primeiro agente entra no Bataclan


Durante o concerto da banda Eagles of Death Metal, na sala de espetáculos de Paris, soaram os primeiros tiros, no auditório principal.

De acordo com o Le Monde, o primeiro polícia chegou ao local dez minutos depois do início do tiroteio, perpetrado por três terroristas. Dois deles eram Omar Ismael Mostefai e Samy Amimour.

O agente disparou contra um deles e, nesse momento, o cinto de explosivos que o atirador carregava explodiu. O jornal francês conta que os presentes não conseguiram precisar se a bomba foi detonada por causa do disparo ou se o terrorista a fez explodir.

A primeira unidade policial chegou ao Bataclan alguns minutos depois e permaneceu no piso zero.
 

“Quando entrámos estava escuro. Havia dezenas de corpos emaranhados no chão, mortos e feridos. Havia sobreviventes que fingiam estar mortos e que temiam que também fôssemos terroristas”, disse um membro da polícia, que se identificou como “Jean”, em entrevista à MYTF1.

“Toda a gente estava a pedir ajuda. As pessoas estavam a sussurrar, com medo que o tiroteio recomeçasse. Para nós a prioridade era garantir a segurança na área. Continuámos. Não era claro se os outros dois terroristas estavam no local e, se estavam, onde estavam”.


Entretanto, uma unidade especializada foi destacada para o local. Um dos agentes afirmou, em entrevista ao Le Monde, que o cenário se assemelhava a um “inferno dantesco” e que havia um silêncio aterrador, que apenas era interrompido pelo som dos telemóveis, que tocavam porque os familiares e amigos das vítimas ligavam incessantemente para se assegurarem que os entres queridos estavam bem.
 

22:15: autoridades vasculham o primeiro piso


Dois grupos da elite militar, constituídos por 20 homens armados, dirigiram-se para a varanda do edifício. Segundo o The Guardian, os dois terroristas que tinham sobrevivido estavam no primeiro piso.

Quandos as autoridades vasculharam as divisões, encontraram muitos reféns escondidos, em pânico.
 

“Retirámos de lá os reféns. Andavam como zombies. Estavam num estado atordoado. Estavam com dificuldades em fugir”.

 

23:15: polícia encontra terroristas, que ameaçam explodir com o edifício


Uma hora depois da polícia ter começado as operações, encontrou finalmente os terroristas. Contudo, não estavam sós. As autoridades chegaram a uma porta, depois de ouvirem uma voz. Pertencia a Sébastien, um dos reféns, que os responsáveis pelo ataque estavam a usar como guia.
 

“Ele disse que os terroristas estavam com ele e que, se a polícia abrisse a porta, eles iam explodir com tudo”.


Sébastian esteve com os terroristas cerca de duas horas e meia e, mais do que um guia, era um escudo para os proteger contra a resposta das autoridades francesas. O homem contou, em entrevista à RTL, que os atacantes explicaram às vítimas o porquê do atentado.
 

“Eles concederam-nos um sermão, um discurso, a explicar por que estavam ali. Disseram-nos que era por causa das bombas que estavam a ser largadas na Síria. Disseram que estavam a fazer-nos a nós, ocidentais, o que lhes estávamos a fazer a eles, lá. Levaram-nos para o átrio enquanto os feridos ainda estavam a morrer. Afirmaram que isto era apenas o começo e que a guerra estava apenas a começar.

Perguntaram-nos se concordávamos com o Estado Islâmico. Deixo-vos a imaginar o silêncio que foi imposto naquele momento. Os mais tímidos abanaram a cabeça e os mais corajosos disseram que sim”.

 

23:20 até às 00:20: começam as negociações 


O cerco continuou e, finalmente, um dos terroristas aceitou negociar com as autoridades, através de chamada telefónica. De acordo com o The Guardian, houve cinco conversações entre a polícia e os terroristas, mas de nenhuma surgiu um acordo.

Em vez disso, os atacantes exigiram apenas que as autoridades se retirassem ou iriam decapitar ou balear os reféns, ou então poderiam optar por atirá-los pela varanda. Pediram ainda para falar com os meios de comunicação.
 

“Pediram-nos que olhássemos pela janela e lhes disséssemos onde estava a polícia. Mandaram-nos dizer para se afastarem”, contou Sébastian.

 

00:20: a operação de resgate


Os agentes receberam ordens para acabar com o cerco. Deveriam entrar no corredor, de 12 metros, onde estavam os sequestradores e as vítimas, e abater os terroristas. Mas, assim que abriram a porta, os responsáveis pelo ataque abriram fogo.

Cerca de 30 balas foram disparadas, enquanto os reféns gritavam, deitados no chão.

Sébastian contou que, nessa altura, ajudou uma mulher grávida que estava pendurada na varanda do Bataclan a subir a janela.

As unidades policiais ajudaram os reféns a sair do edifício e a polícia começou a lançar granadas contra os terroristas. Um deles morreu no confronto, o outro suicidou-se, fazendo com que os explosivos que carregava explodissem.

A operação de resgate demorou apenas três minutos. Depois de horas de terror no Bataclan, os reféns estavam agora a salvo. Mas, para trás, ficaram 129 vítimas, que perderam a vida nessa noite.