Da vitória da CDU de Angela Merkel nas eleições de domingo a um bloco central com os sociais-democratas, as previsões de berlinenses ouvidos pela Lusa dividem-se, mas todos afirmam que a receita alemã de austeridade deve mudar.

Sentado na sua moto na Kurfurstendamm, uma das mais movimentadas avenidas da capital alemã, Uli Gressener disse à Lusa que Merkel deverá partilhar o poder numa «grande coligação» com os sociais-democratas do SPD, defendendo que seja quem for a governar, «está na hora de fazer mais pelas pessoas normais e não pelas empresas, seja na Alemanha, seja em países como Portugal e a Grécia».

«O que a CDU fez nos últimos anos não está errado, fez muito pela economia e a Alemanha tornou-se um país poderoso, mas as pessoas têm menos dinheiro nos bolsos», afirmou.

O desenhador gráfico entende que a Alemanha deve ajudar financeiramente os países em crise porque o país está inserido «numa grande comunidade e é preciso ajudar quando alguém precisa».

Afirma que vai «de certeza votar» mas ainda não decidiu em quem: «só no último minuto, quando estiver frente ao papel, mas devo votar mais para a esquerda que para a direita», adiantou.

Michael, um engenheiro, está frente a uma das centenas de lojas de marcas internacionais instaladas na Kurfurstendamm, no centro de Berlim, e diz também que o resultado deverá ser renhido, levando democratas-cristãos e sociais-democratas a coligarem-se.

Defende que a austeridade não pode manter-se porque serão os alemães a perder, a longo prazo, se a recessão se agravar em países como Portugal e a Grécia.

«Somos uma união e se as economias dos outros países recuperarem, todo o mercado [europeu] ficará melhor», argumenta.

A crise em Portugal e na Grécia chega-lhe só «pela televisão, que nunca mostra todos os lados», mas este berlinense reconhece que «deve ser muito difícil para as pessoas de lá».

Michael aponta que «talvez os governos tenham cometido erros no passado e agora as pessoas têm que pagar por eles», acrescentando que a estratégia alemã agora deve ser mais virada para a «prevenção» de crises na zona Euro, para evitar mais resgates, cujo dinheiro «vai para os bancos, não para as pessoas».

Anne, mãe de um recém-nascido, acha que «Merkel vai ganhar e nada vai mudar».

«Ela não mudou nada nos últimos oito anos e vai continuar assim», refere a jovem assistente médica, indicando que a austeridade deve abrandar porque os países europeus, «como são o mesmo continente, têm que se ajudar».

Daniel, um estudante de teatro, vai dar o seu voto a Peer Steinbrück, o principal candidato do SPD, e afirma que Angela Merkel «não tem estratégia», acusando-a de fazer «crescer a Alemanha tornando os outros países mais pobres».

Afirma não ter problema com o dinheiro alemão que vai para ajudar as economias dos países periféricos, porque «sem a Europa, a Alemanha também pode cair».

Guillaume, um investigador francês na área do meio ambiente radicado em Berlim, reconhece no seu país natal «o início de uma crise, mas não ao ponto do que se passa na Grécia, por exemplo».

Acredita que Merkel deverá ganhar, mas reconhece que algum dos partidos mais pequenos pode vir a «complicar o equilíbrio» das forças no parlamento alemão.

É isso que, na sua opinião, poderá fazer mudar a receita de austeridade, que não acredita ser solução.

«A solução pode ser esses países saírem durante alguns anos do Euro, começarem do zero e depois, com uma base mais sólida, pessoas novas, voltarem dentro de dez ou vinte anos», sugere.