A secretário-geral adjunta das Nações Unidas, Amina Mohammed, advertiu esta sexta-feira, em Marrocos, que os maus líderes já não são apenas do sul, apelando a uma união para garantir boas lideranças em todo o mundo.

Durante anos, os maus líderes eram do sul. Eles não faziam o que deviam pelos seus países. Responsabilizámo-los, impedimo-los de participar em sessões, suspendemo-los, tentámos prendê-los através dos tribunais internacionais", afirmou a responsável da Organização das Nações Unidas (ONU), intervindo no "Debate sobre Liderança", no arranque do "Fim de Semana da Governação Ibrahim", que decorre até domingo em Marraquexe, Marrocos.

Mas, avisou Amina Mohammed, "agora não há fronteiras para líderes como estes, já não são do sul".

"Por isso, todos temos de nos erguer e realmente falar sobre o que precisamos a nível de liderança e dos resultados que queremos ver", defendeu.

A secretária-geral adjunta admitiu que as Nações Unidas "não estão a funcionar como deviam".

É por isso que entramos e esperamos que, com a nossa experiência, as redes, com tudo o que temos, conseguir apoiar os 193 países a fazer o que está certo. Não temos outra escolha", disse.

Amina Mohammed relatou o momento em que recebeu o convite do secretário-geral da ONU, o português, António Guterres, para integrar a sua equipa.

"Eu perguntei-lhe porque é que aceitou este trabalho em tempos tão miseráveis. Ele respondeu apenas que é um imperativo moral", referiu.

O encontro de três dias, que reúne líderes políticos, responsáveis de organizações multilaterais e regionais e representantes do mundo empresarial e da sociedade civil, pretende debater o tema "África num ponto de viragem".

A Fundação Mo Ibrahim, que se dedica há dez anos a promover a liderança e a boa governação em África, alerta para o peso da juventude no continente, onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos.

Vemos a juventude não como um dividendo, como um ativo, mas como um problema, um fardo, seja no contexto de conflitos, migrações, drogas, tráfico. Não é uma boa imagem", lamentou a responsável da ONU.

Antes, o antigo presidente alemão Horst Kohler perguntou: "Não são estes tempos estranhos para falar sobre liderança?".

"Por um lado, há um desprezo sem precedentes pelos líderes e pelas chamadas elites. Por outro lado, assistimos, em todas as culturas, a um renovado fascínio pelo autoritarismo, a ideia sedutora de um homem forte que pode resolver todos os problemas, se lhe derem todo o poder", afirmou.

Na sua intervenção, Kohler centrou o tema da liderança na questão da confiança e lamentou o "crescente desprezo pela confiança como base das relações entre líderes e os seus cidadãos e entre líderes de diferentes países".

"A erosão da confiança nas instituições e nos líderes políticos é uma das principais causas dos problemas políticos e económicos na Europa, nos Estados Unidos ou em África. A confiança é tida como um tema fraco, mas é uma questão de sobrevivência para a democracia", sustentou.

E, acrescentou, conquistar a confiança dos cidadãos é "ridiculamente simples: basta ser verdadeiro".

A Fundação Mo Ibrahim publica anualmente o Índice Ibrahim de Governação Africana, que recolhe mais de cem dados sobre todos os países africanos. A organização também atribui prémios de excelência na governação africana, tendo já distinguido o antigo Presidente sul-africano Nelson Mandela ou os ex-Presidentes Joaquim Chissano (Moçambique) ou Pedro Pires (Cabo Verde).