Esta terça, 4 de novembro, os Estados Unidos da América vão escolher os 435 deputados da Câmara dos Representantes e ainda um terço do Senado (33 lugares).
 
Para lá dessa escolha federal, os americanos serão também chamados a eleger a representação estadual: os governadores de 38 estados e os congressistas em 46 estados norte-americanos (só Luisiana, Mississipi e Nova Jérsia e Virgínia não irão a votos para o seu congresso estadual esta noite).
 
As eleições intercalares («midterms») despertam muito menos atenção mediática e popular que as eleições gerais (que também escolhem os 435 membros da House e um terço do senado, mas têm o prato forte da escolha do Presidente).
 
Essa diferença é facilmente identificável na adesão popular: embora, no geral, as eleições na América tenham menos participação do que os atos na Europa, nas últimas eleições presidenciais têm-se verificado uma subida na taxa de votação para valores superiores a 50%. Em contraponto, as últimas intercalares só concitaram as atenções de 37% dos eleitores.
 
A avaliar pelas pesquisas das últimas semanas, não é de prever que estas «midterms» 2014 venham a ter uma percentagem de votação mais elevada. E isso poderá ter um efeito de «falso positivo» na avaliação dos resultados.
 
Descontado o grau de imprevisibilidade que as eleições na América sempre têm, tudo indica que se assistirá a um forte vitória republicana (maioria na House, possível maioria no Senado e mais governadores eleitos).
 
No entanto, esse dado muito pouco indicará em relação aos votos das eleições presidenciais de 2016: o grau de participação será bem maior daqui a dois anos e, por outro lado, o sistema de eleição é diverso.
 
Enquanto o Presidente é eleito por um Colégio Eleitoral de Grandes Eleitores indicados em representação de cada estado (sendo que o candidato presidencial mais votado obtém a totalidade dos Grandes Eleitores em casa estado), nas eleições para o Congresso prevalece o voto popular, com um sistema de apuração de eleitos proporcional.
 
Projeções do «Real Clear Politics», site que reúne o conjunto das principais sondagens, apontam para um ligeiro reforço dos republicanos na Câmara dos Representantes: dos atuais 234 lugares, os deputados do Partido Republicano deverão passar a ser entre 244 e 248.
 
Se para a câmara baixa não há grandes dúvidas que o triunfo recairá para o lado republicano, o grande prémio da noite será o controlo do Senado.
 
Os republicanos precisam de arrecadar seis vagas aos democratas e a tendência, nestes dias finais, é apontar para que isso irá mesmo acontecer.
 
Nate Silver, o «mago» das previsões de eleições na América (não por qualquer dom de adivinhação mas pelo método de cruzamento exaustivo de dados que criou e que o levou a acertar em cheio nas últimas duas eleições presidenciais), aponta 74% de probabilidades dos republicanos tomarem o controlo do Senado.
 
Em entrevista a George Stephanopoulos, na ABC, o autor do site «Five Thirty Eight» comentou: «Não é ainda tão certo como era há dois anos a reeleição de Obama, mas diria que é muito provável que os republicanos obtenham o controlo do Senado. Mas ainda há disputas renhidas. Os democratas até têm algumas hipóteses de vencer em estados como Alaska, Geórgia ou Kansas. Mas é muito provável que os republicanos vençam «swing stares» como Colorado e o Iowa. E parece-me praticamente certo que os democratas tenham já perdidos pelo menos quatro lugares».

Caso os republicanos arrecadem mesmo o Senado, a grande questão política do «day after» destas eleições será: iremos assistir a uma nova ofensiva republicana, com base no Capitólio, para boicotar os dois anos finais do Presidente Obama?

A resposta pode demorar a surgir, mas os sinais estão aí.

Mitch McConnell, provável líder da futura maioria republicana no Senado (foi o líder da «minoria» na mesma câmara até agora...), o tal senador que dissera há quatro anos (após as intercalares que deram grande vantagem aos republicanos na House e pequena maioria democrata no Senado) que «o objetivo político número um dos republicanos no Congresso» era «evitar o segundo mandato de Obama», já não irá a tempo de atingir essa ambição.

Mas talvez venha a ter na mão, a partir de amanhã, a chave para complicar o que resta desse segundo mandato presidencial do seu adversário democrata.
  
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»