41 anos e um histórico de desavenças profissionais culminaram num "homem infeliz", com sede de uma vingança, pelos alegados comentários raciais que faziam por ser negro. É esta a descrição que chega dos EUA do jornalista Bryce Williams, nome profissional de Vester Lee Flanagan, o homem que matou dois colegas do canal de televisão WDBJ, na Virginia: a repórter Alison Parker e o operador de imagem Adam Ward, em direto. 

Segundo o manager da estação filial da CBS, Jeffrey A Marks, o ex-funcionário tinha má reputação profissional, porque era difícil trabalhar com ele. 

"Depois de muitos incidentes e de a sua raiva ter vindo à tona, dispensámo-lo. E ele não reagiu muito bem, tivemos de chamar a polícia para escoltá-lo até sair do prédio".


Flanagan chegou, sabe-se agora, a acusar várias entidades patronais de racismo no passado, para além de ter dito que foi vítima de assédio sexual e assédio moral no trabalho, segundo a ABC News, que dá conta que ele se descrevia a si mesmo como "um barril de pólvora humana". 

Em 2000, interpôs uma ação judicial contra a filial da NBC, WTWC-TV, precisamente por esse motivo. Alegou que ele e outro funcionário negro foram tratados por "macacos" e que um supervisor lhe disse uma vez que "os negros são preguiçosos e não tiram proveito do dinheiro que têm livre" para bolsas de estudo e oportunidades económicas. Perdeu em tribunal. 

Um dos seus ex-colegas nessa televisão da Florida descreveu-o como uma pessoa "peculiar", mas disse que nunca  tinha exibido comportamentos que fizessem crer que seria capaz de cometer um crime tão violento. 

"Tinha suas idiossincrasias, era um pouco peculiar, por vezes. Provavelmente não era diferente de qualquer outra personalidade em antena"


Este testemunho é citado pela Reuters e foi dado por Michael Walker, produtor daquela estação de Tallahassee, também ele negro, assegurando que ele nunca tinha sido alvo de discriminação pela cor da pele. 

Flanagan tinha uma opinião diferente e acusou a estação de rescindir contrato, na sequência de ele ter apresentado uma reportagem sobre racismo. 

A afiliada da NBC, que parou de transmitir noticiários no final de 2000, disse perante o tribunal que a não renovação do contrato foi por motivos financeiros.

Depois disso, de acordo com o seu perfil no LinkedIn (desativado de imediato depois do crime, tal como o Twitter e o Facebook), trabalhou como "representante de serviço ao cliente" em call centers para o Bank of America e para a Pacific Gas and Electric Company.

Regressou ao jornalismo em 2002, como repórter e produtor na WNCT-TV, na Carolina do Norte.




Hoje, depois de cometer o crime, ainda teve tempo de publicar um vídeo no Facebook com os homicídios e de enviar um fax para a estação televisiva ABC News, com 23 páginas, onde explicou os motivos do crime: precisamente uma reação ao racismo do tiroteio que ocorreu na igreja de Charleston, onde nove pessoas foram mortas a tiro. Flanagan fez questão de falar em "guerra racial".

Alegou, inclusive, que ex-colegas do WDBJ tinham feito comentários dessa índole em direção a ele. E queixou-se que Adam Ward, que veio agora a matar, tinha reclamado dele aos recursos humanos da empresa, depois de terem trabalhado apenas um turno juntos.

O atirador veio a morrer já no hospital, depois de ter sido apanhado pela polícia, num carro alugado há 16 dias.