Alexis Tsipras já foi nomeado oficialmente primeiro-ministro numa cerimónia que decorreu ao início desta tarde, no palácio presidencial em Atenas.

Foi o presidente Karolos Papoulos a dar posse ao líder do Syriza, que rompeu com a tradição e não fez o juramento religioso em cima da bíblia. Tsipras, que é ateu, tornou-se assim o primeiro chefe de Governo a prescindir deste juramento junto do arcebispo de Atenas, líder da Igreja grega, feito tradicionalmente antes de o vencedor das eleições se apresentar ao Presidente.

Tsipras é o sexto primeiro-ministro a tomar posse com Karolos Papoulias como presidente do país. 

A restante composição do Governo deverá ser anunciada amanhã, segundo avançou a agência Reuters, e as últimas informações apontam que o economista Yanis Varoufakis deverá ser o próximo ministro das Finanças do país.

Depois da vitória nas eleições deste domingo, o Syriza, de esquerda, conseguiu um acordo com os Gregos Independentes (ANEL), de direita, para formar coligação e constituir Governo. Os dois partidos têm em comum o facto de serem ambos anti-austeridade, mas, ainda assim, há quem preveja que o nacionalismo dos Gregos Independentes possa entrar em choque com o partido de Tsipras.

Essa é a verdadeira dúvida, porque os Gregos Independentes são um partido de centro-direita, e o Syriza é tido como esquerda radical. Ambos são anti-austeridade, mas enquanto o ANEL anunciava querer anular todas as leis impostas por consequência da troika e anular metade da dívida pública, o Syriza promete diálogo e negociações com os credores - ainda que Tsipras tenha dito no discurso de vitória que a troika é «passado». 

Este acordo com outro partido «anti-troika» pode significar que as intenções iniciais do Syriza de «fazer frente» às normas europeias sejam mesmo para cumprir. A escolha desta coligação em vez de uma com o partido mais liberal «To Potami», que ficou em 4º nestas eleições e se mostra pró-Europa, ou com os socialistas do PASOK, que ficou em 7º, faz antever que o acordo pode ter sido conseguido justamente por esse fator. Colocando as diferenças entre esquerda e direita de lado a favor do discurso «anti-austeridade» e da renegociação da dívida pública. 

Este lado era, aliás, o mais temido pela Europa em relação a uma vitória do Syriza, e a falta de uma maioria absoluta trazia alguma tranquilidade para a zona euro. Mas uma vez coligado com o ANEL, que converge nesta posição, Tsipras poderá ser mesmo obrigado a cumprir com as políticas «anti-troika» que prometeu. 

                              

Esta preocupação da Europa já se traduziu numa declaração do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, que tratou de deixar um aviso à Grécia: os compromissos financeiros mantêm-se. 

«Ninguém obriga a Grécia a nada mas os compromissos assinados mantém-se válidos e tudo que foi feito nos últimos anos foi para ajudar a Grécia», avisou o responsável.


Na mesma linha, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, felicitou o Syriza pela «vitória clara» nas eleições e garantiu que a zona euro está pronta para colaborar com o novo Governo grego. 

«Estamos prontos a trabalhar com eles, tal como sempre trabalhamos com governos gregos anteriores»


Dijsselbloem apontou que é necessário esperar que o novo Governo tome posse, para começarem as discussões, mas diz que «ninguém apoia um perdão de dívida». 

«Como sabem, já fizemos muito para aliviar o fardo da dívida da Grécia nos últimos anos, em termos de taxas de juro e maturidades dos empréstimos», referiu, apontando que o Eurogrupo também sempre se manifestou disponível para discutir a «sustentabilidade da dívida (grega)», mas somente «após completada a quinta revisão» do programa, que está ainda em curso. 


Entretanto, o fundador do partido «O Rio» (To Potami), Stavros Theodorakis, anunciou um encontro com o novo primeiro-ministro para esta tarde, pelas 19:00. Theodorakis destacou o facto de esta segunda-feira pós-eleições marcar a primeira vez que a formação de um governo é anunciada pelo líder do sexto partido com mais votos nas eleições, numa referência ao anúncio do acordo feito por Panos Kammenos, o líder dos Gregos Independentes.

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O Syriza conquistou 36,34% dos votos nas eleições de domingo, ganhando 149 lugares no parlamento, menos dois do que o necessário para ter a maioria absoluta. Os Gregos Independentes obtiveram 4,75% dos votos, conquistando 13 deputados.