Uma das entrevistadas pela agência Lusa, Ana Soares, que dá aulas de português na Universidade de Atenas, disse que, das conversas que mantém no dia-a-dia, fica com a impressão de que os gregos, que no domingo são chamados a votar pela terceira vez este ano, já não se sentem tão mobilizados como aconteceu nas eleições de janeiro ou no referendo realizado em julho passado.

“A impressão geral é a de que estas eleições são manobras partidárias, que poderão gerar mudanças aparentes no sistema político, mas que não vão ter impacto nos problemas reais da Grécia, como o desemprego, por exemplo”, afirmou a professora.

Para Ana Soares, que admite a possibilidade de uma vitória do Syriza, o partido de esquerda que governou a Grécia nos últimos sete meses, “o futuro próximo da Grécia está definido independentemente do partido que ganhe as eleições e esse futuro é a aplicação de um novo pacote de austeridade, com medidas que estão estabelecidas e que terão de ser cumpridas” para que a Grécia possa receber as várias prestações do seu terceiro resgate financeiro pela Europa, no valor de 86 mil milhões de euros.

E é esse caminho traçado e independente de resultados eleitorais que preocupa a professora de português, porque o curso que leciona na universidade funciona em regime livre, é pago pelos alunos e mais austeridade irá significar mais retração nas despesas das famílias “e possivelmente menos inscrições de alunos e uma maior incerteza profissional”.

Vitor Vicente, que também dá aulas de português, numa escola privada e em lições privadas, não se manifestou à Lusa muito preocupado com as suas perspetivas profissionais, mas partilhou da opinião de Ana Soares sobre o impacto reduzido das eleições no futuro próximo dos gregos e também antecipou uma vitória, pouco folgada, do Syriza, sobre o partido conservador Nova Democracia, e o consequente processo de formação de uma coligação governamental.

A viver em Atenas há 15 anos, Vitor Vicente justificou o seu prognóstico com a opinião de que os gregos preferem a falta de experiência governativa do Syriza à “velha política” grega, atravessada por clientelismos que muitos ainda veem no Nova Democracia, que durante décadas alternou na governação com o outro partido “tradicional”, o socialista PASOK.

As eleições antecipadas foram convocadas na sequência da demissão, a 20 de agosto passado, do líder do Syriza, Alexis Tsipras, do cargo de primeiro- ministro, depois da aprovação pelo parlamento grego, uma semana antes, de um novo pacote de austeridade que provocou uma cisão no seio do partido, com 25 deputados a demarcarem-se do caminho seguido pelo chefe do Governo e a formarem um novo partido da esquerda radical, o União Popular, que recusa a austeridade e defende a saída da Grécia do euro.

A convocação das eleições foi o culminar de um processo doloroso para os gregos, que depois de em julho passado terem dito "não" à austeridade, num referendo convocado pelo Syriza, viram Tsipras capitular, num desgastante processo negocial que se arrastou durante semanas e acabar por acordar, em Bruxelas, com um novo pacote de austeridade que deverá começar a ser aplicado pouco depois das eleições, no início de outubro.

“Este foi um verão tenso, em que as pessoas andaram pensativas e tristes, com as conversas dominadas por cenários negros”, disse Vitor Vicente à Lusa, recordando que durante cerca de um mês os gregos estiveram impedidos de levantar mais de 60 euros por dia nas caixas multibanco.

O professor de português, que também faz traduções, lembra ainda que, apesar de tudo, “a queda de governos é algo a que os gregos estão habituados", pois "desde 1974 (data em que foi instaurada a democracia na Grécia, depois da ditadura militar) houve poucos governos que tenham terminado os mandatos”.