O que seria ordem do dia político no Sul da Europa, em Berlim é uma tempestade. Os alemães gostam de cultivar estabilidade, com a mesma paciência com que os janoneses podam bonsais. Talvez por isso, o operariado político germânico se ocupe em produzir consensos com a mesma diligência que as fábricas de automóveis lança(va)m para as estradas automóveis fiáveis, seguros e acessíveis, pelo menos para a classe média do país.

O sucesso de Angela Merkel na política alemã nos últimos 12 anos é prova disso. Personalidade discreta. Aparentemente insondável aos olhos do sul. Mas confiável e previsível aos dos locais. Se os comboios chegam a horas às estações, porque não haveriam os políticos alemães de entregar aos cidadãos governos estáveis?

O problema é que, tal como os carros, também a política alemã já não é o que era. Se uns aldrabaram nas emissões, outros deixaram de saber comunicar com um eleitorado que parece procurar mais respostas do que aquelas que os partidos têm para dar, pelo menos os tradicionais.

Há 20 anos, conservadores (CDU/CSU) e sociais-democratas (SPD) representavam juntos mais de 70% dos votos. Agora, recolhem pouco mais de 50. Uma erosão que também afetou a relação entre ambos. Além disso, a extrema-direita (AfP) tornou-se a terceira força política, com 12,6%, e os outros partidos (FDP, Linke, Verdes) também cresceram.

Por essa razão, talvez, desde as eleições de 24 de setembro o país ande a dar voltas aos resultados como uma criança de dois anos a um cubo de Rubick. Mas até agora só viu resolverem-se duas das três cores necessárias para se alcançar um governo aceitável, uma vez que um executivo minoritário não é visto como viável.

Conservadores (pretos) e ecologistas (verdes) conseguiram entender-se após um mês de conversações exploratórias. Mas nem com quatro semanas de encontros preliminares foi possível seduzir os liberais (amarelos), que no domingo passado, já na última hora do dia anunciaram que não havia coligação Jamaica possível.

Pouco antes, à porta da representação do estado de Baden-Württemberg, ainda se aguardava com expectativa um possível entendimento. Lá dentro, os negociadores dos três partidos tentavam limar arestas. Cá fora, os jornalistas aguardavam pelas aparas. Mas só chegava limalha retorcida e incoerente.

Um dos repórteres alemães contava a um grupo de colegas italianos, gregos, espanhóis e portugueses que era impossível relatar com confiança o que se estava a passar. Algumas das esparsas declarações feitas à entrada por alguns negociadores de segunda linha, que se assomavam à entrada do edifício, eram desmentidas logo a seguir.

Sabia-se apenas que os algorítimos falhavam sempre em fornecer um entendimento a três sobre imigração, ambiente, imposto solidário com o leste alemão, Europa...

Pouco depois, o líder dos liberais rompia o namoro como se de um divórcio de Hollywood se tratasse. "Diferenças irreconciliáveis". A justificação das estrelas de cinema na boca de Christian Lindner, um político para quem muitos olham agora como sedento de protagonismo e à procura de capitalizar algum do descontentamento que transformou a extrema-direita na terceira força parlamentar.

Num seminário com jornalistas do sul da europa em Berlim, Stephan Evers, deputado regional de Berlim pela CDU, disse que uma coligação nunca fez parte dos planos de Lindner. O líder dos liberais - que regressaram ao parlamento após um doloroso interregno de 4 anos - talvez quisesse aproveitar apenas o protagonismo que lhe deram as negociações, para depois se descolar delas, apresentando-se como alguém que não abdica dos seus princípios por um lugar no Executivo, admitiu Evers. E as palavras de Lindner parecem indicá-lo: "É melhor não governar do que governar mal".

Mas voltemos a Merkel, que para já resistiu a esta sacudidela, assistida pelo Presidente da República, Frank-Walter Steinmeier, seu ex-ministro dos Negócios Estrangeiros. Apesar de ser um histórico do SPD, Steinmeier recusou colar-se ao partido e atirar o país de imediato para um processo eleitoral. Pediu entendimentos. Uma mensagem a que o líder social-democrata, Martin Schulz, parece agora mais receptivo. Isto depois da formação política ter pago uma fatura elevada com a "Grande Coligação" (o pior resultado em 70 anos: 20,5%).

Uma coligação em que os conservadores também foram castigados. Dizem os analistas que isso se deveu, em grande medida, à decisão (surpreendente) da chanceler em abrir as portas do país a 1,2 milhões de migrantes.

Uma boa supressa para parte da Europa (especialmente no sul) que via em Merkel pouco mais do que uma mulher fria, insensível aos efeitos da austeridade que varreu os países onde aterrou a troika. Mas uma surpresa desconcertante para parte do eleitorado germânico, que não compreendeu o alcance do gesto, num país onde são cada vez mais os que sentem que não fazem parte da lista de distribuição da abundância, que produz a maior economia da Europa.

Em Berlim, por exemplo, o desemprego chega quase os dez por cento, o preço das habitações é cada mais distante do que podem pagar os salários e o número de sem-abrigo mais elevado: 12 mil segundo Laura El-Khatib, oficial de integração da zona administrativa de Steglitz-Zehlendorf. Já Susanne Wixforth, da Federação de Sindicatos Alemães, sublinhou que no país as desigualdades são crescentes. "Um cenário pouco animador", frisou.

O terceiro lugar da extrema-direita xenófoba não se explicará, por isso, só com a chegada dos refugiados e migrantes. Apesar dessa decisão de Merkel poder ter sido o ativador de descontentamentos latentes, motivados por outros problemas, como o aumento das desigualdades sociais.

Não espanta, assim, que os votos que escaparam aos conservadores e aos sociais-democratas caíssem mais à direita e obrigassem a CDU e a CSU (os conservadores da Baviera) a arriscarem uma aliança inétida (pelo menos a nível federal) com os Verdes e os liberais. Isto depois do SPD se ter negado a prosseguir uma relação que responsabiliza pelo desgate que sofreu.

O horror à instabilidade levou a que durante semanas o cenário de um governo minoritário nem sequer fosse equacionado pela imprensa germânica, explicou a jornalista Petra Pinzler, do "Die Zeit". "A Alemanha anseia pela estabilidade", sintetizou num seminário em Berlim com membros de vários jornais, rádios e televisões do sul da Europa, apontando para o período conturbado da República de Weimar (1919-1933) como a explicação para o trauma.

Para Berlim, uma "geringonça" portuguesa ou um governo minoritário como o espanhol não são solução, salientou Petra Pinzler, que soltou uma gargalhada sobre a proposta de um colega napolitano: "Porque não mudam a lei eleitoral como em Itália?"

A atribuição de um "prémio" no parlamento para o partido vencedor, com o objetivo de contornar a fragmentação do voto, é impensável na Alemanha. Este é o país dos consensos. Em democracia, nunca teve governos minoritários nem eleições antecipadas, outra das consequências possíveis.

Após o FDP ter batido com a porta, esse parecia o cenário mais provável. Mas foi sustido por Steinmeier, que depois de apelar à reflexão, conseguiu que líder do SPD, Martin Schulz, reconsiderasse a irredutibilidade em voltar a uma coligação com os conservadores.

Esta sexta-feira, a pressão do Presidente e, provavelmente, de parte do aparelho dos sociais-democratas, parece ter dado resultado. "O SPD irá trabalhar de forma construtiva para encontrar uma forma de sair desta situação", lê-se num comunicado do partido.

O encontro entre o presidente com os negociadores de Merkel e Schulz está marcado para a próxima semana. Uma última tentativa para resgatar a estabilidade germânica. O país aguarda com ansiedade. A Europa também.